Admirável mundo novo: distopia e realidade

É cada vez mais comum nas ‘conversas de bar’, comentários de que vivemos em uma distopia, afinal, contradições de nosso tempo se intensificam e muitas vezes apenas a arte consegue expressar nossas sensações, desejos, medos, inseguranças, objetivos… é por isso que as distopias me fascinam.

A distopia é um estilo literário que se popularizou intensamente no Século XX, período em que suas principais obras foram lançadas, e desde aquele período foram importantes tanto para explicar a sensação da população sobre o seu tempo, como para propaganda e debates políticos. Dentre todas as distopias, uma em especial me encanta: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Publicada em 1932, a obra consegue uma abrangência política espetacular e pode ser usada como um presságio ou crítica a qualquer que seja o espectro político – como fazem também com 1984, apesar de ser direcionada ao regime soviético de Stalin – com uma sociedade controlada pelo estado, mas com forte apelo ao consumo e ao lucro.

Um dos pontos centrais para a discussão apresentada por Huxley são os debates trazidos a respeito da arte: o governador, principal figura da ordem política é um dos poucos indivíduos que teve contato com a literatura clássica naquele mundo de seres humanos feitos sob medida, e quando argumenta pela proibição, deixa claro: é proibido porque é antigo, “[…] porque são belas, a beleza atrai e não queremos que as pessoas sejam atraídas”. Quanto ao status de um dos únicos leitores, a explicação é simples: “Faço as leis e posso transgredi-las”. O preço a se pagar por essa sociedade que fabrica humanos e é imune a crises é a ausência de liberdade, a felicidade é uma obrigação, quem não é feliz não se adequa. Alguma semelhança com o mundo contemporâneo?

Desde os primórdios, a instabilidade, a tristeza, a desordem, o medo e tantos outros sentimentos que em geral são vistos de maneira negativa, servem como matéria-prima da produção artística. Sendo essa instabilidade o material utilizado para a produção artística e por consequência uma característica necessária a mesma, como uma sociedade de estabilidade eterna pode realizá-la? Seria essa felicidade obrigatória a nova ferramenta de escravização? Se o preço a se pagar pela estabilidade é a proibição, até onde essa estabilidade pode ser desejada? O Estado de constante alerta propagado após os ataques de 11 de Setembro nos Estados Unidos são uma clara demonstração de como o discurso da estabilidade – no caso, o combate ao terrorismo – é capaz de alimentar ferramentas repressivas e de ataque as liberdades civis, construindo até mesmo a justificativa para a invasão de países e declaração de guerras, como foi no Iraque, em 2003.

As questões científicas também fazem parte do mundo construído por Huxley: nele há um louvor por elas, mas há um horizonte limitado, pois “A verdade é uma ameaça, a ciência é um perigo público”, logo estimula-se apenas aquilo que está relacionado com o lucro e com as evoluções técnicas e tecnológicas, o pensamento subverte e pode ser substituído pelo uso das drogas – nesse caso, a felicidade está em cápsulas, é a droga do mundo de Huxley -, do álcool e da televisão, partes essenciais do controle social realizado.

Os pensadores que se aproximam da reflexão filosófica são punidos, levados a uma ilha isolada dessa sociedade construída e administrada por técnicos. O administrador, figura importante do livro, é um desses filósofos, mas ao contrário dos subversivos, fez uma escolha: o poder de controlar essa sociedade, de usar seu conhecimento para a manutenção do sistema, e não sua subversão.

O TRABALHO

Aspectos sobre o trabalho são também abordados na genial obra de Huxley, e é nesta área onde as reflexões levantadas são mais interessantes. A sociedade do mundo novo é composta por três diferentes classes de pessoas pré-moldadas: os alfas, os betas e os gamas, dos quais, cada uma das classes recebe diferentes tratamentos químicos, físicos e comportamentais para seu desenvolvimento, sendo os alfas a classe mais alta, que menos trabalha e mais desfruta de sua vida. Logo de cara, a discussão entre o personagem principal e o diretor – que no livro é a autoridade mais alta da sociedade – vai pelo caminho de que a mão de obra é necessária e uma sociedade composta exclusivamente por alfas – ou seja, pela classe dominante – seria instável e infeliz, colocando assim a pobreza e a desigualdade como fatores necessários para a estabilidade.

O administrador conta que chegou a haver um experimento de sociedades compostas exclusivamente por alfas, onde houve total liberdade para se organizarem e dividirem as tarefas necessárias. O fracasso foi retumbante e eles logo desejaram voltar ao estado anterior, pois eram incapazes de cumprir as tarefas simples do cotidiano: o trabalho executado pelos mais pobres, sem o qual a sociedade não se sustenta.

A representação de Eduardo Marinho sobre a pobreza é esclarecedora e se encaixa por completo na representação de Huxley em Admirável Mundo Novo

Na sociedade dos alfas, quem era direcionado a um serviço inferior dedicava seu tempo à criação de intrigas e disputas que as levassem ao cargo mais elevado, enquanto os que ocupavam esses cargos criavam outras intrigas que os manteriam onde estavam. O simbólico continua a exercer sua função discriminatória mesmo quando não há diferenças econômicas.

