Em defesa dos covardes

Uma breve olhada pelo celular algo rotineiro como escovar os dentes, se espreguiçar e bocejar te possibilita consumir e ser consumido por diversas informações em diferentes áreas.

O grande problema é que essas informações são publicadas sem uma verificação de integridade, e você, como um simples bocejo matinal, compartilha sem ao menos ler, justamente porque o título da matéria já era tudo o que queria escutar. Simplesmente não tem como ser falso, não é mesmo? E para ser sincero nem se importaria se fosse, acabou de ganhar sua munição diária para mais um dia de guerra na imposição de posicionamentos. Agora aquele sobrinho mala irá ficar sem revide, e no fundo é isso que importa, você precisa estar certo.

Pronto, a receita para o desastre está feito. Em um ambiente onde fatos se confundem com opinião, a mentira se confunde com a verdade e a covardia se complexifica em mau-caratismo se faz muito difícil manter a parcialidade da opinião baseada em fatos verídicos.

Esses dias me peguei pensando na definição de covarde para o dicionário, pesquisando achei o seguinte resultado: “que ou quem age com temor diante de alguém ou de algo; que ou quem não apresenta valentia.” Pensando nessas palavras, descobri que minha linha de pensamento estava levemente equivocada, depois de tantas vezes aderir o adjetivo para os negacionistas.

A verdade é que falta muito para os negacionistas serem considerados covardes. Antes de tudo, são definidos pelo termo mau-caráter, que segundo o próprio dicionário “que ou quem é capaz de atos traiçoeiros; que ou quem não é pessoa confiável.” E é isso o que basicamente define um anticientificista. São agentes do caos, que tendem a enganar muitos com a famosa dialética da liberdade de expressão como pressuposto, mas não se enganem: falsas afirmações não são opiniões e podem ser tão prejudiciais a longo prazo quanto uma guerra.

Esses indivíduos habitam em uma espécie de realidade alternativa, criada com a narrativa que lhes servirem melhor, e sim, alguns sabem que estão lutando contra fatos irrefutáveis, mas abraçam um modelo de comunidade em que se sentem livres para manifestar absurdos sem serem julgados. De maneira que expor preconceitos como homofobia, transfobia e machismo se tornam apenas uma questão de opinião e são respeitadas como um direito de expressão. A maior preocupação é ver que, sujeitos como esses, vem ganhando voz diariamente. Passam longe de serem maioria (ufa!) mas fazem muito barulho, o alarde sendo um dos principais métodos de atuação dos mesmos.

Se eles são compostos por uma minoria específica, a mídia, acadêmicos ou grande parte de pessoas informadas conseguem contrariá-los facilmente. Então por que oferecem perigo com tanto poder de voz? É agora que vem o grande plot twist: nós mesmos, em parte, alimentamos diariamente a escala de repercussão em suas falas, atos ou vídeos. Em resumo, ampliamos de maneira intensa o “megafone” nas mãos erradas, que ecoam em um país historicamente mal gerido no ramo da educação, e o resultado não pode ser outro senão a catástrofe se espalhando exponencialmente pela sociedade.

As vezes, o silêncio pode ser a melhor resposta. Nem sempre é fácil ignorar, mas um bom exercício é denunciar postagens inverídicas, assim o conteúdo não aparece mais em seu feed e se sentirá tomando alguma atitude relevante. Outra opção viável é combater a mentira com a vericidade e compartilhando a revista O Sabiá, uma mídia independente que tem o compromisso com a verdade e somente ela, é uma boa maneira para se começar!

Vale lembrar que, enquanto vos escrevo, Renan Bolsonaro — o filho 04 — , tem mais de 50 milhões de visualizações em suas redes no tiktok. O megafone precisa ser emudecido e tem de começar por nós, para que no futuro quem saiba, os cantos das cigarras no verão tenham mais relevância que o guincho dos camundongos em seu pedestal de mentiras.



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