No ápice da minha jornada fitness, em uma das corriqueiras vasculhadas no Twitter, percebi que a Smart Fit estava nos trending topics. Curioso como sou, rapidamente fui conferir o que se falava sobre a academia que passei a frequentar.

Para o meu aborrecimento — porém não surpresa — descobri que se tratava de um escândalo relativamente antigo envolvendo o dono da empresa, Edgard Corona, que fazia parte de um grupo de empresários que se comunicavam constantemente por aplicativos de mensagem, uma espécie de liga dos vilões brasileira.

Nesse grupo, Corona teria pedido dinheiro para impulsionar vídeos de ataque ao então presidente da Câmara, Rodrigo Maia. O dono da academia era um ferrenho crítico à reforma tributária PEC 45, que prometia substituir um modelo federativo ineficiente por um sistema eficiente e cooperativo, com a extinção e a criação de tributos, além da repartição tributária para os mais pobres.

No ano passado, Corona chegou a ser suspenso em suas redes por decreto do ministro Alexandre de Moraes após se tornar alvo do inquérito das fake news, não só ele mas também personalidades como Luciano Hang (dono da Havan) e a extremista Sara Winter. Que lista saudável de nomes para se estar entre, não?

Por mais discreta (ou indiscreta) que seja, a academia tem uma forte ligação com outras empresas popularmente conhecidas no país: o apoio a Jair Messias Bolsonaro. Redes de varejo como Centauro, Havan, Riachuelo e restaurantes como Madero, Coco Bambu e Habib’s (ainda que o termo restaurante se categorize como um elogio para esse último) têm como controladores ou sócios-empresários aliados do governo fascista atual.

Em um Estado neoliberal, esse apoio, somado aos dos bancários, é o suficiente para Bolsonaro ter uma base sólida da campanha interminável. Com a voz que fala mais alto a seu favor, o dinheiro, dando força para movimentos antidemocráticos e blindando-o de situações adversas. Em troca, os carecas de ternos luxuosos, por sua vez, fazem esse investimento e esperam o retorno, como a destruição de direitos trabalhistas, a desigualdade por todo o território em favor deles e quaisquer outras isenções e proventos.

Então me deparo com o grande questionamento: se a desaprovação de Bolsonaro só aumenta, ultrapassando mais da metade do país inteiro, por que é que essas empresas lucram cada vez mais em território nacional?

A informação é divulgada, os nomes também. Entretanto, a lógica do mercado nos faz crer que essas redes gigantes são inevitáveis e, com o tempo – depois de três ações de marketing engajado nas redes – esquecemos o mau que elas podem causar a longo prazo, indiretamente ou não, para a grande maioria da sociedade.

Dito isso, há uma excelente alternativa para sairmos daquilo que parece ser o inevitável sem nem se preocupar em fazer pesquisas prévias: apoiar o comércio local. Sim, aqueles pequenos comércios! Pode ser a lanchonete do seu vizinho ou mesmo uma franquia de loja de uma costureira microempreendedora. Garanto que qualidade não será um problema na grande maioria dessas redes, que não vendem produtos em massa, frutos de exploração, mas sim feitos por meio de obras manuais, uma ideia e um sonho.

Ainda que seja impossível buscar a ficha de todo dono ou sócio de comércio que cruza nosso caminho, podemos consumir tranquilos uma mercadoria de pequenos negócios tendo a certeza de que nosso dinheiro não irá financiar lobistas no planalto.

É necessário assumir responsabilidades ao longo da nossa jornada. Fechamos um pacto ao consumirmos, dando uma base sólida para essas grandes empresas, cada vez mais fortalecidas. O capitalismo molda nossa mente a ponto de normalizarmos injetar nosso dinheiro em pessoas que se aliam ao fascismo, corrupção e retrocesso. Não será uma troca justa, e a conta pode sair bem cara para o cliente a longo prazo. O inevitável tem de começar a ser evitado.

Enquanto o fim do mês não chega para cancelar a assinatura mensal da academia, os halteres e as barras têm ficado muito mais pesados para mim nestes últimos dias.