Sociedade do Esgotamento


Na sociedade do consumismo a produção incessante de conteúdo é a nova lei. Estamos acelerando a velocidade de nossas experiências pessoais, sociais e profissionais em prol do desempenho e da produtividade. Essa aceleração é a ponta do iceberg de uma sociedade exausta e explorada.


Uma das últimas atualizações do WhatsApp trouxe a funcionalidade – já presente em outros aplicativos de mensagem como Telegram e Signalde acelerar a velocidade dos áudios recebidos. Em um primeiro momento parece apenas uma ferramenta que visa intensificar a praticidade, mas é preciso enxergar para além de sua funcionalidade. A aceleração de áudios é a ponta do iceberg de uma sociedade, modulada por uma ideologia, que vem automatizando seus sujeitos sociais.

Seria hipócrita da minha parte dizer que nunca acelerei um áudio ou algum vídeo, pois já o fiz, entretanto, o que busco aqui debater – ou ao menos questionar – é o universo por trás do regime de aceleração que vivemos. Estamos acentuando a velocidade de nossas experiências sociais, pessoais e profissionais em prol do desempenho e da produtividade. Estabilidade é uma palavra do século passado, o pensamento atual é flexibilidade.

A mentalidade neoliberal do desempenho que falarei a seguir vem adoecendo psicologicamente a coletividade e erodindo as relações interpessoais, o filósofo coreano Byung-Chul Han fala em sua obra ‘Sociedade do Cansaço’ que, visto da perspectiva patológica o começo do século XXI teria entre seus acontecimentos uma pandemia neuronal, ou seja, um surto de doenças neurológicas como depressão, ansiedade, TDAH e burnout, por exemplo, reflexos do modelo de sociedade capitalista que estamos construindo. Nessa relação a pandemia e o isolamento permitiram uma aceleração no processo de adoecimento, claramente, mas é preciso, também, reconhecer os efeitos da tecnologia, da flexibilidade e do discurso da produtividade.

Conforme constatado pelo psiquiatra Wagner Gattaz, diretor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, houve um aumento de até 3 (três) vezes nos quadros de ansiedade e depressão. Já no caso de burnout, esgotamento relacionado ao trabalho, a alta foi de 21% nos diagnósticos em relação ao período pré-pandemia. O home office intensificado resultante do isolamento expôs ainda mais o processo de derretimento da separação entre lazer e trabalho, onde a ausência dessa divisão resulta numa hiperconectividade, estado constante de estresse, intensificação da cobrança para resultados, auto exploração e alienação do sujeito social para com a realidade à sua volta, além, claro, do adoecimento psicossomático.

A ausência da figura do supervisor coloca o trabalhador num constante sentimento subjetivo de controle e vigilância sobre si mesmo e seu desempenho, onde todo momento pode ser um tempo de trabalho. Essa sensação reduz o real significado de certos espaços que habitamos e frequentamos, a casa que até então era sinônimo de descanso, torna-se local de produtividade incessante. O café na esquina se torna uma extensão do escritório. As relações sociais à sua volta são interrompidas com obrigações que exigem sua atenção imediata. Nesse ciclo existe uma guerra contra o silêncio e uma constante cobrança para a produtividade, tanto na esfera pessoal, ou seja o intenso discurso (também conhecido como auto-ajuda, inteligência emocional, etc.) de se aprimorar como indivíduo em busca da perfeição (que não existe, consequentemente gerando frustração), quanto na esfera profissional, onde a produtividade é conduzida pela eficácia, metas (muitas vezes inalcançáveis), velocidade e resultados. Ambos são carregados de positividade.

A tecnologia sempre teve uma relação direta com o capitalismo e a produção no que tange a capacidade de permitir uma maior produtividade num menor período de tempo, isso não significa, entretanto, menor exploração do trabalhador (processo também conhecido como expropriação de mais valia relativa). Às tecnologias digitais, por exemplo, geram intenso desgaste intelectual e físico com sua falsa premissa de flexibilidade e autonomia. Por isso, historicamente um dos pontos centrais na luta de classes gira em torno do tempo de trabalho.

