Militares, Salas e Poetas


Uma crônica sobre o alistamento militar. Aquele dia que eu menos esperava desde que soube dele, provavelmente com uns 7 anos, tinha chegado: teria que me apresentar ao Exército Brasileiro. Talvez precisássemos lembrar do país em que estávamos. Ou que desordem e regresso são palavras que não constam no maior símbolo pátrio.


Texto publicado anonimamente por membro da Equipe Sabiá


Acordei às 6:40h. Desliguei o despertador, levantei sonolento da cama e tomei um achocolatado. Vesti minha roupa (e máscara), peguei meus documentos e um fone branco emprestado da minha irmã mais nova, que estava funcionando apenas de um lado. Pedi um Uber, coloquei minha playlist de folk/blues para tocar; a primeira música selecionada aleatoriamente pelo aplicativo foi Mestres da Guerra, do Bob Dylan. Era primeiro de junho de 2021.

Aquele dia que eu menos esperava desde que soube dele, provavelmente com uns 7 anos, tinha chegado: teria que me apresentar ao Exército Brasileiro. Nunca me imaginei dentro de um quartel, apesar de ter tido familiares militares, como meu bisavô, que lutou ao lado das forças varguistas na Revolução Constitucionalista de 1932. Queria muito ter conhecido ele. Nascemos no mesmo dia e mês. Minha mãe e vó dizem que ele, um patriarca militar do século XX brasileiro, era bastante amoroso. Será que ainda existem militares como ele?

Dentro do carro, a caminho do Exército, observava a manhã de tanto frio no calor do Rio; fazia uns 20 °C. Temperatura tão baixa que um negacionista poderia se apropriar dela pra esbravejar contra o aquecimento global. E o derretimento das geleiras, interlocutor imaginário? Passei por alguns lugares abandonados, que contrastam ferozmente com a paisagem paradisíaca exportada pelo Rio de Janeiro, da qual eu venho. Alguns bichos magros vasculhavam lixeiras em um terreno apocalíptico. Como o bicho versificado por Manuel Bandeira, ele não era cão, gato ou rato. O bicho, meu Deus, era um homem.

Cheguei no lugar. Entrei na fila que se estendia pela calçada, onde devia haver umas 10 pessoas esperando em pé. Esperar. Troquei algumas palavras com um garoto perto de mim. Ele disse que havia perdido o dia de alistamento e que não tinha certeza se queria servir, porque possuía um emprego. De repente, um militar gritou pra que ficássemos alinhados, com os pés nas linhas amarelas pintadas no chão. Não tive tempo para pensar sobre a ordem, apenas obedeci. Cadê a linha? Fiquei sobre ela. Obedecer a ordens.

— Bom dia, jovem. Tira o fone. — disse um dos militares pra mim enquanto pegava minha carteira de identidade. — Nome da sua mãe? — respondi, preocupado. E se eu errar o nome dela? — Pode entrar, jovem.  

Seguindo quem tinha entrado antes de mim, cheguei a outra fila com as mesmas pessoas. Um militar ordenou que ficássemos alinhados em pé do lado de uma parede, à esquerda. Mandou aos que estavam com mochilas posicioná-las na mão direita. Perguntei a mim mesmo o porquê daquilo. Olhei para a parede, onde formigas caminhavam de um lado para o outro desalinhadas. E parecia estar tudo bem com elas. A Teoria da Evolução constata que, num mesmo momento do tempo, todas as espécies estão igualmente evoluídas, cada qual adaptada ao seu respectivo ambiente. Admirei, então, a disposição daquela pequena sociedade de formigas. Como será ser uma delas? Esperei por mais uns minutos.

Fomos conduzidos a uma sala grande, com carteiras dispostas em diversas colunas. Todas alinhadas. Tínhamos que sentar onde fosse ordenado: fui mandado para a segunda carteira da extremidade esquerda. Nela, um papel, uma caneta e um crachá com um número de identificação. Gosto mais de nomes para identificar seres humanos. Na grande parede que encarávamos, havia duas telas pequenas para projeções, que estavam fixadas nas duas extremidades da sala. No meio, uma gigantesca bandeira do Brasil. Ordem e progresso.

Observava essa disposição ao passo que anotava, no papel, informações requeridas relativas à minha saúde. Uma das perguntas era: “Você já teve algum problema de saúde na vida?”. Algum problema… muito amplo; o espaço para especificação era mínimo. Marquei que sim, sem especificar.

