Resenha: “Circuladô” – Caetano Veloso (1991)


Este mês marca os 30 anos do início das gravações de “Circuladô”, disco de Caetano Veloso lançado em novembro de 1991. Não é, certamente, um de seus trabalhos mais conhecidos, longe de ter hits como “O Leãozinho”, “Tigresa” ou “Você é Linda”. Eu mesmo, confesso, não gostei do álbum logo de cara. Acredito que haja […]


Este mês marca os 30 anos do início das gravações de “Circuladô”, disco de Caetano Veloso lançado em novembro de 1991. Não é, certamente, um de seus trabalhos mais conhecidos, longe de ter hits como “O Leãozinho”, “Tigresa” ou “Você é Linda”. Eu mesmo, confesso, não gostei do álbum logo de cara. Acredito que haja dois motivos principais para o “esquecimento” de “Circuladô”. O primeiro é a época em que foi lançado, pois, no começo dos anos 1990, os medalhões da MPB já não desfrutavam do sucesso e do impulso midiático que tinham vinte anos antes, cantando cada vez mais para um grupo nichado. O segundo é a difícil assimilação das referências estéticas e poéticas das canções (resquício do trabalho anterior, “Estrangeiro”, de 1989). 

Para entender “Circuladô”, acho melhor dividir a explicação por seus motivos sociais e estéticos. Em síntese, três grandes conceitos orientam a produção: preocupação com a situação política e social, retorno a referências antigas e parcerias com familiares e amigos.

A década de 1990 representou o período das consequências da urbanização desenfreada e da crise política que o Brasil viveu durante os anos 1970 e 1980. Mesmo que a primeira metade da década se apresentasse promissora – com a volta das eleições democráticas diretas, o Plano Real e as conquistas esportivas que levantavam a autoestima do país –, violência, poluição, corrupção, desigualdade social e racismo tornavam-se problemas endêmicos dos grandes centros urbanos. O álbum “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s, de 1997, é um documento cabal do brasileiro periférico expondo com crueza as mazelas do capitalismo dependente. No entanto, em 1991, Caetano já tentava externalizar seu incômodo com a sociedade brasileira. Um ano antes, em entrevista, reclamou com veemência do descuido com o qual a cidade de Salvador vinha sendo tratada, citando, inclusive, o nome do prefeito à época. A declaração do cantor nem sequer foi agressiva, mas foi suficiente para que sua residência sofresse um atentado a tiros, provavelmente efetuado por algum defensor da gestão municipal. Também no mesmo ano, Caetano apresentou-se no chamado “Show da Terra”, no Rio de Janeiro, como parte da série de eventos de cunho conscientizador sobre as questões climáticas que culminaram com a Eco92. A bronca de Caetano com o país viria com tudo nos versos de “Circuladô”. 

Do ponto de vista estético e estilístico, o álbum soa um pouco estranho aos ouvidos de quem está acostumado com a sonoridade consagrada do baiano, sobretudo no que se trata de suas canções dos anos 1970 e começo dos 1980. Isso porque o álbum conta com a produção de Arto Lindsay, estadunidense radicado no Brasil que produziu o inusitado disco “Estrangeiro” dois anos antes (ele também assina os dois primeiros trabalhos em estúdio da cantora Marisa Monte). Lindsay propôs a Caetano uma empreitada ao mercado internacional, sobretudo para os EUA, contando com a coprodução do guitarrista Peter Scherer. A dupla gringa é responsável pela sonoridade intensa, pop, sintética e cheia de excessos em guitarras e teclados. Para “Circuladô”, somente Lindsay permaneceria e, finalmente, o equilíbrio desejado seria alcançado.  Circuladô também retoma o experimentalismo marcante de “Araçá Azul” (1973), evidente nas canções “Circuladô” e “Ela Ela”. 

O disco apresenta, também, outra mudança significativa no trabalho de Caetano: sua esposa Paula Lavigne, que ficara grávida do primeiro filho do casal em junho de 1991, assumia a produção executiva e empresarial de sua carreira. Para comemorar a vinda do filho, uma música entraria para o álbum. Importante lembrar também que o disco inicia a parceria de sucesso de  Caetano com o músico e arranjador Jaques Morelenbaum, que definiria a roupagem de sua música durante toda a década. Além de Morelembaum, um time de peso marcaria presença em contribuições, como Gilberto Gil, Gal Costa, Bebel Gilberto e Milton Nascimento. 

O amarelo vivo do girassol na capa, sobreposto por colagens do olho e da boca de Caetano, logo se entrega ao clima soturno e denso de “Fora da Ordem”, música que abre o disco. Sem introdução, direto na estrofe, ela surgiu de uma indignação de Caetano ao ouvir a declaração do ex-presidente dos Estados Unidos, George H. W. Bush, de que o fim da Guerra Fria e da Guerra do Golfo representava o início de uma nova ordem mundial. Como pode o Brasil, um país onde  “tudo parece que era ainda construção e já é ruina”, querer participar da brincadeira de ser potência capitalista? Nossa realidade é o vapor barato que foi encontrado morto em uma escola em construção, meninos e meninas pelas ruas mordendo canos de pistolas, o lixo da Baía de São Salvador, o esgoto do Leblon e a prostituição em São Paulo. Aliás, o verso citado acima é inspirado nas percepções do antropólogo Claude Lévi-Strauss (que também é referenciado em “Estrangeiro”) sobre o Brasil no livro “Tristes Trópicos”. O soul que se converte em um quase-samba recebe o charmoso backing vocal de Bebel Gilberto no refrão. No fim da música, os versos do refrão são repetidos em Português, Espanhol, Inglês, Francês e Japonês. 

