Pela cosmovisão europeia, a palavra “magia” é constantemente compreendida como algo negativo; já no que se diz dela, a respeito da visão de mundo na África, Hampaté Bâ (1982, p. 173) afirma que “nem a magia nem o destino são maus em si. A utilização que deles fazemos os torna bons ou maus”. É a utilização feita pelo homem que poderá tornar a magia maléfica ou benéfica, sendo assim, ele é visto como um indivíduo de poder influente perante as ocorrências sociais e espirituais.

A magia benéfica é a dos “iniciados” e “mestres do conhecimento” e busca a purificação dos homens, dos objetos e da natureza, utilizando precisamente a oralidade para propagar seus desejos. A mentira, por outro lado, é considerada a ação mais repugnante dentro dessas crenças; compreende-se que aquele que corrompe sua palavra está, também, corrompido.

O que a África tradicional mais preza, como revela Bâ (1982) em seus estudos, é a herança ancestral. Os guardiões dos segredos mais profundos dessas tradições eram os tradicionalistas, indivíduos dotados de uma vasta memória, a ponto de fazer com que pessoas viessem de longe recorrer aos seus saberes.

Esses depositários de memórias foram perseguidos e passaram a se esconder do poder colonial que procurava dar um fim às tradições, buscando implantar suas próprias crenças. Por essa razão os tradicionalistas precisaram refugiar-se nas matas, fugindo da cidade dos colonizadores, que chamavam de “cidade de brancos”.

Importante destacar que todos os conjuntos de elementos ligados à magia africana buscavam manter o equilíbrio; essa harmonia advém do controle entre o mundo material e espiritual. Nessas sociedades originadas da tradição, embora cercadas de pluralidades, um artefato está continuamente presente: o sagrado.

Honorat Aguessy (1997, p. 99) descreve o imaginário africano afirmando “assim se apresenta o esquema desse mundo onde o universo, a vida e a sociedade estão inextricavelmente ligadas e simbioticamente envolvidas”.

Os feitos humanos possuem, sempre, um caráter ligado ao sagrado. Todas as ações andam em harmonia, transitando entre o mundo visível e o espiritual, em especial as atividades que tratam da matéria e sua transformação. O uso dos artefatos da natureza deve ser realizado com uma sensatez moral que está conectada aos valores do sagrado. A violação perante a natureza é tão importante quanto a ligada ao homem, uma vez que as leis do sagrado consideram que tudo ali possui uma vida.