Um militar sem farda apresentou-se, dando início a uma palestra de introdução. Abriram um PowerPoint na tela pequena da extrema direita. Era muito difícil para quem estava afastado ler; do meu lugar, na extrema esquerda, era impossível. Consegui vislumbrar apenas o design da apresentação. Tinha visto coisas melhores durante as apresentações dos meus amigos no Ensino Médio. Por que não transferir aquela pequena tela para o meio, onde estava a impositiva bandeira do Brasil? Talvez precisássemos lembrar do país em que estávamos. Ou que desordem e regresso são palavras que não constam no maior símbolo pátrio.

Enquanto o palestrante discursava, outro cara mandava as pessoas ordenadamente para a parte de trás do salão, onde dois militares no computador conferiam as informações dadas por nós na inscrição online. Na palestra, o homem disse muitas coisas. Contou uma história de um garoto muito inteligente que mentiu sobre ter terminado o Ensino Médio para estudar com os militares. E que tinha sido descoberto, expulso e respondeu na justiça pelo seu ato. Poderia ter tido um futuro brilhante, lamentou o palestrante, bastante desolado pelo destino do mentiroso. Apesar da clareza da mensagem, reforçou a moral da história: mentira tem perna curta. Não mintam, jovens. Não mintam.

Continuou dizendo que, em média, tinham 6 candidatos para 1 vaga, o que me tranquilizou e me fez pensar que muitas pessoas querem servir ao Exército. Sou parte de uma realidade muito diferente da maioria. Para tantos, aquela pode ser a oportunidade da vida, uma forma de conferir orgulho à família, de conquistar respeito em uma sociedade que tanto desrespeita os despossuídos de dinheiro e de poder. Lembrei dos catadores de lixo miseráveis do lado de fora. O palestrante prometia estabilidade e sucesso econômico, como prometido por vários, porém conquistado por pouquíssimos.  

Terminou citando Olavo Bilac, escritor brasileiro e patrono do exército. Lembrei das aulas de Literatura e dos versos do poeta um tanto romântico para um parnasiano, “pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas”. Será que aqueles homens fardados entendiam os astros do cosmos? Alguém entendia? Ao menos contemplavam-nos no céu difícil da cidade?

Depois da palestra, de duas em duas colunas fomos conduzidos a uma outra sala. Era toda branca, menor e com cadeiras de plástico da mesma cor das paredes. Todas elas alinhadas. Tinham alguns pôsteres promovendo o exército nas paredes, possivelmente feitos pelo mesmo designer do PowerPoint. Um senso estético diferente do meu, com certeza. Tivemos que ficar parados por muito tempo durante esse dia.

Arrisco especular que os militares, caso munidos de um poder divino, fuzilariam todos os movimentos involuntários do corpo humano. “Todo movimento deve ser resultado de uma ordem de um superior na hierarquia”, gritaria o chefe na Sala de Modificação Corporal. “Qual a ordem primeira?”, pergunta um insubordinado interessado em metafísica. Um silêncio constrangedor invade a sala. “Quem trouxe ele aqui?”, pergunta, alguns longuíssimos segundos depois, o Marechal Arquiteto de Corpos enquanto arrasta o questionador pra fora.

De coluna em coluna, fomos transferidos para um corredor. Esperamos em pé por mais alguns minutos. Antes de chegar a eles, levantei, na saleta dos pôsteres, antes dos dois colegas que estavam na minha frente. O militar, com voz de comando, ordenou meu recuo. Precisava seguir a ordem.

No corredor, outro homem falou que iríamos entrar de três em três na outra sala, cada um numa cabine individual. Deveríamos tirar a roupa e ficar de cueca para um militar inspecionar nossos corpos quase nus. Propus mentalmente o inverso: que as forças militares ficassem de cueca diante da sociedade civil brasileira. “O militar está nu!”, imaginei um garotinho de boné gritando com um pirulito na mão.

Poderia ter sido dispensado no exame corporal, o que não aconteceu. Aprovado, tive que seguir as setas azuis no chão. Os dispensados seguiam as vermelhas, que iam no sentido contrário. Como quis ser guiado por elas. Na mesma sala, um militar mediu minha altura, pesou meu corpo e perguntou quanto eu calçava: aproximadamente 43. 

Ordenaram que eu fosse para outra sala. “Quantas salas”, pensei. Aquilo não podia ser um erro, era uma disposição intencional. Lembrei do conceito de docilização dos corpos, proposto pelo sociólogo francês Michel Foucault. Aquela arquitetura espacial reforçava as hierarquias de poder do Exército. Um manda, outro obedece. O porquê era inexistente. Precisávamos apenas seguir as ordens. Ser dóceis. Senti que estava subordinado a uma estrutura muito maior do que eu. Qualquer ato de rebeldia parecia ineficaz.

