O Quarto de André | O Barro


Barro atrás de barro, barro junto com o próprio barro, barro separado, unido, divorciado, reconhecido. O barro existe pela reafirmação do barro pelo barro, o barro se multiplica pelo barro que existiu e pela sua expansão o barro também barra, me barrou eu mesmo o próprio barro, o barro me bastaria se eu fosse um […]


Barro atrás de barro, barro junto com o próprio barro, barro separado, unido, divorciado, reconhecido. O barro existe pela reafirmação do barro pelo barro, o barro se multiplica pelo barro que existiu e pela sua expansão o barro também barra, me barrou eu mesmo o próprio barro, o barro me bastaria se eu fosse um com o próprio barro mas sou eu, feita de carne e cansaço, me vejo agora acordado e a casa numa inundação de barro de onde rachou, o barro se infiltra como se a casa cagasse. O barro é o resto de destinos de outras vidas, o barro é só o que me resta nesse quarto. Acordei e tentei novamente barrar o barro com o próprio barro mas eu nunca fui de fazer colagens, além disso o barro gosta do quente de estar junto tanto do barro quanto da minha própria mão, então quando tirei a mão do barro ele borbulhou de falta e o que já não tinha forma parou também de ter firmeza, mas era barro, não lama. O barro tinha mais vida do que sequer eu me lembrava, o barro tinha vários nomes e todos eles eram barro, tinha o barro, a barra e o barros, o barro se expandia no quarto e no próprio medo que eu criava do barro, temia coisas que se moviam sem cansaço, coisas que tinham muita vida. 

O intuito do barro era me tocar, me perseguir, me enlouquecer, fazer sei lá o que de mim, eu também tinha curiosidade me mexer no barro e fazer um gatinho, ou um tigre, ou um homem velho esperando a morte chegar, o barro podia ser tudo e naquela hora o barro era apenas o desejo pelo meu toque enquanto eu era apenas o desejo por algum sentimento, se havia algo que o barro fazia era sentir, falar em duplo sentido, rir da cara de mim, me chamar de alegoria e rir da cara de alguém que acha que fez algo do barro que pode ser interpretado ou confessado, o barro queria me destruir enquanto eu queria criar o barro que já estava ali, eu quis por muito tempo fugir. 

A preocupação rotineira com sopa de batatas, o mundo não existir mais e coisas assim por um momento se suspendeu, era muito barro, era tudo muito abstrato, não fui criada para lidar com tanta sujeira minha, minha porque o quarto é meu, minha porque a rachadura é a desistência de me dar uma vida a viver, minha porque se a casa quer que eu me afogue em água dura, pastosa, nojenta e empática eu fiz algo para merecer da mão que afaga a merda, o tapa, que me incomoda e me subjuga, em prazer. 

O barro ainda se expandia, e talvez até ele próprio ficasse cansado de ser tanto barro, o barro se repetia até ser a palavra principal, mas era barro entalado de uma ou talvez mais de uma vida. Quando vi já estava sozinha de pé com o barro profundamente em mim, me encurralando e me dizendo algo. Barro barro, me cante uma canção, um choro quieto de quem não tem mais criatividade para chorar, barro barro, suba até meu pescoço e crie uma mão para meu rosto tocar, barro barro me seja um não, se eu quero sentir, porque é só o desespero que desce desse alçapão? Barro barro barre e baste eu, me exclua até que só haja barro, não eu, fruto do errado, foco deslocado, seja o sim para o meu não.

A cada rima pequena e enferrujada o barro fazia um blop e não me cantava, para o  barro eu era o sim e ele o não, amávamos em um caso de pura negação, eu e barro, a ideia e a execução, a desistência e a vergonha, o barro me dizia finalmente: era uma forma. Eu, tão só e tão cansado, tão ontologicamente negado, tive a ideia de construir do próprio barro algo que o desse forma para que o conteúdo descesse dentro de si mesmo, para poder me deixar fazer a sopa de batatas. O barro me pedia que eu o tocasse, o que com o barro eu faria? Faltas de respostas sempre me incomodavam, mas o que pegava o barro era a falta do próprio toque e, quando me vi, nem de pé nem deitado, o barro havia me emparedado, encurralado em um novo e talvez menor quarto dentro do quarto.

Era um quarto muito engraçado, marrom e escuro, um caixão da minha própria inanição, passei tanto tempo só vendo e barrando o barro que na hora do sim tive medo e me engoli. Nada ocorre no quarto e tudo ocorre no meu corpo que se desfaz, um instante cria corredores e hipérboles, o meu próprio quarto, verdadeiro inimigo de metáforas e descrições, tentei descrever para mim este quarto e me esbarrei apenas com barro barro barro, pelo menos já havia um pequeno inventário da nova mobília. De tanto em tanto desespero encolhi na escuridão do meu próprio medo de tocar no barro, não tenho outra coordenação motora que não a de descascar batatas, não tenho outra pele que não a marcada pelo meu nome andré, a grande incógnita das possibilidades de liberdade do barro me fez ser menor que um feijão, eu que estive todo esse tempo vivendo uma vida de alguém, num mundo-além, não sei lidar com aquilo que queima borbulha explode, a própria liberdade me aleija, eis que então o barro escuta minha reflexão estreita, abre um poço, se cala e me deixa. 

Profundo e firme, o poço me chama, e eu entro, puxado e sem poder me empurrar para fora o poço engole a mim e se tampa com o quarto e o barro, deixa limpo o outro quarto e me prende, encurralado, na beirada dos meus suspiros fracos, dentro de garganta cruel de rachaduras mais escondidas, mais cansadas que eu pude sim tapar com barro e que vieram me cobrar vingança. Há túneis imperceptíveis enquanto desço de todo um mundo que existiu das rachaduras que cansei de esconder, uma miríade de barros fortes e fracos correndo e se espancando, se esfaqueando e se amando, a vida ocorre no caos das lágrimas não entendidas que fazem a água desta garganta que me possui enquanto sou digerido, dissolvido, expandido frente ao escuro que me pede um grito forte mas que não me inspira música ou canção ou história, se perdendo nesses pequenos tratados de minúsculas coisas que é tentar deixar o barro adentrar em mim, encarar então o devir. 

Mas, sempre mas, é preciso que se faça algo, é preciso que se diga, levante e se veja, é preciso que as coisas não sejam apenas segredos escondidos ditos entre batatas cortadas para a sopa do dia, e é pensando na urgência da situação paralisada pelo próprio barro que o fundo não se apresenta como fundo, mas como início, do fundo destas lágrimas eu saio, mas submerge depois uma sombra, submerge das minhas lágrimas eu mesmo, mas também outro alguém, alguém. 



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