Durante a primeira Revolução Industrial na metade do século XVIII, as jornadas de trabalho atingiam 16 horas ou mais despendida pelo trabalhador (inclusive crianças) isso significava passar mais da metade do tempo de um dia exercendo função laboral no chão de fábrica sem nenhum respeito à saúde física e mental e eliminando qualquer possibilidade de lazer. Esse processo gerava a alienação laboral, ou seja, o distanciamento do sujeito social da realidade frente ao excesso de tempo, força mental e física gastos para o trabalho, exaurindo-o, ao passo que enriquecia o capitalista.

Com a formação da luta promovida pelo proletariado frente às abusivas condições e jornadas de trabalho o tempo foi se reduzindo de 16 horas diárias para no fim chegar ao conhecido regime de 8 horas diárias que totaliza 40 horas semanais. Com isso o momento de lazer toma forma, permitindo a desconexão com o espaço de trabalho e a possibilidade do trabalhador aproveitar, descansar, interagir e se relacionar. Rompendo com a exploração incessante, mas ao custo da redução na expropriação de mais valia pelo capitalista.

Sendo assim, para que exista aumento no lucro mesmo com o tempo de trabalho reduzido é necessário intensificar a exploração e acelerar a produtividade. A organização do trabalho Taylorista (ou organização científica do trabalho), por exemplo, foi um dos métodos usados para viabilizar isso promovido pela ofensiva capitalista, não só como uma forma de distanciar o trabalhador de seu papel na produção da mercadoria, mas também para possibilitar uma produção otimizada, controlando, cronometrando e analisando cada minuto e segundo de trabalho despendido pelo funcionário.

Não pretendo aqui me aprofundar nos diversos modelos de organização do trabalho que foram se substituindo no decorrer do tempo, como o surgimento do Fordismo e posteriormente do Toyotismo. Sendo o último um dos impulsionadores da narrativa de flexibilidade e supervisão. O importante de se visualizar é o constante processo de intensificação na produtividade através de métodos e tecnologias que viabilizam isso ao custo da saúde física e mental do trabalhador.

Independentemente uma barreira sempre limitava o potencial de exploração, a estabilidade propiciada pelas garantias trabalhistas conquistadas, conquistas essas que ruíram conjuntamente com o colapso do Estado de Bem Estar Social (também chamado de Keynesianismo). A ascensão do Neoliberalismo na década de 80 trouxe consigo uma ofensiva direta aos direitos trabalhistas através da imposição de reformas legislativas e políticas de austeridade promovidas pelos países imperialistas sob os países subordinados. Para que isso fosse possível, e para que qualquer nova etapa do regime de acumulação do capitalismo exista, uma ideologia é empregada como pilar que motiva e lhe dá sentido colocando de volta o indivíduo como centro acima da coletividade.

É nesse momento que o switch entre estabilidade e flexibilidade toma forma, sob o manto do empresário de si mesmo a transferência de custos passa diretamente para o proletariado e o lucro volta para o capitalista de forma integral. Onde, a ausência das garantias trabalhistas conquistadas pelas lutas promovidas pelo proletariado remove do trabalhador a garantia mais fundamental, a estabilidade, sem ela o sujeito fica condicionado a um trabalho remunerado apenas quando produz colocando-o num ciclo de produtividade intensificada, aumentando o desemprego e o exército de reserva. Dentro deste contexto, toma forma um mercado altamente selvagem e individual, onde membros do proletariado não conseguem mais se compreender como pertencentes à mesma classe e aliados de luta, induzidos a se enxergar agora como concorrentes que disputam o mesmo espaço de atenção e mérito impedindo o processo de consciência de classe.

