De qual disco eu gosto?


Semana passada, alguns críticos musicais que acompanho lançaram textos comentando discos da música brasileira que, de acordo com seus critérios, são sobrevalorizados. Em ambos os casos, as respostas foram semelhantes: discos como Transa, de Caetano Veloso, e A Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben, foram eleitos como superestimados e até saturados. Ainda há o caso […]


Semana passada, alguns críticos musicais que acompanho lançaram textos comentando discos da música brasileira que, de acordo com seus critérios, são sobrevalorizados. Em ambos os casos, as respostas foram semelhantes: discos como Transa, de Caetano Veloso, e A Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben, foram eleitos como superestimados e até saturados. Ainda há o caso da página no Facebook chamada ‘Melhor Álbum da Música Brasileira, Competição’, que tratou de eleger, via enquetes, justamente o que seu nome sugere. Ganhou Clube da Esquina, de 1972. No entanto, é preciso fazer uma delimitação epistemológica para não nos perdermos com os conceitos: superestimado e saturado não significam a mesma coisa, muito menos querem dizer que são ruins e, principalmente, em quais grupos são considerados assim ou não. Mais do que isso, um disco ser taxado de superestimado jamais quer dizer que seus méritos são falsos ou que exageram na avaliação positiva, apenas que outros trabalhos também são excelentes e merecem os mesmos louros. Por exemplo, uma opinião totalmente subjetiva de quem vos escreve este texto: Transa é superestimado e chato; A Tábua de Esmeralda é superestimado e genial. 

Vamos dar nomes a alguns bois. Transa, de 1972, é o primeiro trabalho de Caetano após o retorno do exílio e traz evidentes influências do rock britânico, sobretudo Beatles e Rolling Stones. Possui arranjos extensos, experimentais e cumpre o acordo antropofágico tropicalista ao misturar rock e cantigas do folclore brasileiro. Esses são os méritos, objetivos, e fazem o disco ser o que é. Aos meus ouvidos, porém, soa tudo muito chato e confuso. Reconheço a importância do disco para a música brasileira e para a carreira de Caetano, mas nem de longe é o álbum mais legal de sua discografia. Cinema Transcendental, de 1979, é  para mim, seu melhor trabalho. 

A Tábua de Esmeralda, lançado em 1974, é o disco mais aclamado de Jorge Ben, e com toda razão. Inspiradíssimo nas letras e nos arranjos, o álbum é cheio de sucessos como Os Alquimistas, Estão Chegando e Menina Mulher da Pele Preta, integrando o cânone da MPB – se eu fizesse uma lista de discos essenciais para quem deseja conhecer nossa música, certamente A Tábua estaria lá. No entanto, por ser um álbum com muitas músicas famosas, já enjoei um pouco de escutá-lo. Além disso, os subsequentes, Solta o Pavão (1975) e África Brasil (1976) – a famosa ‘Fase Mística’ –, são bem mais divertidos, mais diversos quanto aos temas das canções e o África Brasil marca a introdução da guitarra elétrica pela primeira vez no som de Ben. 

Acabou Chorare, de 1972, dos Novos Baianos. Nem há muito o que dizer desse carinha. É um baita disco, gosto do começo ao fim; mas, pelo amor de deus, ninguém aguenta mais. Parece que até Moraes Moreira, antes de falecer, declarou que estava de saco cheio. Foi eleito, em 2007, o ‘melhor álbum da música brasileira’ pela revista Rolling Stone Brasil, mas seu hype só aconteceu por volta de 2012/2013, com a popularização do acesso à internet, e o álbum caiu no gosto do jovem “diferentão” que jura que foi o único a postar uma foto no Instagram com algum verso de Mistério do Planeta.

Parece que é até crime dizer isso, mas a fase Racional do Tim Maia é intragável. Os discos Racional 1 e 2 são de uma pobreza lírica inacreditável, e os arranjos, bem aquém pra quem ficou famoso por ser perfeccionista e reclamar o tempo todo da qualidade do som. Tim Maia foi gênio e reitero mais uma vez que não quero dizer que seus discos não são excelentes, só Racional que não é tudo isso que dizem por ai.

Outros dois casos são mais nichados. Estrelar, lançado por Marcos Valle em 1983, é cultuado entre os cults e colecionadores de vinil, mas só entre essa turma. Se perguntar quem é Marcos Valle, aposto que poucas pessoas conhecerão, o que é uma pena. Talvez saibam que é autor de Samba de Verão, sua música mais famosa, mas para por aí. Elis & Tom, lançado em 1976 por… Elis e Tom (!), tem bastante apreço por conhecedores e estudiosos de música mais específicos, mas ainda passa longe do grosso das pessoas, que gostam de curtir um som sem muita exigência. Aliás, muita gente jovem que gosta de música tem birra com esse disco porque é bonitinho e descolado dizer que não curte bossa nova – e sempre dão uns argumentos patéticos. 

Como eu sempre digo, música é documento histórico e traz consigo elementos fundamentais da cultura e para a cultura. Apesar de eu ter enjoado de A Tábua de Esmeralda, adoro quando novas pessoas o conhecem e, também, por ter se tornado quase um estereótipo do Brasil (Brasil = Rio de Janeiro) dos anos 1970. O que faz um disco receber conhecimento é, inegavelmente, sua qualidade intrínseca, seu processo de criação e o gosto popular. Não é fórmula de sucesso, mas garante algumas coisas. Agora, a ação da imprensa, o jabá, a influência de formadores de opinião e até a raridade das versões em mídia físicas criam o cenário perfeito pro hype. É um pensamento mais ou menos assim: se só eu tenho, é porque é bom e meu gosto é acima da média.

Deixem Transa de lado e ouçam Caetano de Bicho pra frente. É sua fase pop no melhor sentido possível. Deem um tempo para Acabou Chorare e ouçam Novos Baianos Futebol Clube e Farol da Barra. A Tábua de Esmeralda é fantástico, mas que tal ouvir o Ben dos anos 1980? Sonsual e Benjor são excelentes. Há vida além da superestimação



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