A canção que dá nome ao disco, na verdade, não é uma canção. “Circuladô de Fulô” é uma adaptação musical de um trecho do livro “Galáxia”, do poeta Haroldo de Campos. O texto declamado possui características de poesia concreta em um arranjo experimental pouco conservador no qual o violoncelo de Jaques Morelembaum soa tal qual uma rabeca nordestina. 

É de Morelembaum o arranjo de cordas que dá o charme da bucólica “Itapuã”, terceira faixa do disco. Caetano conta com a ajuda de seu filho mais velho, Moreno Veloso, nos vocais. A voz adolescêntica e de carregado sotaque carioca canta com delicadeza os primeiros versos do prelúdio da canção. A letra discorre em uma lembrança e homenagem à praia de Salvador que inspirava Dorival Caymmi e a juventude de Caetano. 

Remexendo no baú de “Araçá Azul”, “Circuladô” vai até Santo Amaro da Purificação buscar Dona Edith para dar o ritmo do samba de roda “Boas-Vindas” ao som da faca rabiscando um prato de cozinha. A quarta música do disco é uma homenagem à gravidez de Paula Lavigne e ao filho Zeca. que estava por vir. A música tenra e animada fala do lado bom e do lado ruim da vida, mas afirmando, por último, que ela é gostosa. O titio Gilberto Gil chega junto para tocar seu violão. Há também a contribuição mais que luxuosa de Naná Vasconcelos na percussão. 

Ainda com o baú de “Araçá Azul” aberto, o experimentalismo dadaísta e concretista firma-se com tudo em “Ela Ela”, em homenagem a Paula Lavigne – ela mesma disse que não gostou muito, não. A música sem ritmo, a letra sem compassos definidos, acompanhada somente pela guitarra raivosa, estridente e non-sense de Arto Lindsay é um dos momentos do álbum que mais lembra a tentativa de vanguarda de “Estrangeiro”. 

Tão amada e tão atacada, a televisão era o meio de comunicação que dominava o entretenimento pelo menos desde os anos 1970. Dominava desde os anos 1970 porque estava presente desde os 1950. Na década de 1990 nem se fala, ainda mais com a chegada da MTV ao Brasil, que veiculou o clipe de “Fora da Ordem” em um vídeo de 6 minutos. “Santa Clara, Padroeira da Televisão”, fecha o lado A do disco fazendo uma justa homenagem à mídia que praticamente consagrou a carreira de Caetano e de grandes nomes da música brasileira com os festivais que eram febre no fim da década de 1960. Quando a música parece que acabou, um solo de trompete aparece do nada. 

Se, no Tropicalismo, Caetano e Gil reverenciavam o baião de Luiz Gonzaga, o tributo aparece novamente em “Baião da Penha”, música que abre o lado B do álbum. Na canção de Guio de Morais e David Nasser, a voz e o violão de Caetano entoam a oração do matuto que pede a Nossa Senhora da Penha que proteja o baião e o traga para o lar. 

É difícil definir “Neide Candolina” em termos estilísticos, mas, para mim, soa como um ijexá moderno misturado com soul e um toque de rock no final. A letra super criativa e divertida consagra a professora de Português e Inglês de Caetano na adolescência. Mais do que homenagem, Neide Candolina é o retrato de uma mulher corajosa e avançada para seu tempo: professora de Letras, dirigia o próprio carro, mulher negra, estilosa e filha de Iansã. Lembra a preocupação ambiental de Caetano no início do texto? Ela volta como exigência para que a suja Salvador reverta o quadro atual para estar de acordo com a beleza de Neide. A voz de Bebel Gilberto acompanha Caetano no refrão quase hipnótico que só repete as palavras “nobreza brau”. 

O arranjo envolvente e delicado de “A Terceira Margem do Rio” acalma os ânimos da audição. A música, feita por Milton Nascimento, evoca a sensação que a letra visa transmitir: um clima fluvial que parece te fazer navegar o leito do São Francisco ou algo assim. 

A partir da consternação com um linchamento ocorrido em Salvador e que ganhou o noticiário Brasil a fora na época, “O Cu do Mundo” mostra a perplexidade e a ironia com as quais Caetano interpretava a situação da violência. A assonância marcando a tonicidade das letras O e U nas palavras faz o verso “o cu do mundo, este nosso sítio” sair com raiva da boca do cantor. É difícil precisar o estilo da música, mas a segunda estrofe apresenta um claro samba-choro. A estrofe-refrão recebe a ajuda de Gal Costa e Gilberto Gil nos vocais.

Depois de tanta porrada, o disco termina com a delicada “Lindeza”, uma bossa que conta com a participação do pianista japonês Riyuchi Sakamoto. A música é uma das mais elogiadas do disco, tanto que entrou para a trilha sonora da novela “Renascer” (1993), mas não vejo tanta graça assim. 

No geral, Circuladô merece nota 8,5. É um disco difícil de ser assimilado nas primeiras audições e pode cair no esquecimento caso não haja um real interesse em tentar mergulhar no universo musical de Caetano. Não tem nenhum hit, apesar do sucesso comercial de “Fora da Ordem”; no entanto, possui excelentes momentos e marca uma virada importante em sua carreira. “Circuladô” é tanto complicado quanto subestimado. Tem importância, também, por deixar clara a posição de insatisfação social de Caetano, algo que lhe era muito cobrado principalmente em comparação com Gilberto Gil e Chico Buarque.  Minhas músicas favoritas são “Itapuã” e “Neide Candolina”.



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