Um setor tecnológico que impulsionou a precarização é o de aplicativos de entrega e transporte, os entregadores são chamados de ‘parceiros’ das empresas, entretanto essa parceria é mera formalidade publicitária para transpor uma imagem amigável e complementativa entre ambos, o que está longe de condizer com a realidade. Nessa (in)justa parceria, o entregador é responsável por praticamente todo e qualquer custo do serviço que irá prover, desde possuir equipamentos de segurança como quanto ao próprio veículo. Assim sendo, uma falácia de uma economia de compartilhamento que só compartilha com os trabalhadores os custos de sua própria manutenção e retêm para si os lucros da exploração. As tecnologias atuais permitem desenvolver o discurso do empresário de si mesmo ainda mais, dando ao proletariado uma falsa sensação de domínio dos meios e ferramentas de produção, mas por trás, às Big Techs e seus algoritmos autoritários que efetivamente controlam e ditam os rumos da sociedade.

A ilusão publicitária é ainda mais visível quando tais empresas fazem de tudo para minar e impedir qualquer conquista no campo da luta trabalhista, como foi a derrubada de decisões do Ministério Público do Trabalho (MPT) que obrigava empresas como Rappi e Ifood a providenciarem equipamentos de proteção durante a pandemia para seus parceiros. Outro exemplo é a manipulação de jurisprudência (decisões judiciais que criam precedentes) promovida pela Uber, onde, ao perceber que está prestes a perder uma ação em que haverá o reconhecimento do vínculo empregatício com seu parceiro, a Big Tech vai lá e propõem acordo com o reclamante [motorista], de forma a encerrar o processo e não gerar uma decisão.

A dita liberdade e flexibilidade é mera ilusão para esses entregadores, o controle quanto a produtividade é reproduzido e intensificado pela tecnologia que monitora e vigia o parceiro coletando seus dados e deferindo embargos e penalidades. Há um fortalecimento na racionalização do trabalho que busca extrair o “melhor” rendimento de cada funcionário, impondo arbitrariedades na definição do ritmo, área de deslocamento, qualidade e valor do trabalho. A Rappi, por exemplo, impõe um sistema de pontuação que obriga a trabalhar em determinado ritmo, dias, regiões, sob pena de descontinuar os pedidos ou chamados nas melhores regiões. As jornadas dos entregadores ultrapassam 12 horas diárias e durante a pandemia, conforme pesquisa 51,9% dos entrevistados afirmaram trabalhar os sete dias da semana, enquanto 26,3% deles, seis dias.

Por mais que no universo assalariado exista a presença do debate acerca do direito à desconexão, tal direito fica limitado para aqueles inseridos exclusivamente em um contexto formal de trabalho, o que acaba não sendo a realidade de uma maioria avassaladora que trabalha de maneira informal e está sujeita a regimes intermitentes de conexão para não sofrer represália dos algoritmos que fiscalizam suas ações. Assim sendo, o trabalhador está atualmente muito mais próximo das condições desumanas que ocorriam durante a segunda metade do século XVIII do que a alguns anos atrás em que o trabalho formal era a regra. Mesmo nessas condições o discurso e ideologia neoliberal trabalham para justificar meritocraticamente tal exploração. O descanso e lazer deixam de ser um direito inerente ao sujeito social e são vendidos como recompensas que mesmo quando desfrutadas são questionadas. “Tempo perdido é dinheiro perdido, se está parado está perdendo, será que vale a pena descansar? Ou seria melhor apenas descansar quando alcançar o topo?”

Outro grupo diretamente afetado pela tecnologia, pela cultura da exposição e a produção incessante e acelerada de conteúdo são os jovens influencers. A cultura que estão inseridos vêm os estressando e propiciando burnout, isso com idades que variam entre 19 e 23 anos. Os algoritmos de redes sociais exigem uma frequência constante de publicações, qualquer redução na produtividade pode acarretar em redução no alcance de seus conteúdos para seus seguidores, sem engajamento os influencers perdem a sua força e visibilidade o que pode levar a perda de parcerias e seu esquecimento. O que o algoritmo não leva em conta é a saúde mental desses produtores de conteúdo (os quais prefiro chamar, produtores de entretenimento) que muitas vezes, além de precisarem desenvolver o que pretendem oferecer, precisam filmar, editar, desenvolver roteiro, produzir a arte entre outras funções. Existe uma sobrecarga de obrigações em uma única pessoa que resulta no esgotamento vital.

