Ao final de 2020, o mundo parou para acompanhar um acontecimento: as eleições presidenciais dos Estados Unidos. E não é por acaso: o cenário político americano traz consequências globais e, em um momento de extrema polarização, gera naturalmente um enorme interesse. A disputa, que começou com Bernie Sanders na corrida pela vaga como o candidato democrata, e terminou com Joe Biden enfrentando Donald Trump, mobilizou o mundo todo.

Agora, em 2021, uma eleição também de grande importância vem passando despercebida: a disputa pela sucessão de Angela Merkel, que, após 16 anos, deixará a chancelaria da Alemanha. O país, principal potência do velho continente, também ocupa o posto de maior influência nas decisões da União Europeia.

Merkel é líder da CDU (União Democrata Cristã, ou se preferirem, Christlich-Demokratische Union Deutschlands), o partido conservador alemão, que junto a CSU (União Social Cristã, ou Christlich-Soziale Union), forma a coalizão mais tradicional do país, a Union. A Chanceler anunciou sua aposentadoria já em 2018, o ano de sua última eleição, o que levou a uma constante especulação sobre qual seria o futuro da Alemanha e quem seria o responsável pelo posto – é importante ressaltar que a Alemanha tem um presidente, porém, trata-se apenas de um cargo representativo, as decisões são tomadas pelo primeiro-ministro, que, no país, é chamado chanceler.

A disputa vem sendo movimentada e as pesquisas deixam em aberto quem será capaz de obter o maior número de votos e, consequentemente, ter o poder de formar o novo governo, que necessariamente será uma coalizão, afinal, as pesquisas deixam claro que nenhum dos partidos conseguirá formar uma maioria sozinho.

Em abril, os olhos estavam voltados para os Verdes (GRÜNE), que lideravam a corrida com alguma folga, com a candidatura de Annalena Baerbock.

Para facilitar a compreensão, identifico os partidos e sua ideologia: Union (CDU&CSU) é o partido conservador/democrata cristão; SPD são os social-democratas; AfD é o partido de extrema-direita – com ligações neonazistas; FDP é o partido liberal; LINKE é o partido da esquerda; GRÜNE são os verdes.

A candidatura Verde perdeu força após uma grande polêmica sobre propostas de aumento no preço dos combustíveis fósseis como forma de estimular o consumo de formas de energia limpas, assim como questionamentos sobre o currículo de Baerbock. A União veio em recuperação após um queda devido a críticas à condução de Armin Laschet, candidato do partido e governador da Renânia do Norte-Vestfália, durante a pandemia. Laschet sequer era o preferido dos eleitores conservadores; o líder da CSU e ministro-presidente da Baviera, Markus Söder, é dono de maior prestígio, mas não conseguiu vencer as disputas internas do partido. O SPD (Partido Social-Democrata da Alemanha, ou Sozialdemokratische Partei Deutschlands) manteve uma crescente com a candidatura de Olaf Scholz, o atual vice-chanceler do país – isso mesmo, o governo alemão é formado por uma coalizão entre a CDU (União) e o SPD.

Individualmente, Scholz já se mostrava o favorito da população para o cargo, porém a União mantinha-se na liderança das pesquisas para o parlamento, cenário que se reverteu na última divulgação, no dia 23 de agosto. As eleições serão realizadas em 26 de setembro e o cenário continua em aberto, afinal, o número possível de coalizões é grande:

SPD, União e Verdes (Coalizão Quênia): A coalizão consiste no SPD, de ideologia social-democrata, a União à direita e os Verdes, defensores de uma social-democracia com uma visão mais voltada ao ambiental.

SPD, União e FDP (Coalizão Alemanha): A coalizão novamente reúne os social-democratas e os conservadores, mas, dessa vez, com uma aliança com o FDP, Partido Democrático Liberal (Freie Demokratische Partei) – que, se me permitem uma comparação, seria o Partido NOVO da Alemanha.

SPD, Verdes e FDP (Coalizão Semáforo): A terceira possibilidade é uma coalizão entre os social-democratas, os verdes e os liberais, que, ao que tudo indica, é uma das principais chances em caso de vitória da SPD.

SPD, Verdes e Esquerda (Coalizão rubro-rubro-verde): O quarto cenário é a possibilidade de um governo bastante à esquerda, com os dois partidos de ideologia social-democrata e o Die Linke, ou, sugestivamente, A Esquerda (sim, é esse o nome do partido).

União, Verdes e FDP (Coalizão Jamaica): Por fim, em caso de a SPD não conseguir formar uma coalizão de governo, há a possibilidade de a União, os Verdes e os liberais se unirem para sua formação, colocando a SPD na oposição.

O cenário é diverso, mas mudanças podem vir a acontecer na Alemanha. Uma saída da União poderá dar ao país um novo papel global, em especial nos aspectos da defesa de uma superação da ideologia neoliberal – algo que já foi defendido por Joe Biden, presidente dos Estados Unidos – e do avanço de tópicos ligados à defesa do meio-ambiente.

Outra boa notícia é a queda, mesmo pequena, na intenção de votos da AfD, partido de extrema-direita e com ligações neonazistas que vinha crescendo, chegando a 12,6% dos votos em 2017. Nas eleições do próximo mês, não deverá passar dos 11%. É importante lembrar que todos os partidos alemães se comprometem a não coligar com a AfD, impossibilitando-os de fazer parte de um governo. A AfD é o partido da deputada Beatrix von Storch, neta de um oficial nazista que virou notícia após visitas ao presidente Jair Bolsonaro e outros congressistas da extrema-direita brasileira.

Se interessou pelas eleições alemãs? Há alguns locais onde notícias vêm sendo publicadas em português: o site DW Brasil e o perfil no Twitter, @eleicoesalemas. Em breve, falarei mais sobre isso por aqui.