O “Vermelho” que nunca existiu


Em 9 de junho de 2021, se deu início a uma das maiores reviravoltas da história brasileira. O sonho de um país sem corrupção, construído pela Lava-Jato e solidificado pela classe média, desmoronou. Parte do histórico de conversas entre os procuradores da força tarefa foi exposto, revelando troca de informações, falta de profissionalismo e, para […]


Em 9 de junho de 2021, se deu início a uma das maiores reviravoltas da história brasileira. O sonho de um país sem corrupção, construído pela Lava-Jato e solidificado pela classe média, desmoronou. Parte do histórico de conversas entre os procuradores da força tarefa foi exposto, revelando troca de informações, falta de profissionalismo e, para alguns, perseguição jurídica com motivação política. Neste perfil biográfico, que será publicado em série, tentarei mostrar um recorte de uma vida de Walter Delgatti Neto, também conhecido como “Vermelho”. Não o que nunca existiu, retratado pela imprensa brasileira como um mercenário obcecado por dinheiro e poder. Mas sim, um recorte real de seus erros e acertos e o que ocorreu de fato em todas suas prévias acusações de tráfico, estupro e estelionato, de forma que possamos entender a figura por trás da Vaza-Jato, responsável por uma das maiores reviravoltas da história política recente. 

Essa história não percorrerá pelo início do caminho de Delgatti, sua infância e adolescência. Não por ser algo obscuro, ou menos importante, somente porque, ao assistir entrevistas públicas, tal tema não aparenta ser algo no qual o mesmo goste de abordar. De qualquer forma, existe um ponto importante a ser abordado, que dá início a suposta “obsessão” que Delgatti teria com dinheiro: abandono. 

Sua vida não teve um começo fácil. Sua mãe, embarcou em um novo relacionamento e o abandonou, junto ao seu irmão, em uma calçada. Essa versão é negada por Silvana Aparecido Francisco, mãe do rapaz, mas corroborada por uma fonte anônima que esteve perto da vida do jovem. Após uma tarde nas ruas de Araraquara, a avó do casal de irmãos, Othilia Delgatti, resolveu assumir a situação e os levou para casa, onde moravam com dois primos.

É especulado que essa infância impulsiona o hacker a buscar encontrar dinheiro de toda e qualquer forma, para tentar ajudar seu irmão caçula, Wisllen. Trabalhou em lan-houses enquanto adolescente, mas como adulto, entrou no ‘ramo’ de venda de trabalhos acadêmicos – crime previsto no Código Penal, com pena para quem solicita. Isso lhe rendeu bastante dinheiro, e, de acordo com o mesmo em entrevistas públicas, seria a razão por trás de sua conta bancária, tão citada pela imprensa. 

Durante esse tempo, surge um de seus primeiros problemas com a lei. Em 2012, aos 23 anos, foi acusado de aplicar um golpe no Banco Itaú com um colega, João Octávio Simini Paschoalino, que na época trabalhava em uma agência bancária. Em resumo, a acusação seria de que ele conseguia informações com Paschoalino e clonava cartões de crédito, dando um prejuízo de mais de 623 mil reais ao banco. Pouco tempo após a prisão de Delgatti, tal processo foi reportado em toda a imprensa, buscando retratar o hacker como um estelionatário – algo que perdura na cabeça de muitos até hoje.

Documento obtido pela revista o sabiá que comprova a absolvição de Walter Delgatti Neto no processo previamente citado.

No entanto, tais reportagens, aparentemente, não foram atualizadas pela imprensa. De acordo com a sentença da 1.ª Vara Criminal do Foro de Araraquara, disponibilizada aqui em primeira mão por esta revista, ambos foram absolvidos do processo em 26 de maio de 2021.

Em meio a isso, um questionamento prevalece em meio a essa questão, algo que não foi só passado por Delgatti, mas por muitos no sistema judiciário no Brasil. O processo foi respondido por 9 anos, ambos foram inocentados por falta de provas, mas o tempo em que eles – e outros milhares de brasileiros que passam pelo mesmo problema diariamente – sofrem de humilhação pública, não é revertido. O tempo de ter seu nome sujo, sua reputação questionada e sua privacidade invadida não pode ser redimido. Durante o escândalo da Vaza-Jato, o primeiro impulso de muitos jornalistas foi encontrar algo que incriminasse Delgatti ao ponto de mudar a opinião pública diante sua figura, e, por sua vez, influenciar como a população enxergava os vazamentos. 

Pode se dizer que essa postura de parte da imprensa brasileira não só foi antiética, como causou prejuízos sérios na vida do hacker. É possível afirmar que sua vida seria completamente diferente caso o mesmo tivesse sido tratado pela imprensa brasileira como outros whistleblowers do exterior são? Não, mas há chances que sim. A hipótese de um país onde Delgatti não fosse martirizado, e sim ouvido pela população e retratado com honestidade, fica a desejar.

Um dos pilares que mantêm whistleblowers é uma rede de apoio, a qual ele não teve. Essa rede não precisa ser, necessariamente, financeira ou de contatos influentes, o apoio de parte da população já é o suficiente. Neste caso específico, não houve uma rede de apoio – nem por parte da população; no início, nem por parte da imprensa hegemônica, tampouco um movimento político para libertá-lo. E, ao que tudo indica, essa sensação de “abandono” está presente ao longo da vida de Delgatti. Não somente por parte de sua família, mas ao longo de sua vida adulta, enquanto acusações e mais acusações foram impostas, mas nunca comprovadas. Outra acusação feita ao hacker seria de que ele havia estuprado sua ex-namorada. Na realidade, essa história também diferiria que o contado pela imprensa brasileira durante o escândalo inicial da Vaza-Jato. 

