O que é bom para o lixo é bom para a poesia.

(Matéria de Poesia, Manoel de Barros)

O que é lixo? O que é descartável para uma pessoa X será para outra Y? Existe ética no consumismo desenfreado da sociedade contemporânea? São essas algumas das perguntas suscitadas pelo documentário Os catadores e eu (2000), dirigido pela cineasta e fotógrafa belga Agnès Varda (1928 – 2019). Depois de 21 anos, as questões tocadas pelo filme, tais como o modo de produção capitalista, o desperdício, a pobreza e a vulnerabilidade humana, tornam-se cada vez mais relevantes.

Diante de uma pandemia devastadora, em parte consequência das intervenções humanas na natureza, o capitalismo – uma máquina devoradora de mundo, como dito pelo líder, ambientalista e escritor indígena Ailton Krenak – terá de ser repensado, quiçá superado. No século XXI, a própria Terra impõe restrições ao capital: é inviável sustentar a ideia de progresso contínuo se o futuro humano possivelmente inexistirá por efeito das mudanças climáticas.

Agnès Varda, no começo do filme, introduz o conceito de respigar: apanhar restos depois da colheita; o respigador, portanto, é o sujeito do verbo, é aquele que respiga. “Respigar era o espírito de antigamente”, diz uma das entrevistadas. Com a pintura As Respigadoras, do francês Jean-François Millet, o passado faz-se presente na película: as mulheres curvadas, sem rosto exposto, universais, respigam num campo verde e vasto.

As Respigadoras (1857), Jean-François Millet.

A tela de Jean-François é uma das chaves de leitura do filme: assim como Millet, Agnès Varda colocará no centro do plano a universalidade dos respigadores atuais. Eles serão encontrados no campo modificado pelas máquinas e nas grandes cidades. Serão filmados catadores de lixo miseráveis, idealistas de classe média e artistas. Entretanto, todos eles possuem um laço de comunhão: vivem à margem do sistema social hegemônico, seja por imposição das esmagadoras engrenagens do capital, seja por orientação ideológica.

Em adição, Varda filmará o lixo de alguns, o qual servirá de alimento para outros. Toneladas de batatas pequenas ou grandes demais – uma delas em um inapropriado formato de coração (impróprio para quem?) – são descartadas num campo vazio. Enquanto isso, segundo um relatório da FAO – agência das Nações Unidas para comida e agricultura –, em 2020, entre 720 e 818 milhões de seres humanos passaram fome no mundo. Vale relembrar: a fome é política; a desigualdade social é imensa.

Retornando à questão do lixo, o pesquisador brasileiro José Carlos Rodrigues sustenta, no seu livro O Corpo na História, a tese de que o conceito de lixo, assim como as sensações a ele atreladas, está submetido à historicidade, ou seja, é diferente no decorrer do tempo histórico e nas diferentes culturas humanas. O documentário de Agnès Varda expõe que, a depender da classe social, da subjetividade – em parte moldada pela condição econômica –, a concepção e a sensação acerca do lixo são diversas no mesmíssimo momento da História.

Carregadas de uma sensibilidade ímpar, as lentes de Agnès Varda são suas próprias retinas tão fatigadas. Colocando-se como narradora, condutora do espectador, extravasa a própria subjetividade, antecipada pelo título, sem se impor como protagonista do filme. Em uma cena bastante bonita, Varda passeia com o zoom da câmera pela sua mão desgastada: “(…) filmar uma mão com a outra mão. Entrar nesse horror. Acho extraordinário. Sinto ser um animal… pior, sou um animal que não conheço”, diz ela.

Talvez inexista um sujeito principal no filme, como na pintura de Millet: a proposta é respigar os marginais, romper com a lógica do “eu” – dominante no capitalismo – na busca por um “nós”. Aliás, essa é uma procura estabelecida num diálogo com a tradição, com o passado tão esquecido no emaranhado veloz da vida corrente.

Agnès Varda, no documentário, é uma dupla respigadora: tanto no sentido denotativo, porque cata diretamente materiais descartados, quanto metaforicamente, porque coleta com a câmera o que é abandonado pela sociedade capitalista. De certo modo, somos transformados por ela em respigadores: colhemos mentalmente imagens em que objetos, seres humanos e narrativas marginais se tornam centrais, em que o descartável se faz indispensável. Assim, enquanto o filme Os catadores e eu resistir, o material capturado por Agnès Varda será reaproveitado ad infinitum pelos espectadores.

Antes do desfecho, uma pergunta incontornável: até quando permitiremos que as problemáticas expostas pela cineasta respigadora sejam contemporâneas a nós?