Cientista iraniano foi assassinado por tecnologia artificial israelense

Uma reportagem do New York Times revelou que Mohsen Fakhrizadeh Mahabadi, principal cientista nuclear do Irã, foi assassinado pelo serviço secreto israelense com uma inteligência artificial. Convencido de que Fakhrizadeh estava liderando os esforços do Irã para construir uma bomba nuclear, Israel queria matá-lo há pelo menos 14 anos. Ele havia sido alertado pelo serviço de inteligência iraniano sobre um possível plano para matá-lo, mas ele ignorou o aviso.

Ao longo de catorze anos, cinco cientistas nucleares iranianos foram assassinados e um foi ferido — Agentes israelenses também mataram o general iraniano encarregado do desenvolvimento de mísseis e 16 membros de sua equipe. A maioria dos cientistas assassinados trabalhou diretamente para Fakhrizadeh no que funcionários de inteligência israelense acreditam ser um programa secreto para construir uma ogiva nuclear. Isso faz parte de uma campanha por parte do Mossad, serviço secreto israelense, de impedir que o Irã obtenha armas nucleares. O Mossad não só realizou diversas campanhas de ataques cibernéticos e sabotagem, como eliminou metodicamente os especialistas que poderia estar liderando o programa de armas nucleares do Irã.

Outro plano de assassinar o cientista foi elaborado em 2009. Uma equipe de assassinos do serviço secreto israelense aguardava por Fakhrizadeh em um local estratégico para realizar um assassinato planejado em Teerã, capital do Irã. Devido suspeitas do Mossad que seu ‘inimigo’ tinha conhecimento do plano, ele foi cancelado de última hora. Onze anos depois, eles encontrariam outra maneira.

Agentes iranianos que trabalhavam para o Mossad havia estacionado uma caminhonete Nissan Zamyad azul ao lado da estrada que conectava Absard — cidade no Distrito Central do Condado de Damavand, província de Teerã, Irã — à rodovia principal. O local ficava em uma pequena elevação com vista para os veículos que se aproximavam. Escondida sob lonas e material de construção de isca na carroceria do caminhão estava uma metralhadora franco-atiradora. Por volta das 13h, a equipe de assassinos recebeu um sinal de que Fakhrizadeh, sua esposa e uma equipe de guardas armados em carros de escolta estavam prestes a partir para Absard, local em que a elite iraniana costuma a ter casas de verão e passar férias.

No entanto, o assassino não estava nem perto de Absard, mas há 1.600 quilômetros de distância, através de uma tela de computador em um local não revelado.

No passado, Israel usou uma série de métodos em seus assassinatos. O primeiro cientista nuclear foi envenenado em 2007. O segundo, em 2010, foi morto por uma bomba detonada à distância colocada em uma moto. Após isso, o Mossad matou seus alvos de uma maneira mais simples, com assassinos em motos atirando ou colocando bombas em carros antes de escapar. Diante do grau de proteção em torno de Fakhrizadeh, esses métodos pareciam inviáveis, até que um robô assassino mudou o cenário.

O Mossad possui uma regra antiga de que se não houver resgate, não há operação, o que significa que um plano infalível para retirar os operativos com segurança é essencial. Apesar de não envolver agentes diretamente, o método apresentava seus desafios: o primeiro deles era colocar a arma no local do ataque. Todos os componentes do robô pesam uma tonelada, então ele foi desmontado e contrabandeado para dentro do país, onde foi montado secretamente.

O robô foi construído para caber na carroceria de uma picape Zamyad, um modelo comum no Irã. Câmeras apontando em várias direções foram montadas no caminhão para dar à sala de comando uma imagem completa não apenas do alvo e seus detalhes de segurança, mas do ambiente ao redor. Finalmente, o caminhão foi embalado com explosivos para poder explodir em pedaços após a morte, destruindo todas as evidências. Houve outras complicações no disparo da arma. Uma metralhadora montada em um caminhão, mesmo estacionado, tremerá após o recuo de cada tiro, mudando a trajetória das balas subsequentes.

