A cultura do segredo

O condão de evidenciar certas pautas, por interesse próprio ou de aliados, foi por muito tempo um poder exclusivo quase oculto das corporações jornalísticas, agências de notícias e das mídias privadas ou estatais. Todas elas são peças chaves em uma cultura do segredo, parte de um sistema, que é, antes de tudo, baseado em uma constante guerra de informações, onde certos grupos, corporações e Estados, decidem o que é ou não de interesse público, baseados no que é de interesse deles. Na primeira semana deste mês, porém, fomos colocados à prova de uma forte ferramenta antagonista a este sistema: o ciberativismo.

A invasão do site da Fib Bank realizada pelo EterSec, célula brasileira do grupo de ciberativistas Anonymous, demonstrou como esta prática na era digital consegue dar relevância a pautas que estão fora da zona de controle das corporações. Neste caso, evidenciar ainda mais as investigações que estão acontecendo na Comissão Parlamentar de Inquérito, onde a empresa atacada está sendo investigada por suposta participação em um escândalo de possível corrupção, envolvendo a compra da vacina indiana Covaxin.

O grupo usou uma estratégia chamada Defacing, algo semelhante a uma pichação. No lugar da pichação eles deixaram então uma mensagem corajosa, declarando guerra ao presidente, enquanto usavam o site; ou muro, da empresa escolhida, chamando atenção para ela, que, segundo eles, são “uma instituição sabidamente corrupta”.

Eles encontraram diversas cartas fidejussórias em que a empresa aparece como fiadora em diversos contratos, muitos deles referentes às licitações públicas, além da já investigada pela CPI da Covid. Todos os documentos adquiridos foram disponibilizados a todos aqueles que quisessem ter acesso, tal como se deve ser.

Dar acesso a estas informações, demonstrando que contratos públicos multimilionários foram fechados com uma empresa laranja, que possui um quadro societário fantasma, é o exemplo de como o ciberativismo é uma importante ferramenta democrática – no sentido real da palavra – nesta guerra informacional que vivemos. 

O mais recente ataque do EterSec, me pareceu um forte exemplo de como a relação entre informação e sociedade parece cada vez mais relevante. Relevante o suficiente para que ciberativistas sejam perseguidos como terroristas em diversos países, assim como foi Julian Assange logo que a WikiLeaks tornou públicas diversas informações esclarecedoras — para não dizer repulsivas — envolvendo Estados e grandes corporações. Precisamos de um entendimento do senso comum de que não existe segredo que não deva ser revelado em prol de um conhecimento da própria sociedade. A informação deixou há muito tempo a ser apenas um direito, mas sim um objeto material mais do que importante na dinâmica de luta por uma real democracia. Quando esta informação não nos é dada, é nosso direito tomá-la.



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