Ironicamente ou não, acho que 2021 deve ser o melhor ano possível para se lançar o filme Matrix Ressurections. Não me entendam errado, por favor; não vim aqui para fazer uma análise ou uma crítica profunda sobre os três primeiros filmes, ou o trailer do quarto.

Contudo, de fato, o trailer fez-me lembrar não apenas do primeiro “Matrix” (o único que vi), mas também levou-me de volta para o fim de junho, quando os adultos pareceram se fascinar pelo linguajar “anticringe” dos jovens. Eu mesma nunca entendera o que os termos “bluepill” e “redpill” significavam no contexto da Geração Z (apesar de fazer parte dela), admito que tive que pesquisar por não conhecer pessoas que os usassem. E, claro, após entender que “bluepill” significa, basicamente, basicamente chato ou comum, e “redpill”, o oposto, absolutamente nada na minha vida mudou.

Em qual dos dois eu me encaixo? Não me importo muito. Mas, a reflexão que me deixou encucada, isso sim, importa: se aceitássemos que vivemos em uma realidade controlada, o que faríamos?

O fato é que, sim, somos meras marionetes; o que varia, conforme a visão de mundo de cada pessoa, é quem monta o espetáculo. Pode ser religião, crime, governo, trabalho, capitalismo, mídia, papeis sociais… Então, assim como um comprimido precisa de água para ser engolido, a fim de sobrevivermos a nossa realidade dura, deprimente e volátil, escapar um pouco dela é mandatório.

A depender da pessoa, qualquer um dos controladores pode ser o seu meio de escape. Para uns, a válvula é a mídia, por exemplo, para outros, a religião. Alguns permitem-se aproveitar essa fuga de forma equilibrada, calculando hermeticamente como irão abrir os olhos algumas horas depois. Outros, no entanto, ou ainda não são capazes de fazer esse cálculo ou escolhem não o fazer; optam por fugir da realidade pelo máximo de tempo possível, perdendo o controle do que está a seu redor.

Então, pergunto de novo, a mim mesma: o que fiz quando percebi os atores que controlavam os fios da minha marionete?

Para ser sincera, acho que nada. São tantos fatores atormentando minha cabeça — eu devo ser útil, bela, importante, rica, amada, admirada! — que falta energia até para me imaginar tomando uma pílula vermelha no intuito de acordar e ser capaz de mudar algo. Porém, ao mesmo tempo, por mais que eu pisque, não sou capaz de fechar permanentemente os olhos depois de abertos; a cor azul também não me apetece.

Será que podem oferecer às pessoas cansadas, contudo não cegas, um meio-termo? Será que podemos engolir a roxa?