Escândalo de spyware revela brechas na história de ‘sucesso’ da segurança cibernética de Israel

Revelações sobre a extensão da penetração do software de spyware Pegasus do Grupo NSO desencadearam um debate acirrado em Israel e no exterior sobre o funcionamento do muito elogiado setor de segurança cibernética do país. Empresas de tecnologia israelenses são capazes, há muito tempo, de manter uma marca forte devido à notoriedade da qualidade dos serviços de inteligência israelenses, sobretudo ao falarmos do Mossad, o serviço secreto de Israel, e a capacidade de tais empresas em recrutar recentes graduados em cursos da área para esses serviços.

Pegasus é um spyware de última linha – o mais poderoso já desenvolvido por uma empresa privada em toda história. Após se infiltrar em seu telefone, sem que você note, ele pode rapidamente transformá-lo em um dispositivo de vigilância – copiando mensagens enviadas ou recebidas, colhendo suas fotos e gravando suas ligações. Ele pode filmá-lo secretamente através das câmeras do seu dispositivo ou ativar o microfone para gravar suas conversas. Além disso, também pode identificar onde você está, onde esteve e quem conheceu. A primeira versão do software, identificada por pesquisadores em 2016, infectava dispositivos por meio do que é chamado de spear-phising, mensagens de texto ou e-mails que enganam o alvo para que clique em um link malicioso.

Leia a reportagem:

Um aspecto menos discutido desse setor é se ele é financeiramente bem-sucedido. O ex-primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, falava frequentemente sobre o ciberespaço como “a pedra angular do setor de alta tecnologia israelense” e da economia em geral, mas a imprensa internacional encontrou extensas evidências de que a tecnologia cibernética ofensiva israelense, e especificamente a NSO, desempenhou um papel importante na política externa de Netanyahu. Estados que o ex-primeiro-ministro visitou, como Hungria, Índia, Ruanda, Emirados Árabes Unidos e outros, assinaram acordos com o grupo de tecnologia NSO logo após a visita do político.

Quando se trata do lucro gerado por essas empresas de tecnologia, não é possível saber o montante ao certo. Como é comum em Israel que empresas privadas não negociem abertamente na bolsa de valores, essas empresas mantêm sua lista de clientes, o tamanho de seus contratos e seus projetos em segredo. Seus relatórios financeiros – receita total, custos operacionais, gasto em materiais e lucros – também não são fáceis de encontrar. A organização Who Profits, um projeto da Coalizão Israelense de Mulheres pela Paz, publicou em junho deste ano um relatório sobre o setor cibernético israelense e, com base em reportagens na imprensa israelense, estimou que as exportações cibernéticas totais de Israel totalizaram 6,85 bilhões de dólares – mais de 3 trilhões de reais, de acordo com o valor do dólar neste exato momento – no ano passado, uma quantia que atinge quase o total das exportações de armas de Israel naquele ano.

O sigilo das empresas israelenses de segurança cibernética está se dificultando de manter em um mundo no qual a segurança está cada vez mais privatizada. Quando empresas desta proporção são públicas, a sociedade possui liberdade de consultar relatórios e fazer questionamentos como, por exemplo, quais projetos estão sendo organizados, quais armas estão sendo fabricadas, entre outros. Além disso, ao falar de geopolítica – um ponto extremamente importante nesta problemática – é crucial que a imprensa tenha conhecimento de quais países, governos e parceiros tem acesso a tais ferramentas através da exportação.

As empresas de segurança privada dependem de investimentos privados e clientes privados, portanto, devem chegar ao público e fazer propaganda de si mesmas. O governo israelense costumava manter um controle rígido sobre a indústria de armas e as organizações de inteligência que operam dentro e fora de Israel, mas a privatização se infiltrou e agora a maior empresa israelense de armas, a Elbit Systems, é propriedade privada. Já a empresa responsável por desenvolver o spyware Pegasus, a NSO, não é apenas privada, mas a maioria das ações da empresa foi comprada pelo fundo europeu Novalpina em 2019, o que significa que a empresa pode ser israelense, mas pertence a investidores estrangeiros.

Outra empresa israelense de inteligência cibernética, a Cellebrite, foi denunciada por fornecer equipamentos de vigilância à Bielorrússia, às autoridades chinesas em Hong Kong e à Rússia. A empresa anunciou que encerraria suas operações nesses países, mas quando ativistas de direitos humanos apelaram ao tribunal israelense para saber se a tecnologia da Cellebrite permanecia nas mãos desses governos mesmo após a saída da empresa, o tribunal israelense se recusou a discutir o caso.

O software Cellebrite, produzido pela mesma empresa, consegue quebrar a criptografia de celulares e monitorar dispositivos e possui uma semelhança notória com o Pegasus. Ele também já está nas mãos das autoridades brasileiras.

Privatizar empresas de tamanho porte – e potencial destrutivo- leva a perda de controle do Estado sobre as armas cibernéticas do país. É muito mais fácil espionar parte da população através da internet, ou do acesso ilegal a dispositivos pessoais, pelo fato de que há uma demanda social de sempre estar conectado ao seu celular. Enquanto existir essa demanda, haverá o risco de jornalistas, políticos e ativistas se tornarem alvos constantemente, e empresas privadas haverem total controle de ferramentas como o Pegasus faz com que esse risco se generalize. Dependendo do cliente – da sua influência ou do capital que este esteja disposto a usar – qualquer um pode se tornar um alvo, mesmo sem ser pessoa pública.

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