Quarto de André | A Maca

Leia o último capítulo de Quarto de André:

Linhas que se abrem jamais podem ser fechadas.

Jamais verei com meus olhos, minhas mãos, uma linha que não faça algo que não se abrir
e se expandir e com ela trazer o frio da vida que pequena que jamais. Perco a esperança do
mofo que me mostra a vida que irá, agora iria na minha memória traçar um ponto fechado
em si e completo, e inteiro e sem e e sem mais, sem linha, jamais.

O barro não pode barrar as linhas que se abrem dos dias que acabam para voltar, o meu
ontem acontecendo amanhã matando o meu amanhã ontem da tradicional casa, que viveu
por mim para que eu tivesse onde morar.

Rachaduras são avisos, avisos de um mundo que vai acabar, eu olhava com meus olhos o
barro borbulhando e crescendo junto com as linhas que se expandem e fazem o que vejo
com meus olhos passadar.

O futuro é frio, cansado de por si próprio se levantar.

Uma linha segue curvas sutis até se revelar ser a linha do vento frio de uma navalha. O
futuro é um degolamento, talvez em praça pública, provavelmente em uma maca. A leveza
do frio me corta, levanta minha cama e nela põe rodas, estou deitado pela primeira vez em
uma nova forma, inaugurando uma maneira inovadora de continuar inerte.

Barro fraco vê minha abdução cansado, barro fraco não quer cuidar de mim como cuidei
dele, da casa, do mofo, do barro, da faca, do frio, do sangue e de tudo mais o que se possa
cuidar. Barro fraco quer ser gente, eu, quero ser cuidado. Barro fraco entretanto sente,
sente dentro de si o dentro de mim das costelas que colocaram barro sobre barro do barro
que chama barro na criação que implora por criar. Chame de culpa ou amor, barro fraco
levanta, pega a faca do irmão e enfia nas costas, corre e vai atrás de mim embora.

Com as linhas, os quartos viram corredores que passam alongando a própria pele até o
cinza virar um branco muito branco bastante exausto enquanto o frio me passa pelo
corredor de uma vida que agora é talvez minha.

Talvez minha? Se pergunta o barro fraco acendendo um cigarro e eu jogado no meio do
espaço infinito do alongamento de uma vida até onde dá, a casa se estica nos tecidos de
todo o seu concreto, como se o mundo não só existisse como fosse feito de chiclete. Barro
fraco teme estar andando comigo em direção ao forno onde eu hei de fazer argila, peço
para que ele não se acanhe e vá descansar, chame o barro forte que comigo ele vai, barro
fraco aperta a faca mais na carne e diz que embora já não vai, barro fraco é forte, forte
como ninguém mais. De súbito me carrega rápido mas com cuidadozinho até o forno onde
eu possa me esquentar, será que é viver apenas se esquentar? Levar os outros para o fogo
do inferno que é de alguém cuidar? Barro fraco vai, esperando o momento em que eu vou
dormir para que ele possa chorar, barro fraco quer ser gente, barro fraco quer ser fraco, eu
quero mesmo é ser cuidado.

Se o mundo existisse ainda seria mais cansaço, cansaço que repito em cima de cansaço
em cima de rachadura, cadeira, maca e sopa de batatas. Meu querido barro fraco, acho que
você já entendeu que eu sou um barro cansado, muito muito cansado meu barro, quase um
velhaco, minha idade são os dias em que o mofo não me quis, em que o destino não veio e
a casa não me diz, envelheci dos dias em que fiquei em suspenso até ser tão leve que um
vento me levou e um barro me cuidou e um cansaço me bateu.


Entretanto, no meio da linha, há uma pausa.


No meio do destino há um ponto bem longinho, um conceito abstrato que não para o barro
fraco que continue a me levar para o quentinho. Um conceito que se abre até que se acabe
e se mostre que não era conceito, conceito é o feitiço de barro fraco para poder suportar a
miséria do dia-a-dia. Era alguém, eu nunca vi alguém, feito de uma pele bem derretidinha,
sobreposta, encorcundada, era uma senhorinha, também deitada. Barro fraco para, baliza
minha maca e me coloca lado a lado quando, então, ela diz: Meu filho, pede a deus por mim, pede a deus por mim, faz uma voz bem bonitinha pra mim, me tira daqui, me tira daqui, não tem nada jamais aqui, meu filho faça isso por mim, me tira daqui não tem ninguém aqui além de mim, meu filho por favor peça a deus que interceda,
que venha que faça e aconteça meu filho por favor eu existo, eu existi, alguém precisa de
mim, peço a deus que não me operem, por favor me tira daqui.

Eu peguei na sua mão e senti como se fosse eu mesmo apenas uma mão sentindo uma
pele como a minha, mas que se derretia, era uma pele cansada, era uma pele como a
minha, pensava eu aí estava mais alguém na qual eu cuidaria. Eu amava essa velhinha e
disse que ia pedir à casa que tirasse ela dali. Velhinha, minha velhinha, tenha muita pena de
mim, estou cansado e quase por um triz, velhinha, minha velhinha daqui vamos sair, vou
fazer com barro fraco uma poção muito bonita pra te ver enfim feliz.

Barro fraco entretanto pediu desculpas, prometeu rezar fortemente para deus e seguiu reto,
barro fraco era fraco não chorava, não chorava porque era forte quando pediam pra ser
forte mas era fraco quando era pra ser forte. Barro fraco pare, pare, pelo amor de deus pare
esse caminho inexorável onde a velhinha pra trás vai ficar, barro fraco se você ignorar todas
as tragédias que pingam como a chuva, quando chegar a sua hora ninguém por você vai
chorar. Vem cá, faça favor de rezar.

Barro fraco tinha era muito ódio de mim e de meu corredor, e de ter criado ele mesmo, barro
fraco não era barro feito pra existir, tentei barganhar, dizer que ele podia ir embora e nunca
mais voltar, barro fraco não parava, crescia e se multiplicava.

Tentei levantar e cai, barro fraco a minha maca continuou a levar, nunca foi sobre amor ou
família, sempre foi sobre macas, barro fraco até hoje continua enquanto eu ficava lá,
largado no corredor da vida que passa veloz como um trem pela eternidade, até que eu
acordei e vi barro fraco e barro forte, juntos, gigantes, me acordando pois a casa agora era
tomada pelo barro, tanto barro que se repetia, se multiplicava, a criação minha de quem se
achava criação e tinha medo de criar.



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