O desenvolvimento técnico também aparece e seu uso favorecendo o lucro e dos privilégios, ao invés do bem estar geral, é justificado: seria possível que a jornada dos trabalhadores de castas inferiores fosse reduzida, mas assim as ferramentas de controle teriam de ser afrouxadas. Pessoas exaustas e desesperançosas não se rebelam, se não se é possível vislumbrar um futuro melhor você não é capaz de lutar por ele. Alguma semelhança com o modelo de sociedade neoliberal? Ao redor do mundo, diversos experimentos trazem dados positivos sobre a redução das jornadas de trabalho – seja uma alteração para a semana de quatro dias de trabalho por três de descanso ou a redução das horas diárias de trabalho -, porém, essas medidas são apenas aplicadas em poucas empresas, geralmente no setor de tecnologia, enquanto a carga de trabalho aumenta para os mais pobres, como com a expansão do trabalho nos aplicativos de mobilidade ou de entrega de comida.

O discurso de valorização do trabalho duro era uma das ferramentas de controle, as classes sociais mais baixas supostamente gostavam de mais trabalho e não saberiam o que fazer se fossem alçadas a rotinas dignificantes, com isso sua exploração se justifica moralmente: seu trabalho era necessário e é para isso que eles servem, não há porque mudar.

FELICIDADE, NEOLIBERALISMO E OPRESSÃO

A felicidade e a ignorância estão intimamente ligadas. Os ignorantes são os mais felizes, pois não compreendem a realidade e se acostumam com a condição que lhes é imposta. A vida é o que conhecem, sua condição de exploração é a única possível e o que fazem não é um esforço, mas sim sua função na sociedade, essa é a principal forma de controle do mundo de Huxley, assim como é o mote por trás dos desmanches do sistema educacional e seu direcionamento às formações técnicas. As mudanças só são possíveis quando a possibilidade de uma vida diferente é palpável. Só há luta social se existe a possibilidade de mudança, a esperança é a principal ferramenta das relações sociais. Qual foi a última vez que você, caro leitor, pôde olhar para o futuro com esperança de dias felizes? Com planos para mudanças concretas?

A doutrina de choque desenvolvida pelo teórico liberal Milton Friedman e aplicada por seus alunos da Escola de Chicago, inicialmente no Chile de Pinochet, e posteriormente reintroduzida em diversas outras nações, como Argentina, Bolívia, Indonésia, Iraque, África do Sul e diversos outros países que passam por crises, sejam elas reais ou construídas. A doutrina de Friedman tem como mote a realização de mudanças econômicas em momentos de choque, sejam pelo medo, pela desesperança ou pela violência pura e simples.

O choque pode advir de um desastre ambiental, como o furacão Katrina que devastou Nova Orleans e que foi visto pelo próprio Friedman como uma oportunidade de privatizar as escolas ao invés de reconstruí-las; de repressão política, como a violência policial a luz do dia no Chile de Pinochet, ou na Indonésia de Suharto; de desastres econômicos, como as privatizações na Bolívia com a crise nos anos 90, ou a privatização realizada na dissolução soviética e a crise russa; ou até mesmo pela guerra, representada pela guerra e invasão do Iraque.

Com a população em choque, é mais fácil que medidas antipopulares sejam tomadas sem consultar a população e que as mobilizações sejam freadas pelo medo ou desatenção, afinal, quem vai para as ruas contra a privatização de uma empresa quando a cidade está totalmente alagada, o exército está matando pessoas a luz do dia, você não tem dinheiro para comprar comida ou seu país está sendo bombardeado? As prioridades são pré-moldadas e a possibilidade da resistência que seria inevitável em um ambiente democrático, é podada pelo choque.

As cortinas de fumaça do governo Bolsonaro são um exemplo diferente e moderno das doutrinas de choque: somos bombardeados com informações conflitantes, com absurdos que se sobrepõem e com falas histéricas que desviam a atenção enquanto a política real acontece por debaixo dos panos. A boiada de Salles é apenas o exemplo vulgar da política da extrema-direita, assim como os vídeos do desprezível Roberto Jefferson com suas pistolas, onde ameaça a democracia e a oposição. Enquanto falamos sobre o presidente xingando a imprensa o nosso país é leiloado, seus filhos pilham os cofres públicos e o dinheiro da vacina é desviado pelo Exército. A pandemia que nos impede de ir às ruas – ao menos nas proporções necessárias, já que diversas pessoas que em condições normais iriam aos protestos deixam de ir pelo risco de contaminação – também é um dos motivos pelos quais deveríamos tomá-las, afinal é um dos maiores crimes cometidos na história de nossa república. Quiçá o maior. O controle social das distopias pode parecer absurdo, mas a realidade às vezes é capaz de ser ainda mais.


Já escrevi anteriormente sobre as distopias e sua relação com a política atual em artigo que publiquei quando o Paulo Guedes, o Ministro da Economia, levantou a discussão sobre a taxação de livros. Você pode ler o texto A distopia e a queima de livros brasileira clicando aqui.



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