Cultura Política: símbolos, desejos e urgências


Apesar de análises impecáveis de seus clientes aristocratas, Freud esquece que a fome é o primeiro sinal de autopreservação e também deve ser ponto vital nas discussões sobre cultura e politica.


“Desejos podem até ser completamente irracionais, podem-se dar no sentido de que X ou Y ainda estejam vivos. Eventualmente podem se dar no sentido de que X ou Y estejam vivos. Eventualmente, faz sentido desejar isto, mas é absurdo quere-lo. Por isso, o desejo permanece onde a vontade nada mais pode mudar. O arrependido deseja não ter realizado uma certa ação, mas não pode exatamente querer isso. Igualmente desanimado, hesitante, muitas vezes desiludido, fraco de vontade, todos têm desejos, até bastantes intensos, sem que se rumam ao querer. ”

Ernst Bloch, em o “Príncipio Esperança”

Quando falamos em direitos, é preciso ter em conta o contexto em que tais legitimidades estão sendo discutidas. Churrascarias, jantares a luz de velas, feiras gastronômicas e feriados com ceias são a prova de que se alimentar é mais que se nutrir, mas também um fenômeno sociocultural. Para que não haja fome, é necessário haver não apenas uma certa quantidade de nutrientes, mas que a comida seja reconhecida como tal e produzida de maneira sustentável.


Em um país onde a fome, o desemprego e o monopólio dos principais meios de comunicação se dedicaram a fofocas de famosos – e em notícias consumíveis por um dia – esquecendo o passado dos eventos políticos que vem à tona no país, notamos a disputa de um discurso que abraça os sonhos dos seus compatriotas. A quem um trabalhador assalariado sabe tatear e prezar pelo bem do outro e notamos também o desprezo daqueles que têm riqueza, com tudo aquilo que é chamado de “utopia”, visto como distante para aqueles que não podem exercer seus desejos porque não cabe a quanto dinheiro tem seus bolsos.

Apesar de Freud ser famoso por fazer análises impecáveis sobre seus clientes aristocratas em Viena, o famoso psiquiatra se esquece de algo primordial nas suas primeiras obras de sucesso e foram muito bem resgatadas por Ernst Bloch e também deveriam ser lembradas por nós no Brasil do século XXI: A sexualidade e o desejo mais banal, material, realmente são uma pulsão. Entretanto, não é o primeiro sinal da autopreservação de um ser humano, tal como a fome. Apesar de ser algo óbvio, o que nos impulsiona é o que é urgente. No imediato do ser, tudo surge vaziamente, e por isto, surge de forma ávida, alvejante e inquieta. Eis que surge a ânsia, única condição sincera de todos os seres humanos e busca invariavelmente a autopreservação do corpo. Para tanto, esta ânsia sem forma toma um caractere de busca para algo exterior ao ser, comumente buscando algo que possa o saciar.

Por isso, Bloch explicita diversas vezes ao discutir Freud, que o ser humano não é só capaz de ter apetite (begehren) mas também como desejar algo (wunschen). Para o psicólogo alemão, o ato de desejar é mais amplo do que o apetecer, pois o desejar toma a forma do que o apetite imagina seu objeto, sendo uma forma mais específica da fome.

A fome no Brasil

Dados recentes da CEPAL mostram que a extrema pobreza  da população brasileira aumentou de 5,8% em 2012 para 6,5% em 2018, e que durante a pandemia houve um aumento de 23% na pobreza da população na América Latina.  

São várias pulsões que o ser humano carrega consigo. Pois ao contrário dos outros animais conscientes, o ser humano não vai direto ao ponto para resolver seus problemas. Se falta alguma necessidade de algo, sentimos essa carência como nenhum outro ser. Se temos o necessário, os apetites se valorizam e molestam de outra maneira que um esfomeado não poderia fazer.

Eis que surge a necessidade de se levar a campo público os recentes debates que rondam a cidade de São Paulo na última semana. A abertura da estação Dom Pedro II para que os mendigos dormissem na madrugada da quinta-feira (24 de julho), relatada como a madrugada mais fria em 100 anos na cidade; o incêndio da estátua do Borba gato; e os panoramas da fome no Brasil e nas Américas no quadro técnico que os gestores da pandemia julgam fazer.

Além da estação Dom Pedro II, igrejas e sinagogas também tem aberto suas portas para acolher pessoas em situação de rua. A prefeitura de SP instalou tendas para doação de comidas e cobertores, e ofereceu transporte das praças até os abrigos provisórios.

Entretanto, a caridade do prefeito e do governador de São Paulo para com os pobres e esfomeados parece não ser feita de igual para igual. Tanto o governador João Dória, quanto o arcebispo de São Paulo, Dom Odílio Scherer anunciavam no final de 2018 no programa do apresentador Roberto Justus que “pobre não tem hábito alimentar, pobre tem fome”, e assim criaram uma farinara e uma ração feita de restos de comida de creches para que virassem rações. Também vale ressaltar que enquanto prefeito, João Dória nunca se preocupou ativamente com a necessidade direta de alimentar. O mesmo ocorreu quando o prefeito anunciou que é permitido novamente dispensar pessoas que não conseguem mais pagar aluguel de suas locações na pandemia, enquanto chama atenção dos blocos sociais (termo gramsciano) para problemas que tangem o bolso dos ricos que já moldam o seu apetite a partir da sua condição de magnata. 