O universo dos influencers é altamente concorrido, afinal são produtos da intensificação do processo de individualização e uma falsa meritocracia, pois aqueles que detêm condições financeiras melhores para arcarem com todos os custos de produção, publicidade e afins adquirem maiores chances de visibilidade. Os algoritmos também trabalham para aqueles que pagam melhor. Enquanto aqueles que não possuem tal estrutura dependem dos algoritmos e suas regras. Esse ritmo frenético exige do jovem uma constante conexão para acompanhar as tendências, poder reproduzir e gerar engajamento. Essa exposição a um estado prolongado de estresse propicia o adoecimento psicossomático.

Para os produtores de entretenimento, existe a diluição do sentido entre lazer e trabalho, na realidade, o lazer se torna mercadoria de entretenimento, onde a exposição é necessária subvertendo o sentido real do descanso. No mundo do entretenimento a função dos algoritmos é prender a atenção do usuário pelo maior tempo e mostrar a maior quantidade de anúncios possíveis. O excesso de informação consumida em um curto espaço de tempo sobrecarrega nossa mente e corrói a capacidade humana de prestar atenção. A Sindrome de Fadiga da Informação (SFI), por exemplo, é resultante da enchurrada de conteúdos visualizados em um mesmo dia, essa overdose de informação faz com que o pensamento definhe. Um esgotamento intelectual que prejudica o sujeito social de pensar criticamente o que é de fato essencial e o que não é.

Nesse contexto é preciso visualizar o impacto do celular, visto também como o “novo cigarro” de tão viciante e entorpecente que ele vem sendo para a sociedade. Mais da metade da população global possui um aparelho, isso significa um total de 4 bilhões de pessoas, ou 51,9%, conforme pesquisa da Strategy Analytics. A hiperconectividade é uma realidade presente na vida de muitos, tanto que possuímos o costume de tirar do bolso o celular em média 94 vezes por dia, onde o tempo gasto vendo redes sociais é de 14 horas e 26 minutos comparado a 2 horas gastas para trabalho e produtividade. O capitalismo digital e da vigilância permite uma sociedade que, quando não está produzindo, está consumindo e enquanto consome produz dados que contém valor. As redes sociais usam estratégias da psicologia, da neurologia e até dos cassinos visando se aproveitar de vulnerabilidades da psicologia humana para transformá-las no objeto mais viciante.

Em um regime que se vive para trabalhar e se trabalha para viver todo minuto é precioso pois significa dinheiro perdido, a aceleração do áudio, como disse no início é apenas a ponta do iceberg de uma maior complexidade que atinge a civilização humana na atualidade, onde viver nesse constante estado de aceleração resulta em um crescente desgaste psicossomático. Inclusive, 745 mil pessoas morrem por ano por trabalhar de mais, ou seja, cumprirem jornadas acima de 55 horas por semana que está, inclusive, associado a um risco 35% maior de AVC e 17% maior de morrer de doença cardíaca, comparadas a jornadas de 35 a 40 horas semanais.

É preciso ir além de pensar apenas no uso consciente de tais ferramentas é necessário visualizar o que estamos construindo como sociedade, como a tecnologia vem cumprindo um papel de falsa praticidade, onde nos tornamos escravos maquínicos, engrenagens do capitalismo digital onde o engajamento é a lei. Ao passo que o trabalho dilui o lazer a alienação toma forma. Mercantilizam nossas relações sociais, nossa privacidade e o nosso lazer. Onde a flexibilidade coloca o sujeito social numa esteira de produção que depois de ligada não pode ser parada. O verdadeiro descanso voltou a ser artefato de luxo, um privilégio, que apenas uma classe efetivamente pode desfrutar (e sempre desfrutou) enquanto a outra é empurrada para um ritmo alucinante de consumo e produção que está longe de ser saudável e muito menos humano sob a falsa promessa da meritocracia. Onde o esgotamente é sinônimo de sucesso. Não se trata apenas de áudios acelerados, estamos falando de vivências aceleradas em prol da manutenção e intensificação do modelo político-econômico ao qual estamos inseridos.


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