Dentro dessa nova saleta, um rápido exame odontológico. Na próxima, entreguei meu papel com os dados médicos carimbados. Esperei outros longos minutos com meus colegas de alistamento. Dessa vez, fomos selecionados para a próxima etapa de quatro em quatro. Meu nome foi pronunciado erroneamente; tudo bem, muitas pessoas confundem. Acontece. Antes de ir, devolveram-me o papel com as minhas informações médicas.

Na sei lá centésima sala, estava com mais uma pessoa esperando a entrevista. Conseguia ouvir as duas conversas que aconteciam na minha frente: os dois jovens entrevistados pareciam dispostos a servir. Pouco depois, fui chamado para dentro. Finalmente, um militar simpático. O Sargento Gente Boa disse para eu guardar a identidade, porque muitos perdiam-na, mas não voltavam para buscar. Segundo ele, os militares tinham uma caixa cheia delas. Contei que, por coincidência, tinha perdido a minha recentemente, tendo-a recuperado no dia anterior. Quase expus que perdi ela na manifestação contra o governo Bolsonaro no dia 29 de Maio. Qualquer ato de rebeldia parecia ineficaz, pensei novamente. Um militante de esquerda achou minha identidade no chão, entrou em contato comigo no Instagram, e marcamos na catraca do metrô da Central para que eu a recuperasse. Agradeci bastante pelo favor, pedi desculpas pelo transtorno, e ele disse que eu tinha somado na luta. Temos que tomar conta dos nossos, completou.

Depois do alerta do Sargento Gente Boa, ele fez a pergunta que eu esperava há horas (ou há anos). Se eu queria servir ou sobrar. Respondi que não queria servir ao Exército. Puxei um papo sobre Universidade, contando a ele que eu estava estudando online. Não mencionei o meu curso, Comunicação Social. O militar parabenizou-me, concedendo-me a dispensa. Conduziu-me a outra sala, onde uma mulher fardada – a segunda que eu tinha visto naquele mar de militares do sexo masculino – carimbou meu papel com os dados médicos. Ela tinha um rosto bonito escondido sob a máscara. Um outro homem me explicou sobre como conseguir o Certificado de Dispensa de Incorporação (CDI). Eu estava dispensado.

Dessa sala, voltei por onde tinha entrado. Antes de sair, deixei o papel com os meus dados médicos e o crachá que me identificou como um número por algumas horas.  A maioria daqueles militares parecia ter saído diretamente de charges. Como todos somos criações de nós mesmos, com menor ou maior sofisticação, eles eram personagens de personagens. Máscara sobre máscara.

Fiquei, no total, umas 2h lá dentro do quartel. Esperei em três filas em pé, intercalando meus minutos por sete salas diversas (todas muito parecidas). Definitivamente, o Exército e seus membros eram bastante diferentes de mim.

Não acho que seja necessário me aprofundar sobre a questão da obrigatoriedade de apresentação ao Exército; apenas que, qualquer que tenha sido a ofensa à Instituição gerada por esse texto, o que não tenho como objetivo, ela poderia ter sido completamente evitada caso o processo de alistamento fosse voluntário. Entendo que, nas circunstâncias geopolíticas atuais, um país soberano precisa das suas forças armadas para defesa das fronteiras nacionais. Atribuição que não implica, de forma nenhuma, um envolvimento direto nos rumos do governo por parte dos militares — o que aconteceu no Brasil em 1889, 1930, 1937, 1945, 1954 e de 1964 a 1985.

Espero que meus colegas que vão servir busquem entender as estrelas. E que sejam felizes.

Voltei de metrô. Dentro, pernas e olhos das cores mais diversas. O transporte estava cheio. Muitos dormiam, outros mexiam nos celulares; tantos rostos enrugados e cansados. Naquele dia, 2.346 brasileiros tinham sido mortos diretamente pelo coronavírus e indiretamente pela gestão indigesta da pandemia realizada pelo presidente Jair Messias Bolsonaro. Como manter o distanciamento naquelas condições? Aqueles trabalhadores estavam entregues à própria sorte. E a própria sorte pode ser uma assassina à espreita. Entre o balanço confuso dos pensamentos e do trem, relembrei dos poderosos versos cantados por Robert Zimmerman em Mestres da Guerra: “Vocês lançaram o pior medo / Que jamais pôde ter sido lançado / Medo de trazer crianças / Ao mundo / Por ameaçarem meu filho não nascido e não nomeado / Vocês não valem o sangue / Que circula pelas suas veias.”


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