Habermas, o diálogo e a emancipação humana


Habermas é o principal pensador da segunda geração da Escola de Frankfurt e influenciou áreas como o direito, à comunicação e a democracia, mesclando-as com objetivo de alcançar os caminhos da emancipação humana.


O filósofo político alemão, Jürgen Habermas é, sem dúvidas, um dos principais pensadores sobre as questões da democracia. Nascido na década de 1920, foi a figura mais importante da segunda geração da Escola de Frankfurt, aprimorando questões levantadas pela Teoria Crítica e sendo figura importante na redemocratização alemã, durante o processo de superação do nazismo. Hoje, aos 92 anos, continua participando das discussões políticas a despeito da comunicação, do direito e da democracia.

Sendo um de seus principais teóricos, Habermas é também um dos principais otimistas a respeito do modelo democrático, utilizando-se em especial do conceito de “espaço público” como o ambiente de sua consolidação, crescimento e funcionalidade. Habermas é um democrata radical, defensor do diálogo como a principal ferramenta de construção política e de representação social, com importantes contribuições a respeito do direito e dos movimentos sociais, sem deixar de lado a importância da superação do modelo capitalista.

Em sua radicalidade democrática, o filósofo não pensa duas vezes para afirmar: um estado de direito só é legítimo quando há uma radical participação popular em suas tomadas de decisão, para que isso seja possível, o espaço para que essas decisões são tomadas precisa ser amplo e organizado, onde as propostas possam ser apresentadas de maneira clara e inteligível, buscando pretensamente a verdade e sendo carregada de sinceridade, aliando o que se fala ao que se sente, pensa e acredita. Habermas compreende com clareza os limites de seu pensamento democrático na realidade e a partir dessas limitações, formula sua Teoria da Ação Comunicativa, buscando colocar em voga a discussão de que, em uma sociedade complexa, é necessário uma abordagem complexa para sua compreensão.

Devido a essas limitações, é preciso compreender as relações ao menos sobre dois pontos de vista: o ponto de vista do observador e o ponto de vista do participante, afinal, o participante como ser existente no mundo da vida não é capaz de compreender as situações que ocorrem fora de seu campo de visão e que o força a agir de determinadas maneiras – aqui, a mescla com a teoria do habitus de Bourdieu é esclarecedora -, assim como o observador é incapaz de não utilizar sua experiência de vida e sua forma de lidar com as questões postas em um estudo.

Apesar dessa complexidade, Habermas acredita na possibilidade da emancipação humana através da supressão das distorções sistemáticas da comunicação e a efetivação do conteúdo normativo da modernidade: o autoconhecimento, a autodeterminação e a autorrealização, ou seja, na forma como nos relacionamos com a natureza – o mundo objetivo; a maneira como nos relacionamos uns com os outros – o mundo socialmente construído; e  a maneira como nos relacionamos consigo mesmos – o mundo interior.

Para que essa emancipação seja possível, os três diferentes mundos e suas relações não podem possuir formas distorcidas entre si, cada qual precisa respeitar suas características próprias em sua complexidade e realização, tanto nos aspectos individuais como coletivos. A observação das distorções possíveis precisa estar atrelada a pelo menos duas principais questões: a questão econômica e a questão estatal burocrática, o que deixa claro: é possível haver opressão tanto nos estados socialistas quanto nos estados capitalistas, a opressão transcende a mera decisão econômica. O papel humano no que tange essa formulação de modelos é, através dessa compreensão, construir uma emancipação humana possível através do diálogo e da formulação de ideias superiores através da troca de experiências.

Compreendendo uma parte do caminho seguido por Habermas em sua concepção política, é inevitável questionar como isso é possível, afinal, a todo momento lidamos com questões externas que interferem em como pensamos e agimos, nossa formação não pode ser isolada de nossas relações sociais, assim como as condições de nosso tempo histórico são indissociáveis do que somos. É incontornável a percepção de que um modelo que acredita numa emancipação humana por meio da ação comunicativa e da aceitação do diálogo como o caminho para a construção de condições materiais que o tornam viáveis, se mostra impossível no modelo capitalista, onde os interesses corporativos são predominantes; e engana-se quem acredita que nos estados socialistas exista esse espaço, afinal, por vezes se concebeu modelos socialistas com características repressivas ao indivíduo e a expressão do seu eu, como repressões a sexualidade e a comportamentos não aprovados oficialmente.

O caminho da emancipação humana, discutido há séculos, continua com mais perguntas do que respostas e quando introduzida a concepção das construções simbólicas da sociedade, a discussão torna-se interminável. Mesmo se ignorarmos variantes importantes e imaginarmos a implementação de um estado socialista com ampla liberdade política e individual, ainda assim as expressões simbólicas não deixariam de exercer influência sobre o indivíduo e suas relações com seu entorno e consigo mesmo, o equilíbrio buscado por Habermas mostra-se impossível no espaço simbólico pela condição humana que com a limitação de nosso tempo somos capazes de imaginar. 

Emancipar-se não se trata de mudar sua relação com o mundo ou uma mera libertação do trabalho e das condições dos meios de produção, a desigualdade é construída também socialmente e enquanto espaços de poder se legitimam, as relações têm limitações e direcionamentos hierarquizados, assim como os indivíduos que expressam uma condição díspar de seus pares continuarão a serem excluídos do convívio social, tendo de buscar novos espaços onde talvez não seja capaz de se adequar.

A mudança política e econômica é distante, mas de certa maneira, ainda hoje é a mais palpável das condições de emancipação humana, pois se tem condição de, através da evolução histórica e da produção intelectual, compreender alguns dos meios possíveis para a construção dessa mudança, enquanto que o convívio social e as opressões simbólicas são maleáveis e perpetuam-se em diferentes condições de diferentes formas.

O diálogo é importante e, sempre que empregado por indivíduos ou estados que possuem condições de poder e força similares, foi mutuamente benéfico a estes, porém as bagagens simbólicas são carregadas no espaço público e num mundo de mercados globalizados, o soft power pode ser mais efeito que o hard power e sua legitimação não está apenas na esfera de poder, ela é levada até mesmo aos indivíduos mais excluídos dessas sociedades, como pode ser visto nos movimentos na nova direita americana: comandados pelos ‘white thrashers’, trabalhadores brancos e pobres que se veem prejudicados pela globalização, eles não deixam de se ver como superiores aos cidadãos do terceiro mundo, que podem até mesmo ter condições de vida superiores às suas.

É um erro pensar que as diferenças simbólicas são superadas com mudanças econômicas, assim como é um erro maior ainda ignorar a influência do capital nessas construções, a relação é dialética e a resposta também deverá ser.


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