O crédito que a mídia independente aguarda

Quem já teve alguma experiência na mídia independente sabe que não se trata de um trabalho fácil. São raras as iniciativas que conseguem sustentação financeira a ponto de remunerar o seu quadro de profissionais. Talvez por isso, há quem confunda o jornalismo independente como mero hobby — um passatempo feito no horário livre das e dos jornalistas.

Longe das prestigiadas redações da chamada “mídia tradicional”, profissionais independentes têm o seu valor colocado à prova não apenas pelo público, mas também por colegas. Quer um exemplo? Basta ver a quantidade de matérias que não creditam informações obtidas pelos veículos fora do circuito mainstream do jornalismo.

Seguindo vários jornalistas da mídia independente no Twitter, reparei serem cada vez mais constantes as reivindicações dos profissionais por créditos. Isto é, diversas reportagens de jornais tradicionais utilizavam pautas já trabalhadas pelos independentes, mas sem reconhecer a fonte original que apurou essas informações.

Merecem destaque pelo menos seis casos que já aconteceram com The Intercept Brasil, Agência Pública, Ponte Jornalismo, Agência Sportlight, o blog do jornalista Ruben Berta e o Observatório da Mineração.

No mesmo dia em que The Intercept Brasil revelou o ressentimento de Magno Malta com o governo Bolsonaro, o jornal O Globo publicou praticamente o mesmo conteúdo informativo horas depois, sem mencionar a entrevista exclusiva do então senador para a repórter Amanda Audi. À época, o jornalista George Marques questionou por qual razão a “mídia brasileira que se diz hegemônica” não citou a fonte original do furo.

 Já em agosto desse ano, a edição 2690 de IstoÉ apresentou reportagem sobre a descoberta de uma antropóloga envolvendo cartas de Jair Bolsonaro endereçadas a grupos neonazistas. Uma semana antes, a história já havia sido publicada por Leandro Demori, que cobrou publicamente a revista.

A apuração da Agência Pública foi ponto de partida para uma reportagem veiculada no programa Fantástico, da Rede Globo, sobre o réveillon que Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flavio Bolsonaro, passou em Atibaia na casa do advogado da família Frederick Wasseff. Mas a matéria televisiva apenas credita as imagens cedidas pela Agência, sem deixar claro ao telespectador que as informações iniciais também foram obtidas pelo veículo independente.

No Twitter, Natalia Viana, cofundadora da Pública, escreveu: “como sempre o Grupo Globo usa apuração alheia e não dá o devido crédito. E a gente sempre tem a esperança que eles vão melhorar”.

Vale lembrar que a reportagem sobre as acusações de abuso sexual contra Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, também demorou a repercutir em jornais como Folha de S. Paulo, sendo até mesmo objeto de crítica da ombudsman. E quando veio, a denúncia novamente não deu créditos à Agência. Foi preciso reclamar.

Se dois dos maiores sites de jornalismo independente no Brasil são pouco creditados por suas matérias, você deve imaginar o que acontece com veículos que não têm o mesmo alcance da Pública e do Intercept.

A ausência de créditos já foi um problema para a Ponte Jornalismo em pelo menos duas ocasiões: reportagem da Folha que reaproveitou pauta sem citar o que o site já havia apurado; políticos compartilhando vídeo de fotógrafo da Ponte sem o nome do profissional. Como escreveu o editor Amauri Gonzo, a atribuição importa porque dá visibilidade ao trabalho do veículo: “para conseguirmos fazer o nosso trabalho de maneira independente, questionando a polícia e o Estado, precisamos de apoiadores, que antes de tudo, são leitores. Sem crédito, ninguém fica conhecendo a Ponte e perdemos mais uma chance de ampliar nossa cobertura”.

Na Agência Sportlight, site de jornalismo investigativo mantido pelo jornalista Lúcio de Castro, uma pauta bastante específica envolvendo disputa judicial nos Estados Unidos foi publicada dias depois em O Globo e Folha, sem qualquer menção à apuração original. Mesmo caso do trabalho feito por Ruben Berta em seu blog e repercutido sem créditos pelo RJTV. De tão incomuns, as citações são comemoradas pelos jornalistas quando existem.

Ainda vale destacar a ausência de créditos também nos veículos que não se declaram como “grande imprensa”. Caso das sucessivas denúncias feitas pelo Observatório da Mineração contra CartaCapital. Pelo menos quatro reportagens do site de jornalismo investigativo se tornaram base de matérias da revista, incluindo o uso de vídeos. Nenhum crédito ao Observatório. No Twitter, afirmam que CartaCapital “tem sistematicamente se apropriado de trabalho duro dos outros (…) lucrando com isso”.

Silêncios estratégicos

Não é de hoje que veículos jornalísticos se recusam a creditar outros sites. Na verdade, o problema ultrapassa o respeito aos colegas de profissão e esbarra até mesmo na omissão de informações que seriam relevantes ao leitor.

O jornalista Sergio Spagnuolo, fundador do Núcleo Jornalismo, lembra que não é incomum encontrar matérias sem links para estudos científicos. Ao invés disso, são mais recorrentes os links internos, que remetem ao próprio conteúdo daquele jornal e garantem mais visualizações para os veículos. O problema, como argumenta Spagnuolo, é que não deixar a origem da informação visível pode gerar desconfiança no leitor. Em tempos de jornalismo desacreditado, firmar pactos de confiança com a audiência é um gesto fundamental. Uma postura de transparência, em outras palavras.

Mas, porque não inserir um simples link no corpo da reportagem? Dificilmente podemos comprar uma justificativa meramente técnica. A primeira edição online de um jornal brasileiro surgiu há quase 30 anos. Cursos de jornalismo ensinam à exaustão a importância de explorar o potencial da web, com base em estudos acadêmicos de décadas. Daí que a problemática é, sobretudo, uma questão ética e mesmo estratégica.

É ética porque revela certa arrogância de jornalistas que não consideram necessário creditar veículos da imprensa independente. Uma atitude que parece “territorialista e diminutivo ao mesmo tempo”, como sintetiza Spagnuolo. Mas também é estratégica. Grandes jornais e revistas têm interesse em dar visibilidade aos independentes? O silenciamento sobre a concorrência, no fim das contas, parece se sobrepor ao artigo sexto, inciso nono do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que prevê o “respeito ao direito autoral e intelectual do jornalista em todas as suas formas”.

 Mídias independentes não precisam aguardar sentadas o “reconhecimento” da mídia tradicional. Podem — e devem — cobrar publicamente outros veículos quando têm seus trabalhos indevidamente apropriados, sem nenhum crédito. Na máxima da cofundadora do Fiquem Sabendo, Maria Vitória Ramos, “parceria boa é parceria com link. Quem trabalha no jornalismo independente, conhece”. 



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