Porque a minha geração precisa do WikiLeaks

Nasci um ano depois do atentado de onze de setembro, e um ano antes do início da guerra do Iraque. Imagino que, naquela época, os adultos conscientes jamais elaborariam o que se transformaria a geopolítica moderna: um constante estado de vigilância e terror em países de terceiro mundo. Quando eu tinha dois anos, o Facebook foi lançado — e também imagino que os adultos à época não faziam ideia que essa ferramenta destruiria as relações interpessoais modernas, alteraria processos eleitorais e resultaria na expansão da extrema-direita ao redor do mundo. Mas, quando eu tinha quatro anos, a maior ferramenta da imprensa livre no século vinte um — consequentemente, uma ferramenta que ia contra a guerra ao terror, os oligopólios tecnológicos e ao capitalismo de vigilância — foi lançada: nascia o WikiLeaks.

É difícil entender uma história quando você começa ela pelo fim. No meu caso, lembro de partes do noticiário brasileiro relatando sobre alguns vazamentos de dados e outras crises diplomáticas, mas não fazia ideia do que realmente estava acontecendo. Agora, como uma adulta — talvez ainda semi-consciente — entendo a importância de ferramentas como o WikiLeaks para a minha geração e as posteriores.

Quem tem a minha idade não teve muita escolha sobre viver no mundo da tecnologia. Note-se que falar de tecnologia, não significa necessariamente falar sobre internet, tampouco acesso a ela. Por exemplo: a Bahia, de onde me orgulho ter nascido, é um dos estados mais pobres do país, tendo quase metade da sua população total abaixo da linha da pobreza. Não só isso: 60% da população só tem acesso à internet pelo celular. Mesmo com a pobreza, a falta de acesso à internet e falta de acesso à comunicação; devido à concentração dos oligopólios de imprensa no estado e na capital, o capitalismo de vigilância — disfarçado de tecnologia — conseguiu permear nossa sociedade. O site The Intercept revelou, em setembro deste ano, que o governador Rui Costa (PT) resolveu aumentar o sistema de reconhecimento facial no estado.

Essa medida será, muito provavelmente, ‘leve’ no futuro distópico que nos resguarda. Se a população baiana não possui dos meios para entender as falhas do sistema de reconhecimento facial — como a automatização do racismo — não há forma de criticar a atuação. A reportagem jamais seria escrita sem a atuação do Intercept, uma mídia independente, por conta da concentração da mídia no estado da Bahia. Todos os maiores e importantes veículos baianos pertencem a famílias ricas, alguns ligados a políticos. Aqui, entra o WikiLeaks.

O WikiLeaks funciona como uma ferramenta de combate por parte da imprensa. A organização não escolhe alvos, tampouco inimigos, ela recebe informações e as reporta na íntegra, dando liberdade para que o público e a mídia decidam suas opiniões sobre os materiais disponibilizados. A atuação de veículos independentes, como esta revista ou o Intercept, por exemplo, é de extrema importância, mas não tem o impacto global. No fim, ninguém muda o mundo sozinho, não é?

Minha geração quer, em partes, soluções rápidas. Não porque somos impacientes, mas, porque recebemos muitos problemas das gerações anteriores para resolver. Um deles é o colapso ambiental previsto de um futuro incerto, mas existente — criado, em partes, pela negação das elites e de países de primeiro mundo sobre o impacto de tecnologias poluentes, como o petróleo, o carvão mineral ou o plástico. Isso afeta nossas decisões. Uma pesquisa feita este ano mostrou que quase metade dos jovens brasileiros exitam ter filhos diante a possibilidade de uma catástrofe climática. Enquanto ainda existem adultos ‘conscientes’ que negam a mudança climática, a possibilidade de ter um futuro foi arrancada da minha geração — e esse futuro não existe nem em nossos pensamentos.

Plataformas como o WikiLeaks ou até ativistas individuais, fazem uma certa justiça para nós. Com informações, arquivos e documentos publicados na íntegra, sem recortes ou parcialidade, cria-se a oportunidade que os jovens não caiam em contos fabricados por elites, ou oligopólios empresariais chamados de imprensa. Podemos acreditar, por fim, no que realmente existe — e por mais que a realidade não seja bonita, ela não será mais fabricada.

Falando sobre mudanças climáticas, o WikiLeaks revelou, ao expor milhares de telegramas diplomáticos dos Estados Unidos, que a China não mediu dados sobre os tipos mais perigosos de poluição do ar porque tem medo de consequências políticas. Anos antes, a organização também expôs que a BP, uma empresa britânica multinacional de petróleo e gás natural, escondeu por meses um derramamento de óleo no Azerbaijão. Outros cabos vazados mostraram que o então-presidente do Azerbaijão acusou a BP de roubar petróleo de seu país e usar “chantagem moderada” para garantir os direitos de desenvolver vastas reservas de gás na região do Mar Cáspio.

Hoje, 4 de outubro de 2021, o WikiLeaks completa quinze anos. Provavelmente nem os fundadores da organização imaginavam o futuro, agora presente, distópico que resguardava a humanidade, mas seguiram lutando. A organização não tem tanto impacto quanto antes, sobretudo porque vazamentos de informação se tornaram mais comuns, mas também pela prisão imoral de um dos co-fundadores da plataforma, Julian Assange. O jornalista se encontra, atualmente, em uma prisão de segurança máxima do Reino Unido, com a possibilidade de ser extraditado para os Estados Unidos. Mesmo com essa mudança, isso não significa que a minha (que talvez seja a sua) geração reviva o sentimento por trás do WikiLeaks.



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