Por Eder Castro, Luíza Zacarias e Sofia Schurig.

O empresário Francisco Maximiano, dono da Precisa Medicamentos e Global Saúde, admitiu ser o locatário de um apartamento frequentado por Marcos Tolentino e Ricardo Barros, deputado e líder do governo na Câmara. 

Maximiano começou o depoimento à comissão parlamentar de inquérito afirmando que usaria da prerrogativa do silêncio concedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em um habeas corpus. Devido a isto, diversos questionamentos realizados pelo relator da CPI, o Senador Renan Calheiros (MDB-AL), não foram respondidos. Nas informações superficiais que desejou conceder, Maximiano disse conhecer o deputado Ricardo Barros, líder do governo Bolsonaro na câmara, mas negou ter pedido favorecimento nos contratos com o governo.

Ele retrocedeu em seu depoimento a comissão, após afirmar ser somente fiador do imóvel e não locatário. Sua prisão foi solicitada pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania), sob o pretexto de falso testemunho. Após a confusão, o empresário se retratou formalmente, pedindo desculpas e confirmando ser o locatário do imóvel, mas que não se recordava, já que não residiu no local. 

O advogado e empresário Marcos Tolentino, dono da Rede Brasil de Televisão, é acusado de ser suposto sócio oculto do FibBank, pela CPI da COVID. O advogado teria participado também, de uma reunião com Maximiano, acompanhado do senador Ricardo Barros (PP-PR), antes do fechamento do contrato de R$80,7 milhões entre a Precisa Medicamentos e o Ministério da Saúde para a compra da vacina Covaxin. Contrato este em que o FibBank aparece como fiador do valor.

Como já noticiado pela última reportagem da Revista O Sabiá, as duas empresas de Maximiano foram afiançadas em mais de noventa milhões de reais em dois anos, entre 18 de março de 2019 e 17 de março de 2021, pelo FibBank. Desse valor, quase dois milhões de reais são somente em ações trabalhistas da empresa Global Saúde. 

Com base em documentos divulgados pelo grupo EterSec, uma célula brasileira do movimento ciberativista Anonymous, uma nova investigação por esta revista descobriu que Francisco Maximiano é locatário de um apartamento financiado pelo FibBank, em área nobre de São Paulo, avaliado em cerca de 8 milhões de reais. 

Em nota exclusiva enviada para a Revista O Sabiá, o movimento afirmou que as ações foram “apoiadas na identificação de causas sociais onde o objetivo seja obter, vazar e/ou expor dados, e sabotar recursos estatais ou privados de movimentos corruptos, autoritários e fascistoides”. Além disso, afirmam que escolheram o FibBank “por ser uma instituição sabidamente corrupta e por estar no centro das atenções da mídia”.

O imóvel, de luxo, fica no bairro do Morumbi. Em diversos sites de locação imobiliária, é descrito que o tamanho dos apartamentos varia de 1223 metros quadrados a 1975 metros quadrados, cada um com 6 dormitórios — sendo considerado, até o momento, o maior apartamento de maior metragem do país.

Os valores de aluguel variam entre 25 e 40 mil reais, sem impostos, e os de venda flutuam entre 5 milhões e 13 milhões de reais. Ambos os valores flutuam, sempre para mais, já que é possível encontrar um valor de aluguel de 70 mil reais, sem impostos. 

A carta de fiança em questão é datada de 21 de outubro de 2020, com o prazo inicial de validade de trinta e seis meses. O documento, por si, também detalha que a carta tem a finalidade de garantir um contrato de locação de apartamento no décimo andar, a cobertura, para Francisco Maximiano no Edifício Professor Adolpho Carlos Lindenberg. Diante essa informação, existem questionamentos graves sobre se isso seria possível conforme a suposta renda líquida declarada pelo empresário a comissão, quatro mil reais por mês. 

A beneficiária do documento, Zahia Monteiro Neves, é garantida em 1,6 milhões de reais pelo FibBank. Neves possui diversos processos envolvendo o condomínio que foi, ao que parece, alocado pelo empresário. Ela também aparece como diretora de uma empresa na Flórida, Estados Unidos, de nome ZAZA By Zahia Llc, fundada há 10 meses. 

Fazendo uma média de valores disponibilizados publicamente do que seria o valor mensal do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), 8 mil reais, com uma média dos valores de aluguel encontrados, 60 mil reais, isso equivaleria a um débito mensal — somente de locação, sem contar manutenções e condomínio — de 68 mil reais.

Mesmo que essa análise seja elaborada com os valores mais baixos disponibilizados na internet — 6 e 25 e cinco mil reais —  isso ainda significaria um débito mensal de 31 mil reais. Isso, para um indivíduo com suposta renda líquida de 4 mil reais, o que o colocaria na classe média baixa da população brasileira, parece incompatível. 

É necessário questionar se seria realmente possível que um corretor de imóveis aceitasse uma carta de fiança para um indivíduo com tal renda a morar em um condomínio tão bem avaliado — sendo o de maior metragem da capital, com portas automáticas, sistema de segurança totalmente eletrônico, piscina interna, quadra de tênis, lareira, sala de cinema, etc. — e em bairro nobre da capital. 

Além disso, fica o devido questionamento se um indivíduo que ganha quatro mil reais estaria, em meio a uma pandemia e a maior crise financeira do país, de fato preocupado em locar um imóvel de valor tão inconciliável, incoadunável e, novamente, incompatível com sua renda líquida. 

Diante do extenso arquivo divulgado pela EterSec, das investigações desta revista e das ações do FibBank, torna-se cada vez mais claro que a empresa não pode ser relevada como somente um ator parcial da CPI da Covid.

É crucial que autoridades públicas e responsáveis analisem todas as linhas, palavras e parágrafos já escritos pelo FibBank em cartas de fiança emitidas pela empresa em seus anos de atuação. As ações deste banco, que não é banco, não são, ao que tudo indica, limitadas a uma suposta corrupção na compra de vacinas na pandemia.