Se a perguntassem por que estava começando aquele novo emprego, responderia apenas que precisava do dinheiro. Desafios e mudanças, para ela, são formas de ascensão e de uma consequente prosperidade monetária. Assim mesmo, como quem dá respostas enormes e não sabe que o núcleo está vazio. Uma nova empresa, com um cargo acima do anterior era o jeito de tapar o buraco do comodismo e as vozes dominantes que vinham dele. Vozes apontam? Vozes julgam? Muitas vozes das mais diversas empreitadas surgiam conduzindo-a para a fronte dos que vivem. Não sabia ao certo precisar de onde e nem para que, mas a eterna sensação de estar em débito com o que deveria ser feito e não foi fazia-a agir, ainda que lentamente. “Crescer dá um certo trabalho”, dizia uma das vozes mais corriqueiras. O momento exato do presságio de um ganho, por menor que fosse, desabrochava uma sensação de poder, mesmo que pequena. “Ganhei!”, exclamava. Em seguida, o ar de satisfação tão passageiro quanto um sopro. Tinha vezes que era mais suficiente que conquistar, pois tinha uma conotação de especial, impressões de merecimento e de ser escolhido pelo universo. E dá-lhe mais poder. Na conquista, sentia capacidade e inteligência: “eu me esforcei”, “eu corri atrás(?) e consegui”. E como, às vezes, parece existir alguém em algum lugar que aparenta dizer: “veja bem, coitada, já sofreu muito. Jogue aí suas migalhas de incentivo transcendental e ampare logo essa pobre sofredora que mais uma pancada eu não sei se ela aguenta não, hein?” E, como algum milagre, boas coisas aconteciam. Mas, como a vida não está para brincadeira, depois do ritual do pódio, mais responsabilidades e obrigações.

Numa dessas transições, o arrependimento das escolhas. Na verdade, o arrependimento era apenas a conclusão das leituras das sensações que a acometiam. Sentia pressão, assombro não experienciado anteriormente. Achava-se imatura para o desenrolar da vida. Não a ocorria pensar que, desde que havia nascido, sofrera pressões que desaguavam em novas experiências. Ela só não se dava conta porque, depois, a pressão virou transformação em uma nova persona, o que trouxe a segurança que lhe era familiar. De ímpeto, desistir sempre era o melhor caminho.

Em um desses dias de tensão, ficou duas horas e quarenta e quatro minutos em chamada de vídeo com uma amiga. Entre risadas e profundas reflexões, conversaram sobre a necessidade de se conhecer a ponto de saber os próprios limites e para que houvesse aproximação àquilo de que se gosta, ainda que fazendo coisas das quais não gostavam. Elas conversavam em um tom meio psicanalítico, coisa de gente que assiste a alguns vídeos no Youtube e se acha no direito de falar sobre um tema específico sem considerar a sua própria razoabilidade diante do assunto. Mas, antes que você sinta dó, elas diziam que era só performance. E, a propósito, falaram muito sobre o quanto performavam diariamente nesse mundão, porque há uma galera que não tolera que você se apresente de cara limpa e diga sinceramente que não pretende e nem quer se adequar. Ambas gostariam de ser aquela gente que nasce com seus roteiros de vida escritos e com um ar de que sabem exatamente o que estão fazendo. E cumprem-nos, claro, com devoção, ainda que nunca os questionem. Entre momentos espaçados de questionamentos intermináveis, vislumbravam a minha própria complexidade e perdiam-se sem nunca sequer terem se achado. Entre recuar e continuar, optavam, às vezes, por recalcular a rota e, dependendo do desdobrar da vivência, escolhiam um ou outro. -“Nada era tão certo assim que não pudesse ser repensado”, dizia a analista. Até que, num dia desses, surgiu uma voz diferente: “Não tem script, sua anta. Só escolhe.”

Sabiá

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