Alberto Fernandez e a nova crise política argentina


O governo Alberto Fernandez começou com avanços importantes na conturbada Argentina, mas nas últimas semanas uma considerável derrota nas primárias das eleições que acontecerão no dia 14 de novembro empurrou o país rumo a uma nova crise política.


Deu tudo errado. Há pouco mais de um ano, no dia 6 de setembro de 2020, escrevi uma coluna com o título “Alberto Fernandez, um presidente incontestável (até o momento)”. Hoje, não tenho absolutamente nenhuma dúvida que a parte mais importante desta coluna é o que está entre parênteses no título: até o momento.

De lá para cá, uma sucessão grotesca de erros levou o governo de Fernandez a uma profunda crise política em um país que já vinha de problemas econômicos de longa duração, levando sua coalizão, Frente de Todos, a uma considerável derrota nas primárias das eleições regionais. O que são as primárias? Característica um pouco estranha das eleições argentinas, é ‘basicamente’ uma pesquisa eleitoral oficial e obrigatória: todos os cidadãos devem votar nas “Primárias Abertas Simultâneas Obrigatórias”, que acontecem algumas semanas antes das eleições e mostram a previsão de cenário para as votações oficiais. Nessas primárias, o resultado foi catastrófico: derrota em 18 das 24 províncias do país (23 províncias mais a cidade autônoma de Buenos Aires). Os vencedores? A coalizão do ex-presidente Mauricio Macri, Juntos por el Cambio, que venceu inclusive em Buenos Aires, reduto histórico do peronismo.

O que já seria ruim como um fato em si, escalonou com a disputa entre Alberto Fernandez, o presidente, e sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, figura política muito mais forte que Fernandez. Cinco ministros do governo, aliados de Cristina, colocaram seus cargos à disposição e a vice-presidente soltou uma “Carta ao povo argentino”, pressionando o presidente a dar mais poderes a vice, reclamando da falta de atenção a suas demandas e exigindo uma mudança na postura mais centrista do governo. Dois nomes foram especialmente pautados: o Chefe de Gabinete Santiago Cafiero e o Ministro da Economia Martín Guzmán. Na queda de braços, Cafiero caiu, foi transferido para o Ministério das Relações Exteriores, enquanto Guzmán manteve-se no cargo. Em meio a crise, foi vazado um áudio da deputada peronista Fernanda Vallejos com duras críticas ao presidente, chamando-o de “doente” e “usurpador”, que “quer conservar seu núcleo de inúteis” no governo.

O que levou ao desastre eleitoral nas primárias

Com um recuo de 9,9% do PIB em 2020 e uma inflação na casa de 50%, as renegociações da dívida conquistadas por Fernandez no início do mandato não foram suficientes para garantir os recursos para os investimentos necessários, seja para o desenvolvimento do país, seja para simplesmente mantê-lo em funcionamento. Com uma das quarentenas mais rígidas e longas do mundo, o governo não soube dosar o fechamento e muito menos controlar a abertura: sem rastreio e testagem, os casos explodiram logo que as medidas foram sendo revogadas e a Argentina viveu um caos no ano de 2021, jogando fora todo o bom  desempenho que haviam tido no início, batendo mais de 110.000 mortes.

Outro problema relacionado a pandemia fez com que a popularidade de Fernandez desmoronasse: vazaram fotos de uma festa de aniversário de sua esposa, Fabiola Yáñez em julho de 2020, momento em que todo o país estava fechado e de quarentena, com todos os convidados juntos e sem máscara na Quinta de Olivos, residência oficial do governo. A festa rendeu até mesmo pedidos de impeachment pela oposição. Fernandez se desculpou, admitiu o erro, mas pouco mudou na repercussão.

As eleições serão realizadas em 14 de novembro e definirão metade dos assentos da câmara e ⅓ do senado, o governo anunciou a nova composição ministerial, repleta de nomes que compuseram os governos de Néstor e Cristina, e prometeu pacotes econômicos para combater a crise.

A crise argentina parece um pesadelo sem fim, que se arrasta há décadas e que diferentes governos não foram capazes de resolver. O que já foi um dos países mais ricos do mundo, perdeu competitividade e não encontrou seu lugar no mercado internacional do período neoliberal. Os empréstimos e a aplicação de medidas do FMI, suas ditaduras e convulsões políticas não ajudaram a sua estabilização e o país ficou para trás, mesmo tendo altos índices educacionais e diversas questões sociais superiores às brasileiras. O país está à deriva e ingovernável, o governo e a oposição não se entendem e necessárias medidas de longo prazo não são tomadas, com as decisões econômicas sendo pautadas por ideologias opostas umas às outras no decorrer dos governos.

Se Fernandez não der a volta por cima, Mauricio Macri poderá voltar com uma nova promessa de salvação, apesar do desastroso – e criminoso – governo que fez quando teve a oportunidade.



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