O sociólogo e gastrônomo Carlos Alberto Dória em seu artigo, “COMIDA VS. ALLIMENTO (sic): CULTURA E NUTRIÇÃO A PARTIR DO PROGRAMA PAULISTANO “ALIMENTO PARA TODOS” diz em seu primeiro parágrafo:

 “A produção da própria vida humana é o primeiro ato cultural ligado à alimentação. O simbolismo do domínio do fogo nos diz exatamente isso. Comer é produzir a si próprio, a família e os meios de vida fundamentais para a sociedade, coisas que só podem ser concebidas nos marcos da cultura do grupo. Só muito mais tarde, sob a vigência do capitalismo, produzem-se alimentos como mercadorias para terceiros sendo a alienação, primariamente, a separação entre o produtor e seu produto. As mercadorias desenvolvidas como atendimento às necessidades humanas das mais variadas, logo assumem formas inéditas, descolando-se daquelas ideias primitivas de alimento ou comida” e ainda cita o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Que afirma que se alimentar consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades.

Quando falamos em direitos, é preciso ter em conta o contexto em que está sendo discutido. Churrascarias, jantares a luz de velas, feiras gastronômicas e feriados com ceias são a prova de que se alimentar é mais que se nutrir, mas também um fenômeno sociocultural. Para que não haja fome, é necessário haver não apenas uma certa quantidade de nutrientes, mas que a comida seja reconhecida como tal e produzida de maneira sustentável. Nessas circunstâncias, a farinara sugerida pelo arcebispo de São Paulo e pelo prefeito na época, e hoje governador – João Dória – torna mais a clara a distinção social que as classes paulistanas fazem entre si. Enquanto Dória frequenta os melhores restaurantes da cidade na hora do almoço, se desdobrando nos cardápios mais variados e requintados, o mesmo trata com indiferença e desconsiderando a dignidade dos que não tem dinheiro. Sobretudo ao dizer que o sobradinho de comida em formato de ração traz “segurança” alimentar.

Outro comentário que tange a praxeologia e a experimentação do mundo do governador João Dória, veio de seu ‘tweet’ no sábado após a queima da estátua do Borba Gato em Santo Amaro, cuja autoria foi assumida pelo grupo Revolução.

Periférica, liderada pelo entregador antifascista Paulo Gallo. Após instigar a polícia a procurar os responsáveis pela queima da estátua feita em homenagem ao “baronato quatrocentão”, publicou em suas redes sociais: “Condeno o vandalismo nas manifestações. Quem age como vândalo é tão autoritário e violento como aquele que é alvo do protesto. Democracia significa diálogo, equilíbrio, jamais baderna. PM de SP agirá sempre que houver quebra da ordem. Ato democrático sim, violência não”.

Essa afirmação assinala bem quais parecem ser as premissas do governador. Seu pai era um grande publicitário que passou as companhias para o mesmo e que se elegeu em São Paulo no voto ‘BolsoDória’. Se o interesse de Dória para prender os incendiadores da estátua do bandeirante Borba Gato — assassino de indígenas e símbolo das oligarquias paulistas frente as elites de outros estados e da revolta contra o governo Vargas se mostrou instantâneo — fica evidente que os ultrajes provindos pelas políticas e falas públicas de Bolsonaro, que se reuniu sorridente ao lado da na última semana, congressista alemã neonazista e neta de um dos mais poderosos ministros de Hitler (Beatrix von Storch), não o incomodam e tampouco receberam a alcunha de “autoritário” que o governador deu para os manifestantes que mal poder tem.

Quando questionado sobre a relatividade na história da fome no país, um teólogo e professor de ética que preferiu se manter anônimo em entrevista para a revista, comentou que “tudo é relativo, menos a fome”, e ainda explicitou que o continente precisa de um outro cristianismo, uma vez que o Jesus histórico construído nos palácios da América Latina não salientam as necessidades dos pobres e caíram nas ameaças de Jeremias. “Abandonaram a mim, fonte de água viva, e cavaram para si poços, poços rachados que não seguiram a água” (2, 13).

Enquanto alguns partidários da esquerda ainda acreditam que violência contra estátuas e fascistas que se demonstram na rua sejam irrelevantes para a luta de classes, fica evidente que ações diretas rústicas não são uma mera simbologia, mas uma porta aberta de continuidade política e midiática contra os gestores das velhas instituições. São uma demonstração aberta do que certas camadas abandonadas a passar fome vislumbram para o país, sobretudo em um contexto onde o presidente marca um desfile militar no dia da votação do voto impresso na câmara dos deputados visando marcar presença de força e gerar uma ameaça política maior nos setores judiciários da república. Mesmo estando na governança da República, ao passo que pautas emergenciais como a morte de mais de 500.000 brasileiros e a situação de precarização de mais de 10 milhões de trabalhadores não são mais discutidas em veículos oficiais do governo ou na grande imprensa, esse fator se torna ainda mais presente.


Ilustração de capa por muhammed sajid.



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