Fundação Palmares: epistemicídio, desmonte racial e perseguição à cultura brasileira

Em 11 de junho deste ano, a Fundação Cultural Palmares lançou em seu site oficial um relatório público que visa um desmonte em torno de personagens que formaram a cultura literária e social-racial brasileira. Intitulado “Três décadas de dominação marxista na fundação cultural Palmares”, o documento reforça o viés inquisidor, não apenas dos nomes citados, mas também das suas obras nas quais a sua maioria possui grande valor simbólico, clássico e documental para o Brasil. O relatório é chefiado pelo atual presidente da fundação Sérgio Camargo, e segundo ele, ainda pode-se concluir que o acervo bibliográfico é “contrário às finalidades da instituição”, dentre elas já citadas acima.

Com o propósito de historicizar e promover a herança cultural afro-brasileira, a Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cidadania, é uma instituição pública criada a partir de uma lógica de fomento à valorização política, social e histórica daqueles que contribuíram para o entendimento do passado, que originou o país. Segundo o seu estatuto, a Fundação Palmares é referência no comprometimento de promoção à igualdade. No entanto, observando os acontecimentos factuais quanto ao seu acervo bibliográfico, é possível notar uma desativação e um silenciamento á diversos autores, incluindo negros e negras.

Atualmente, encontram-se mais de 9.000 títulos no acervo bibliográfico da Fundação, incluindo livros, folhetos, folders, documentos, etc. Mais da metade deste número faz parte de uma parcela, que a Fundação caracteriza como alheia ao povo negro. Dentro desta caracterização, há a subdivisão em: cunho pedagógico, catálogos e militâncias. Neste último o argumento reiterado é da “temática negra usada como pretexto”. Para Vinícius da Silva, artista, tradutor, escritor e especialista em temas como os estudos de gênero e bell hooks, “militância” é uma das palavras que perderam sentido recentemente, sobretudo, devido à dinâmica das redes sociais”, o mesmo ainda pontua sobre a importância que a palavra carrega, porém há um esvaziamento que foi construído nas mídias sociais atualmente. 

Alicerçado nesse imaginário de vitimismo, militância, e ironicamente, segregação, o relatório possui, ainda, como argumento à obsolescência de obras, devido a sua gramática e ortografia, além de assegurar na retórica de uma utópica “revolução sexual e sexualização das crianças”. É possível vislumbrar a construção do supracitado relatório como frágil e inconstante, com fundamentações e alegações breves e volúveis. O artista-escritor-tradutor Vinícius da Silva, em contrapartida, ainda argumenta que esse tipo de argumento advém de “uma lógica de fake news que permeia a política institucional no Brasil já há alguns anos”. E que, para ele, os livros que foram listados da tão falada “dominação marxista”, podem promover olhares emancipatórios quanto a uma quebra de patriarcado e capitalismo.

Djamila Ribeiro, uma das mentes negras mais brilhantes do Brasil, atualmente, em seu livro “Pequeno Manual Antirracista”, cuja obra foi líder de vendas em todo o pais no ano de 2020, versa sobre o epistemicídio e o “apagamento sistemático de produções e saberes produzidos por grupos oprimidos”, que neste caso é o povo negro. O epistemicídio, segundo ela, é um fenômeno que ocorre a partir da negação aos negros como possuidores e conhecimento, por meio de uma “desvalorização ou ocultamento das contribuições”. Para complementar este modo de pensar, Wanderson Flor, mestre em Filosofia, doutor em Bioética, e professor do Departamento de Filosofia pela UnB, além de ser grande um estudioso das questões raciais, aborda sobre o epistemicídio num viés acerca das bibliotecas, e o mesmo fala que essas “devem ser o repositório da história de uma cultura”, tendo em vista que as bibliotecas fomentam para uma construção social e histórica do país.

Os sinais de apagamento da produção negra pela Fundação Cultural Palmares, não consistem de um viés do qual seu presidente Sérgio Camargo cita: somos um só povo, e são o caráter, o esforço e a honestidade que devem nos definir, e não a cor da pele. Mas se dão pelo epistemicídio que é nítido e fácil de ser identificado. A história não deve ser contada por quem detém o poder, pois é prejudicial para a sociedade apenas enxergar um lado da mesma. A Fundação Palmares e seu presidente são responsáveis pelo apagamento epistêmico e desmonte racial literário, que contribui para um debate nefasto e empobrecido em todos os âmbitos da sociedade.

Como autores negros, em um país racista e que nega conhecimento cultural e histórico, Wanderson e Vinícius exemplificam aqui o arauto do poder de como a educação e a sua particularidade da leitura vislumbram novas formas de pensar. No entanto, tendo em vista o desmonte da Fundação Palmares essa perspectiva de futuro quanto à autores e autoras, sejam negros/as ou não, Wanderson fala acerca da liberdade de pensamento onde “no final das contas, que está em risco em regimes que decidem o que se pode e o que não se pode pensar e divulgar em bibliotecas públicas”. Vinícius, nessa lógica futurística, já escreveu sobre o futuro, bem antes do desmonte da fundação. E o mesmo assegura que “falar sobre futuro é um desafio, pois não há futuro, a rigor”, para ele o presente é mais importante pois ele depende da nossa capacidade de imaginar, ser e estar.



TEM UMA PAUTA?
ESTAMOS AQUI!

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser anônimo, tá?


Em destaque

RECENTES

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos, que busca usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança no futuro das novas gerações.