Sou um defunto
nascido dum ventre
sem gente nem futuro.

Sou um eco acidental
dum gemido celeste
rugido por um Deus
absurdo
ou surdo.
Ou tudo.

Sou uma agonizante batida
num longínquo portal dourado
ignorada pelos inalcançáveis
guardiões do outro lado.

Sou uma nota de roda pé
duma História
que nunca terá pé
nem cabeça.

Sou um verso cuspido
pela saliva alcóolica
dum poeta maldito
condenado à mediocridade
dos rótulos sociais.

Sou uma pílula letal arrancada à força
da goela incestuosa dum trágico
príncipe cego refém tanto
do homicídio quanto do sexo.

Sou um frasco de shampoo de hotel
dentro do qual uma cobra comprida
destila veneno num bilhete de amor recusado
escrito tremido num guardanapo de bar barato.

Sou um cúmplice sanguíneo
da espécie apolínea.
Uma criatura subjugada
pela razão,
pela simetria,
pela causa,
pelo não,
pelo ser,
pelo apelo pelado
das palavras
por qualquer
sentido.

Sabiá

Somos uma publicação digital e independente lançada em 15 de julho de 2020 por um grupo de jovens brasileiros que querem democratizar o acesso à informação no Brasil. Nossa redação funciona remotamente e sem financiamento ou fins lucrativos, com mais de 40 integrantes e colaboradores.