Carro usado pelo cientista nuclear Mohsen Fakhrizadeh no dia de sua morte. | Foto: WANA NEWS AGENCY/REUTERS

Além disso, mesmo que o computador se comunicasse com a sala de controle via satélite, enviando dados na velocidade da luz, haveria um pequeno atraso: o que o operador constatava na tela já tinha um momento, e ajustar o objetivo para compensar demoraria outro momento, enquanto o carro de Fakhrizadeh estava em movimento. O tempo que levou para as imagens da câmera alcançarem o atirador e para a resposta do atirador alcançar a metralhadora, sem incluir seu tempo de reação, foi estimado em 1,6 segundos, atraso suficiente para que o tiro mais certeiro se extravie. Por isso, a inteligência artificial foi programada para compensar o atraso, o tremor e a velocidade do carro.

Israel carece da capacidade de vigilância no Irã que tem em outros lugares, como Gaza, onde usa drones para identificar um alvo antes de um ataque. Um drone grande o suficiente para fazer a viagem ao Irã poderia ser facilmente derrubado por mísseis antiaéreos iranianos de fabricação russa. Contudo, um drone circulando pela zona rural de Absard poderia expor toda a operação. Portanto, outro desafio era determinar em tempo real se Fakhrizadeh estava de fato dirigindo o carro e não um de seus filhos, sua esposa ou um guarda-costas. A solução foi estacionar um carro falso desativado em um cruzamento na estrada principal onde os veículos que se dirigiam para Absard precisariam passar. O veículo também continha outra câmera.

No dia 27 de novembro de 2020, o primeiro carro trazia uma equipe de segurança. Ele foi seguido por um Nissan sem blindagem dirigido por Fakhrizadeh, que estava ao lado de sua mulher, Sadigheh Ghasemi. Outros dois carros de segurança vinham atrás. A equipe havia alertado o cientista sobre uma ameaça no dia anterior, e sugeriu que não viajasse, conforme um relato do filho do cientista, Hamed Fakhrizadeh, a autoridades iranianas. Fakhrizadeh disse ter uma aula na universidade para dar em Teerã no dia seguinte, disseram seus filhos, e que não poderia fazer isso remotamente.

No momento do ataque, a metralhadora disparou uma rajada de balas, atingindo a frente do carro abaixo do pára-brisa. Não está claro se esses tiros atingiram Fakhrizadeh, mas o carro desviou e parou. O ‘atirador’ ajustou a mira e disparou outra rajada, acertando o pára-brisa pelo menos três vezes e Fakhrizadeh pelo menos uma vez no ombro. Ele saiu do carro e se agachou atrás da porta da frente aberta. A caminhonete explodiu.

A explosão tinha como objetivo rasgar o robô em pedaços para que os iranianos não pudessem juntar as peças do que havia acontecido. Em vez disso, a maior parte do equipamento foi lançada no ar e depois caiu no chão, danificada além do reparo, mas em grande parte intacta. A Guarda Revolucionária avaliou que o ataque foi realizado por uma metralhadora controlada remotamente “equipada com um sistema de satélite inteligente” usando inteligência artificial. Toda a operação durou menos de um minuto.

Ali Shamkhani, secretário do Conselho Nacional Supremo, disse mais tarde à mídia iraniana que as agências de inteligência tinham conhecimento da possível localização de uma tentativa de assassinato, embora não tivessem certeza da data.

O Irã já havia sido abalado por uma série de ataques de alto perfil nos últimos meses que, além de matar líderes e danificar instalações nucleares, deixaram claro que Israel tinha uma rede eficaz de colaboradores no país. As recriminações e paranoia entre políticos e funcionários da inteligência só se intensificaram após o assassinato de Fakhrizadeh. Agências de inteligência rivais — subordinadas ao Ministério da Inteligência e à Guarda Revolucionária iraniana — culparam umas às outras.

Hamed Fakhrizadeh, filho do cientista, estava na casa da família em Absard quando recebeu um telefonema de socorro de sua mãe. Ele chegou em minutos ao que descreveu como uma cena de “guerra total”. Fumaça e neblina turvaram sua visão, e ele podia sentir o cheiro de sangue. “Não foi um simples ataque terrorista alguém vir, disparar uma bala e fugir”, disse ele mais tarde na televisão estatal. “O assassinato dele foi muito mais complicado do que você sabe e pensa. Ele era desconhecido do público iraniano, mas era muito conhecido daqueles que são inimigos do desenvolvimento do Irã.”



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