Trabalhadoras informais: impacto econômico durante a pandemia

Com aproximadamente 535mil mortes por covid-19 no Brasil até o dia de hoje, o aumento de casos e surgimento de diferentes variantes dessa doença tão mortal tem prejudicado diretamente a economia do país e do mundo. O crescimento de trabalhos informais e o impacto desses fatores para a camada mais pobre da sociedade deve ter sua importância destacada. Com um recorte de gênero desse grupo, entendemos as mulheres como as mais prejudicadas nessa fase. Principalmente por serem a maior parte de trabalhadoras inseridas nos setores econômicos mais afetados, além de responsáveis pelos cuidados familiares.

Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), na América Latina e no Caribe, por volta de 18 milhões de pessoas se dedicam ao trabalho doméstico remunerado, sendo 93% mulheres. Tania Paes, Doutora e Mestra em Economia pela UFRJ, comenta: “Mulheres são maioria nos trabalhos domésticos, que ainda permanece com elevado grau de informalidade e, por outro, elas são minoria nos postos de trabalho ligados à produção, como indústrias, construção civil, transportes etc. Ao final de 2019 as mulheres representavam 93% de todo o emprego doméstico, sendo que a grande maioria (73%) nem sequer tinha registro profissional. Quando se cruzam essas informações com a etnia, nota-se que a grande maioria é composta por mulheres negras.”

Considerada pela ONU como a “maior crise sanitária da nossa época”, no quesito econômico a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. A maior parte das mulheres são trabalhadoras dos setores da economia mais vulneráveis, além de serem as responsáveis pelo cuidado dos filhos (seus e dos patrões), que estão sem ir à escola por conta da crise. O jeito encontrado por aquelas que possuíam empregos formais, foi recorrer a atividades informais. Assim houve um aumento marcante dessas mulheres no mercado de costura e venda de máscaras, de produção de alimentos para delivery, entre outros.

O auxílio emergencial criado pelo governo em abril do ano passado- cerca de dois meses após o primeiro caso de infecção pela doença no país- foi a maior e mais importante política pública adotada pelo governo diante a pandemia, que somente foi aprovada após uma grande pressão por parte do Congresso. A não procura por empregos por medo de contágio, e a pouca aderência de serviços em diversos setores, fez com que houvesse um aumento significativo do desemprego.  

Esse benefício deu início a um apoio pelo qual esses trabalhadores estavam procurando. Entretanto, após três meses, foi reduzido à metade, e encerrado no final do mesmo ano (quando houve novamente o aumento dos casos da doença). Mesmo tendo ajudado uma parte significativa da sociedade, esse benefício acaba sendo pequeno quando relacionado ao aumento de preços de gás, luz, e principalmente de alimentos “básicos”.

Segundo os dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), o número de pessoas fora da força de trabalho no Brasil teve uma alta de 25%. O custo de vida durante esse período aumentou de forma considerável. Conseguimos observar esse fato com a renda média domiciliar no primeiro trimestre de 2021 tendo sido apenas de R$ 1.065, representando queda de 10% em relação a 2020, e ainda com as taxas de desemprego batendo recorde, que continuou crescente durante os quatro primeiros meses desse ano.  

Por conta da crise econômica durante a pandemia, cada vez mais pessoas passaram a usar o transporte público, o que ajudou a causar mais aglomerações nos mesmos. “Os transportes precisam de mais fiscalização, sabe? Mas também instruir os motoristas e funcionários! Como eles vão pedir para os passageiros colocarem máscara se nem eles usam?”, comenta Cecília, a feirante de 27 anos. Segundo ela, as condições dos transportes são péssimas, com menos linhas e cada vez mais passageiros a situação vem em crescente piora.  

Com a maior movimentação nos transportes, as pessoas que precisam deles para ir aos seus serviços acabam correndo cada vez mais riscos e temem pela saúde de seus parentes e deles mesmos. Segundo Ludileine, caixa de supermercado, esse é o ponto que a mais preocupa. Mãe de dois meninos (15 e 8 anos) que estão estudando em casa e cuidando um do outro quando ela precisa se ausentar, ela se diz abençoada por nenhum dos três ter se infectado com a doença. “Espero e rezo todo dia para a gente não pegar o covid. Tento me cuidar ao máximo, mas não depende só de mim! Só de pensar que eu posso levar covid pros meus filhos me deixa sem sono.”  

A preocupação da maioria das mulheres que tem que trabalhar nesse período é o mesmo de Ludileine. Contudo, como a mesma relatou, se ela não se arriscar, a família não teria o que comer. Uma grande massa da sociedade ainda acredita que a economia não pode parar mesmo na situação crítica que ainda nos encontramos, mas pelo que foi citado é de fácil percepção que o mundo “não parar” afeta diretamente a parcela menos favorecida economicamente de brasileiros. “A aceleração da contaminação parou a economia”, não teve como evitar o lockdown e contribuiu para estender a crise pandêmica. O governo deveria ter instituído mais cedo e por maior tempo o isolamento social e ter ampliado os benefícios e os programas de transferência de renda para famílias, de trabalhadores formais e informais, ter investido mais e mais cedo em Ciência e Tecnologia, especialmente para áreas capazes de enfrentar a pandemia, de forma a garantir nossa capacidade de desenvolver medicamentos e vacinas.”, comenta a economista Tania Paes.

Muito é dito sobre home-office e a dificuldade de mulheres em se habituar a rotina desse “novo normal”, entretanto, é importante conseguirmos perceber o tamanho do privilégio desse grupo. Milhares de trabalhadoras durante a crise perderam não só suas rendas, como suas casas, e é delas também que precisamos começar a falar e pesquisar. As necessidades são muitas, a população implora por auxílio. Antes afetar a economia, do que vidas.



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