Bartleby: o que preferiríamos não?

“Preferiria não” (I would prefer not to) talvez seja uma das construções mais provocativas do cânone literário ocidental. Tais palavras permeiam as páginas de Bartleby, o Escrevente, conto escrito por Herman Melville, autor de Moby Dick, e publicado anonimamente na revista Putnam’s Magazine em 1853.

Os acontecimentos são narrados em primeira pessoa por um homem mais velho, proprietário de um escritório de advocacia em Wall Street, Nova York. De todos os funcionários, ele constata ser Bartleby o escrevente mais estranho, o qual exerceu uma potente influência nele. Bartleby é de origem desconhecida, aparentando ser alheio a qualquer vínculo afetivo com outros seres humanos; em adição, era visto apenas no território do trabalho.

Contratado como copista, inicialmente Bartleby era de grande produtividade, copiando, copiando e copiando. Eis que, de repente, a ordem vigente é rompida: solicitado pelo chefe a conferir um documento com ele, Bartleby, cuja mesa de trabalho ficava na sala do empregador, responde que “preferiria não fazer”. A partir daí, Bartleby “preferiria não” fazer cada vez mais coisas e o chefe vê-se desconcertado pela atitude anômala, tentando decifrar até a derradeira linha, tanto quanto os leitores, aquele homem misterioso.

Bartleby, o Escrevente é uma narrativa sobre a qual, cerca de um século depois da publicação original, diversos intelectuais se debruçaram a fim de produzir reflexões acerca da vontade humana, da insubordinação, do capitalismo e do trabalho.

Para o escritor argentino Jorge Luís Borges, Bartleby é um prenúncio dos personagens de Franz Kafka, que se aproximam do estranho e da loucura, revelando o absurdo pulsante entre as engrenagens sociais. Por intermédio deles, são criticadas as instituições disfuncionais, a burocracia desmedida e o utilitarismo técnico – segundo o qual os corpos humanos são considerados valorosos na proporção que são úteis, produtivos. 

Para o filósofo francês Gilles Deleuze, Bartleby é um original: um tipo potente, intenso e solitário que assume um projeto de contestação. É um homem sem referências, despossuído e insondável. Encantado pela fórmula construída por Melville, Deleuze se debruça sobre a frase “preferiria não”: ela é desprovida de objeto, aplica-se a qualquer coisa, escapa à dicotomia afirmação/negação, introduz um vazio no cerne da linguagem, dizendo o indizível. Bartleby, rejeitando o capital, soa inumano, insano. Ele, entretanto, mantém-se preferindo não. “Nada irrita tanto uma pessoa séria quanto uma resistência passiva”, diz o narrador ecoando o poder da desobediência civil, perpetrada por tantas figuras históricas como Henry David Thoreau, Mahatma Gandhi e Martin Luther King.

Preferindo não, Bartleby provoca a dúvida: temos feito, enquanto indivíduos e órgãos de um corpo social, o que não preferimos? Sabemos, antes, o que preferiríamos não fazer? Se existe insanidade na narrativa, ela está em Bartleby ou na (des) ordem exterior? Em tempos de exigências produtivas cada vez maiores, mais desumanas, dizer “não” talvez seja vital à vida. Assim sendo, leitor, preferiria não descobrir que você passará seu raríssimo pedacinho de eternidade sem ler as poucas, envolventes, cômicas e trágicas páginas de Bartleby, o Escrevente



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