De acordo com fontes próximas a ex-namorada, Bárbara, o inquérito aberto para investigar essa situação seria por conta de uma briga de violência doméstica, que também não envolvia Delgatti como agressor, e não uma situação de estupro.

Bárbara e Delgatti namoraram, enquanto ela tinha 17 anos e ele 25, o que, para mim e alguns, pode e deve levantar sérios questionamentos a respeito da diferença de idade no relacionamento. Após o término, ela continuará frequentando a casa do hacker por ter proximidade com a família, principalmente dona Othilia, a qual sempre lhe deixava entrar na residência. Pouco tempo depois, Bárbara e Wisllen, irmão de Delgatti, iniciaram um relacionamento, no entanto, é dito que durante o início desse relacionamento, ela ainda tinha sentimentos pelo irmão de seu agora namorado.

Neste meio tempo, ocorreu de Bárbara e Delgatti se encontrarem e tal encontro foi relatado para o irmão, então namorado de Bárbara, ocasionando uma briga de violência doméstica. Indo à delegacia relatar a situação e fazer um boletim de ocorrência, fontes anônimas alegam que a mesma teria dito, em conversa particular, estar alcoolizada para seu namorado, de forma que seu namorado a perdoasse pelo encontro. 

Com isso, a delegada responsável pelo caso ouviu o depoimento, onde Bárbara falava estar embriagada durante o momento, e colocou no inquérito que as relações sexuais que aconteceram no encontro se tratavam, portanto, de um estupro, com base na lei de estupro de vulnerável em caso de embriaguez. Três dias após a abertura do inquérito, ele foi encerrado, por pedido da própria vítima.  É relatado que o antigo casal de comunica até hoje e possuem uma relação de amizade, enquanto ela continua namorando seu irmão. 

O estupro é um dos crimes mais sérios, grotescos e desumanos que existe. Ele não só tira o consentimento da vítima, como muitas vezes a deixa completamente indefesa e machucada pelo resto de sua existência. Diferentemente do processo envolvendo a acusação de golpe financeiro, o inquérito envolvendo o suposto estupro foi encerrado três dias depois de sua abertura, e não em 2021. Ele foi encerrado em 2014. A informação não foi apurada, ela foi manipulada. 

Não há dúvidas que grandes mídias poderiam ter acesso ao inquérito já encerrado, ou até a delegada responsável, seja através de influência ou até capital. Então, porque isso não foi feito? A partir disso, me resta contar que, novamente, o abandono esteve presente na vida de Delgatti. Tanto em 2014, após ser abandonado pela justiça brasileira e ser acusado falsamente de um dos crimes mais grotescos existentes, quanto em 2019, quando foi abandonado pela imprensa brasileira que possui o dever moral e ético, previsto no Código de Ética do Jornalismo, de reportar a verdade, sempre. Entretanto, essa não foi a última vez em que todo o sistema falhou. Nem está perto de ser. 

Durante os três dias em que o inquérito esteve aberto, Wisllen reportou falsamente a delegada responsável que seu irmão havia filmado o ato sexual sem consentimento de sua namorada, o que provaria o suposto estupro. Com isso, um mandado de busca e apreensão foi concedido para que as autoridades responsáveis fossem até a casa de Delgatti, já que ao que tudo indica, ele não residia mais com sua família agora. 

As autoridades não encontraram nenhuma gravação, tanto que o inquérito foi encerrado, e sim uma nova chance. Uma cesta cheia de remédios controlados e uma carteirinha falsificada da Universidade de São Paulo, dando a oportunidade de acusar Delgatti de tráfico de drogas. Por esta acusação, ele passaria seis meses preso, até que tanto seu psiquiatra, quanto o farmacêutico que o vendeu os medicamentos, comprovaram a necessidade do paciente e a legalidade da compra. 

Se durante toda sua vida, você é ensinado que existe uma estrutura, neste caso o judiciário, criada através de uma filosofia de proteger a população e atuar imparcialmente, o que você faz quando tal ensinamento se prova como uma farsa? Até que ponto um sistema judicial pode falhar com o mesmo indivíduo, diversas e diversas vezes, e não esperar que o mesmo queira derrubar o mesmo sistema? 

O sistema não falhou somente ao dar punições erradas, ele também pecou ao escolher quem iria atuar em nome da garantia da lei. Em entrevistas públicas, Delgatti afirma que o delegado e o promotor atuantes no caso teriam tentado extorqui-lo durante o interrogatório. Relativo ao promotor, Marcel Zanin Bombardi, ele afirma que durante suas invasões ao Telegram – as quais não abordaremos agora – encontrou provas que o promotor cometia irregularidades e crimes enquanto exercia sua função. O promotor, por sua vez, negou as acusações.

Uma das funções de um jornalista, escritor ou historiador não é só narrar fatos e contar uma linha do tempo para acontecimentos, mas também buscar entender o que o personagem em questão sentiu, ou sentia, em alguns momentos. Isso, para nós, são só especulações, mas ajudam a montar um recorte de quem está sendo retratado em um material como este perfil biográfico. Você certamente pode alegar que, na realidade, o sistema judicial não falhou com Delgatti e funcionou perfeitamente, já que no fim ele se autorregulou e corrigiu os erros cometidos, mas argumentar essa tese seria, no fim, ignorar algo essencial que deve ser abordado nesse perfil: emoções.

O sistema corrigiu seus próprios erros, mas no fim, o que ele fez com todo o tempo que em que ele respondeu processos injustos? Ou com os prejuízos sociais – como ser chamado de estuprador, traficante e estelionatário pela grande imprensa – que vieram através de tais erros sistemáticos no processo democrático do Brasil? Eles também desaparecerão com uma simples sentença de absolvição, ou são eternos?



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