O apagamento da caça às baleias na história do Brasil Colônia

Para que um dia a forte economia de cana de açúcar pudesse alavancar, o Brasil iniciou a exploração de uma grande (e problemática) fonte de diferentes subsídios: as baleias. Compreende um grupo de grandes mamíferos aquáticos — incluindo o atual maior ser vivo do planeta, a baleia azul, com adultos que atingem 25 m e pesam 150 t. Estes animais, que ocupavam a costa do país especialmente em seu período reprodutivo, foram alvo da caça exacerbada até por volta de 1920.

Escrito em 1558, o documento do Padre José de Anchieta Informação da Província do Brasil para nosso padre traz um importante recorte sobre a abundância de espécies, difícil de se imaginar nos dias atuais, informando que “Entre estes pescados há muitos peixes de preço e reais, como baleias, tantas e tão grandes que é para ver. Aqui na Baía das janelas dos cubículos as vemos andar saltando e por toda a costa há muitas”. Cerca de 30 anos depois, o Tratado Descriptivo do Brasil de Gabriel Soares de Sousa já remete às baleias perante outra visão: além de descrever em detalhes os animais que entram na Baía de Todos os Santos, apresenta suas potenciais serventias. É um documento crucial porque é, até então, a primeira menção da experiência Basca sendo trazida à Bahia. Os povos Bascos são tidos como os precursores da caça comercial baleeira no mundo, tendo exercido portanto um importantíssimo papel nesse mercado, bem como na sua expansão.

Com notável proveito e tamanho, tudo na baleia poderia servir de uso à sociedade. Sua carne e língua eram consumidas na alimentação; sua gordura — com camadas de até 40 cm em algumas espécies, como nas francas — era derretida em óleo/ azeite e utilizada para combustível. Os ossos eram triturados em farinha, podendo servir para construção e fabricação de botões. De suas barbatanas (estrutura queratinosa que substitui os dentes) eram feitos espartilhos, bengalas, dentre outros objetos rígidos.

Antes das atividades da caça terem início, os produtos da baleia eram advindos a partir dos encalhes desses animais nas praias. Por isso existem registros que datam o uso desses recursos anteriormente ao uso das embarcações. Por exemplo, o óleo foi também utilizado em construções mais antigas como impermeabilizante. Uma dessas muitas edificações é o imponente Castelo Garcia D’Ávila, primeira casa-forte construída no país em 1551, com ruínas ainda de pé, localizadas na Praia do Forte/ BA. A Casa da Torre foi situada na Colina Tatuapara, que conferia uma vista privilegiada ao mar das novas terras, bem como de quem por ele navegava.

Edificação da Casa da Torre/ Castelo Garcia D’Ávila e Sítio Arqueológico. Fotografia por: Fundação Garcia D’Ávila

Apenas em 1602 que a caça às baleias se tornou uma atividade organizada no país, com barcos de pesca e construção das armações baleeiras (locais para onde as carcaças caçadas eram destinadas para o desmonte. Ou seja, separação da carne, ossos, barbatanas e também derretimento da gordura. O produto gerado já era comercializado separadamente a partir das armações). Esse começo também se deu no mar da Bahia, muito provavelmente na Ilha de Itaparica, quando a Coroa Portuguesa ofereceu concessões aos Bascos para a prática. Os baianos nativos ao aprenderem as técnicas, começaram a reproduzir. Porém, quando em 1614 a Coroa percebeu quão lucrativa era a atividade, estabeleceu o monopólio da caça (que durou até 1801). A expansão dessa indústria no território nacional datou seu início em 1720, quando vemos armações surgirem no Rio de Janeiro.

Uma característica muito favorável à caça em relação ao comportamento de algumas espécies de baleia é a aproximação à costa. É interessante pontuar que geralmente os animais que mais fazem isso são fêmeas com filhote. Então os arpoadores separavam as mães dos bebês, atordoando-os, e assim capturando ambos. No litoral baiano, as jubartes foram as que mais sofreram com a atividade. Já no sul do país, as francas eram o grande alvo. Em inglês, este animal é conhecido com right whale, que podemos traduzir grosseiramente como “baleia certa”. Isto porque eram ótimas para caça. Se aproximavam muito da costa durante seus 4 meses de temporada reprodutiva; eram lentas e fáceis de serem arpoadas; possuíam uma grande camada de gordura e, quando mortas, flutuavam.

Cenário de caça baleeira, intitulado Método de pescar baleias, as conduzir para à terra e delas extrair óleo. Em: Historia de Brazil… of Alphonse de Beauchamp (1767-1832), Tomo VIII. Lisbon: Na Impressão de J. B. Morando, 1820.



Por volta de 1750 e anos conseguintes, ainda com as limitações pré-modernas, pequenos saveiros e arpões artesanais, foi estimado que as armações da Piedade, da Lagoinha e de Itapocorói, em Santa Catarina, tenham obtido cada uma cerca de 113 baleias/ ano dentro dos 4 meses de temporada reprodutiva dos animais. Crescente, já em 1770, a Colônia exportou 25:874$640 réis em barbatana e apenas 870$ réis em azeite. E aqui vemos como o óleo era, de fato, o principal recurso energético do país.

Uma baleia oferecia geralmente 50% do seu peso em azeite, numa conta final de compensação que indica por volta 8.800 L. Estima-se que 90% desse subproduto que foi produzido entre os séculos XVI e XIX era destinado para iluminação. Como na Bahia, principalmente nos engenhos de açúcar, onde as atividades à noite não paravam, sobretudo em tempos de safra. Outro exemplo é a Ilha de Santa Catarina, que em 1797 possuía 38 fábricas de açúcar, 102 engenhos de aguardente e 350 engenhos de farinha de mandioca, todos dependentes da iluminação do azeite.

Quando outras fontes de energia começam a ganhar força, como a querosene advinda petróleo em 1859, o óleo perde essa importância econômica em particular. Apesar disso, não se pode negar o protagonismo da indústria baleeira na história do Brasil Colônia, edificando, inclusive, outras grandes indústrias. Ainda, na última década do século XIX, a caça ganha novos vislumbres à nível global. Mas isso é história pra outro dia.



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