Operação Spoofing: existe um mandante?

Antonio Palocci foi um dos responsáveis indiretos por eleger o atual presidente da República. O antigo Ministro-chefe do governo Dilma e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores resolveu conceder uma delação premiada citando 12 políticos e 16 empresas, incluindo o ex-presidente Lula. Em 2018, poucos dias antes das eleições, o então juiz Sérgio Moro decidiu divulgar trechos da delação premiada do ex-Ministro Palocci, preso desde 2016 pela Operação Lava-Jato. Porém, posteriormente, sua deleção se provou ser falsa. 

Hoje, é possível que autoridades brasileiras estejam tentando ligar o ex-ministro a Operação Spoofing, de forma a impedir uma possível candidatura do ex-presidente Lula. Se considerarmos diálogos obtidos pela Operação Spoofing, que mostram que procuradores da Lava-Jato divulgaram a delação do ex-Ministro com o intuito de “acabar com a imagem do nove dedos”, essa hipótese seria plausível.

A Operação Spoofing foi criada após os vazamentos de mensagens entre procuradores da Lava-Jato, obtidas pelo hacker Walter Delgatti Neto. O objetivo da operação é investigar como as mensagens foram obtidas e se a ação foi feita com alguma motivação – financeira ou política. Uma das versões dos investigadores neste inquérito da Operação Spoofing é a de que haveria uma organização criminosa por trás, comandada por Delgatti e especializada em cometer crimes cibernéticos. Em tal hipótese, ainda haveria um “mandante” e, ao que tudo indica, a suposição preferida é que haveria uma grande figura política por trás, buscando influenciar o potencial da operação Lava-Jato. 

De acordo com parte do inquérito analisado para a produção desta reportagem, obtido através de fontes sigilosas, o ex-ministro Palocci aparece na investigação da Polícia Federal que procura por um suposto “mandante”. No entanto, a investigação não demonstra de forma clara se o ex-Ministro seria o mandante, ou estaria acobertando alguém. Neste caso, uma suposta relação seria feita através de uma antiga colega de faculdade de Delgatti. 

Para explicar as possíveis suposições feitas pelos investigadores, todos os nomes foram substituídos por pseudônimos – de forma a proteger os indivíduos citados no inquérito e manter o sigilo da fonte. 

A relação inicial é feita através de Lívia, antiga colega de Delgatti na Associação de Ensino de Ribeirão Preto, onde ambos cursavam Direito. O pai do então namorado de Lívia, por sua vez, havia sido nomeado para um cargo na administração municipal na cidade em 2001, enquanto Antonio Palocci era prefeito. Essa seria a associação feita pelos investigadores entre Delgatti Neto e o ex-Ministro Palocci: o pai do ex-namorado de sua colega de sala foi nomeado pelo político para um cargo na administração municipal.

É possível alegar que essa teia é uma prova inquisitorial válida em um processo judicial ético. Mas, ao que tudo indica, nem as autoridades brasileiras encontraram provas o suficiente para tal. Pouco após a exposição dos dados dos indivíduos relatados acima no inquérito, é afirmado que não foram localizadas conversas entre o ex-Ministro e a ex-colega de Delgatti. De qualquer forma, com base nas evidências analisadas para esta reportagem, não é possível afirmar, na opinião desta revista, que tal ligação seria o suficiente para apresentar um mandante.

Logo após a adição dos nomes de Lívia e seus conhecidos no inquérito, foi pedida a prorrogação do prazo de investigação por noventa dias, apesar de não existirem indícios que comprovem a existência de um mandante, até o presente momento.

Contudo, existem questionamentos a ser feitos diante da suposta ligação. Desde o início dos vazamentos das mensagens entre procuradores da Operação Lava-Jato – reveladas pelo site The Intercept na série de reportagens conhecida como Vaza Jato – foi levantada a hipótese de que alguém teria pago Delgatti para invadir as contas dos membros do Ministério Público Federal no aplicativo Telegram, o que é negado pelo acusado em todas suas declarações públicas, até o momento da publicação desta reportagem. 

A acusação da existência de um mandante foi feita, por muitas vezes, por parte de organizações de imprensa, como nesta reportagem produzida pela Revista Veja, onde se levanta a hipótese de que o acusado Luiz Henrique Molição teria denunciado o ex-Ministro Antônio Palocci Filho como o mandante, em acordo de delação premiada. Tal acordo permanece em sigilo. Tentamos obter acesso ao acordo de delação, através de fontes anônimas, para a produção desta reportagem, o que não foi concedido. Entretanto, em audiências públicas relativas à investigação, a defesa dos investigados também afirma não ter acesso ao documento. Sendo assim, não podemos confirmar a veracidade dos fatos narrados pela reportagem da Veja.

Considerando a suposta ligação, podemos questionar se isso seria uma tentativa de envolver um suposto mandante – neste caso, o ex-Ministro Antonio Palocci – ao ex-presidente Lula. Poderia essa ligação do ex-presidente com um suposto mandante da invasão das contas dos procuradores levar, posteriormente, ao impedimento de uma futura candidatura? Caso a hipótese se comprove, quem se beneficiaria com isso? E qual as consequências para a história política do Brasil?


Reportagem escrita com a colaboração de Letícia Oliveira.



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