Principal opositor de Modi foi espionado pelo governo

Foi reportado neste domingo que o spyware Pegasus está sendo utilizado para espionar políticos, jornalistas e ativistas ao redor do mundo. Em um vazamento obtido pela Anistia Internacional e Forbidden Stories, uma organização sem fins lucrativos de mídia, uma lista de potenciais alvos e pessoas de interesse para clientes do grupo NSO – empresa de tecnologia e vigilância israelense – foi obtida. O grupo em questão é responsável por criar o Pegasus, um spyware de última linha, capaz de invadir aparelhos telefônicos, permitindo que todos os arquivos do celular sejam extraídos e que o operador da ferramenta grave chamadas ou ative microfones e câmeras secretamente. Além disso, o spyware também pode identificar onde você está, onde esteve e quem conheceu.

Agora, em uma nova investigação reportada inicialmente pelo jornal britânico The Guardian, é descoberto que a ferramenta foi utilizada para espionar o principal rival de Narendra Modi – primeiro-ministro da Índia, grande aliado de Jair Bolsonaro (sem partido) e da extrema-direita mundial. Rahul Gandhi foi selecionado duas vezes como um alvo potencial de vigilância em dados de números de telefone vazados, tornando-o um entre dezenas de políticos, jornalistas, ativistas e críticos do governo indianos cujos números foram identificados como possíveis alvos para os clientes do governo da empresa israelense.

Dois números pertencentes a Gandhi, que liderou o partido do Congresso durante as últimas eleições nacionais da Índia, foram selecionados como possíveis candidatos para espionagem no ano anterior à votação, e nos meses seguintes da mesma. Telefones de quase cinco amigos próximos do opositor e outros funcionários do partido também foram identificados como alvos em potencial, de acordo com uma lista vazada de quase cinquenta mil números telefônicos de potenciais alvos e pessoas de interesse para clientes do grupo NSO.

No entanto, não é possível afirmar que os telefones na lista foram, de fato, infiltrados com sucesso pelo spyware sem uma análise forense adequada. O consórcio investigativo do projeto Pegasus – criado pela Anistia Internacional e Forbidden Stories em parceria com mais de oitenta organizações de mídia para analisar o material – confirmou infecções por Pegasus, ou sinais de potenciais infecções, em telefones ligados a dez números indianos. Gandhi troca seu aparelho a cada poucos meses, justamente para evitar vigilância, portanto não foi possível fornecer o telefone que usou na época. Contudo, é afirmado pela perícia que uma houve uma invasão bem sucedida, que teria concedido ao governo de Modi acesso aos dados privados do principal adversário do primeiro-ministro no ano anterior às eleições.

“A vigilância direcionada do tipo que você descreve, seja em relação a mim, outros líderes da oposição ou mesmo qualquer cidadão da Índia que cumpre a lei é ilegal e deplorável”, disse Gandhi, em entrevista para o The Guardian. “Se suas informações estiverem corretas, a escala e a natureza da vigilância que você descreve vão além de um ataque à privacidade de indivíduos. É um ataque às bases democráticas do nosso país. Deve ser investigado exaustivamente e os responsáveis ​​identificados e punidos”, afirmou.

A escolha do telefone do líder da oposição como possível alvo de vigilância coincidiu com a identificação dos números de dois membros da equipe, Sachin Rao e Alankar Sawai, que na época estavam trabalhando nas próximas campanhas eleitorais estaduais contra o partido de Modi em Haryana e Maharashtra, dois estados indianos.

Outra análise forense, conduzida pelo Laboratório de Segurança da Anistia Internacional, indicou que um estrategista político que trabalhava para o partido opositor a Modi, Prashant Kishor, também foi um alvo da empresa – os analistas estabeleceram que ele havia sido hackeado usando Pegasus ainda naquele dia em que o dispositivo foi examinado. A perícia também encontrou evidências de intrusão de Pegasus em abril – no meio da campanha eleitoral – indicando que os telefonemas, e-mails e mensagens de Kishor estavam sendo monitorados ao longo das semanas finais da disputa. Em entrevista para o The Guardian, Kishor disse que as descobertas foram “realmente decepcionantes”. “Aqueles que fizeram [a invasão] estavam tentando tirar vantagem indevida de sua posição de poder com a ajuda da espionagem ilegal”, afirmou.

A análise dos mais de mil números de telefone, na maioria indianos, selecionados para possível interceptação pelo mesmo cliente que pediu a espionagem de Kishor. Isso, de acordo com o consórcio, indica fortemente que agências de inteligência do atual governo indiano estavam por trás da seleção.

Outros números telefônicos nos registros incluem pessoas que já são alvos confirmados de agências de inteligência do país, como líderes separatistas da Caxemira, diplomatas paquistaneses, jornalistas chineses, ativistas sikhs e empresários com histórico de investigações policiais. A investigação também aponta dois números registrados, ou que já foram utilizados, pelo primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan. O conflito da Caxemira – que busca a separação da região para uma eventual integração com o Paquistão, diante vontade da população islâmica local – seria um dos motivos para tal espionagem do primeiro-ministro.

A potencial relação entre agências governamentais do governo de Narendra Modi e a perseguição de opositores, jornalistas e estrangeiros revela uma autocracia por parte da extrema-direita no país. Nas últimas eleições, dissidentes e opositores afirmaram que Modi, um dos únicos expoentes da extrema-direita restante no globo, ganhou através de uma fraude no sistema eleitoral. Na época, tal afirmação poderia ser descredibilizada, mas atualmente fica a dúvida se tais queixas realmente possuem seu tom de veracidade, já que a gestão conseguiu espionar seus principais opositores eleitorais.

Advogados familiarizados com a legislação do país argumentaram que o uso de Pegasus como forma de vigilância pode ser ilegal sob a lei indiana, que permite monitorar as comunicações em algumas circunstâncias, mas proíbe explicitamente a invasão de dispositivos. No entanto, a Índia não admite oficialmente ser um cliente da empresa israelense, o que se torna um obstáculo significativo para desafiar o uso do spyware em uma investigação judicial.



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