Desinforme e multiplique-se

Como você pode aumentar exponencialmente seu alcance em seis meses enquanto espalha desinformação sobre a maior pandemia da história moderna? O World Doctors Alliance pode te inspirar. O grupo é somente uma vertente de uma organização ainda maior, a World Freedom Alliance, fundada no final do ano passado e associada a teorias conspiratórias, antivacinas e relacionadas com a extrema-direita. A World Doctors Alliance inclui membros proeminentes que alegaram falsamente que a Covid-19 é uma farsa e que as vacinas causam danos generalizados. Os pesquisadores descobriram que os membros “usaram suas qualificações para dar um verniz de credibilidade a alegações que se provaram falsas e muitas vezes perigosas”.

Os pesquisadores copilaram listas de contas postando em nome da World Freedom Aliance, World Doctors Alliance e seus membros em cinco plataformas mainstream, e três plataformas alternativas. No entanto, a maior quantidade de seguidores da Aliança está no Facebook, seguido do YouTube. Ambas as plataformas estão sofrendo críticas por permitirem a desinformação e publicações conspiratórias, além de terem anunciado, recentemente, políticas mais estritas em relação a conteúdos antivacina. O relatório do Institute for Strategic Dialogue (Instituto de Diálogo Estratégico, tradução livre) mostra como, desde o início da pandemia em março do ano passado, a Aliança tem estado dependente das plataformas mainstream para divulgar seu conteúdo, com mais de novecentos mil seguidores — do total de um milhão e duzentos — atribuídos a redes sociais desse tipo, como Facebook, Twitter, Instagram, YouTube e TikTok.

PlataformaAnálise de alcance
FacebookSeis páginas acumulam mais de 553 mil seguidores. Scott Jensen, médico conhecido por espalhar conteúdo antivacina, é o membro da organização com mais seguidores — mais de 394 mil e uma conta verificada.
TwitterOito perfis acumulam mais de 75 mil seguidores.
YouTubeOito contas acumulam mais de 296 mil seguidores. Todos os vídeos, somados, chegam a mais de 8,8 milhões de visualizações.
InstagramCinco contas associadas à organização acumulam mais de 20 mil seguidores.
TikTokQuatro contas têm o total de 93 seguidores e 2.865 visualizações.
Telegram Sete canais possuem mais de 188 mil seguidores.
Brand New Tube Sete contas acumulam mais de 82 mil seguidores.
OdyseeDuas contas possuem mais de 2,3 mil seguidores.
Dados retirados da pesquisa do Institute for Strategic Dialogue e traduzidos para o Português.

O instituto também tentou identificar, através do idioma, qual era o grupo alvo de cada postagem. Uma análise das cinquenta postagens mais populares em Inglês, Espanhol, Árabe e Alemão indicou que uma parcela considerável contém falas que entram na categoria de desinformação. Enquanto mais de setenta porcento das publicações em Inglês, Espanhol e Árabe continham discursos perigosos, a proporção em Alemão era muito menor: apenas quarenta e oito porcento.

As publicações consideradas problemáticas, pelo instituto, nas quatro línguas, acumulam quase um milhão em engajamento — entre curtidas, compartilhamentos, comentários e reações — e os vídeos publicados foram visualizados mais de vinte e três milhões de vezes. Vídeos com entrevistas de membros da organização em Inglês sempre apresentam legendas para atingir um público internacional ou encontram-se formas de publicar somente partes ‘essenciais’ em outros idiomas.

As principais narrativas do grupo são conspiratórias por natureza — e muitas delas fazem a implicação ‘geral’ de que há um ‘grande plano’ envolvendo governos internacionais, a imprensa e empresas do ramo da saúde. Esse tipo de desinformação foi divulgado em todas as quatro línguas. Os pesquisadores afirmam que “esses tipos de narrativas complementam uma desinformação mais específica, fornecendo um mecanismo de justificação para explicar porque governos, imprensa e autoridades de saúde estão empurrando medidas sanitárias”. Esse tipo de teoria conspiratória é mais perigosa do que qualquer outra: não só por desinformar os grupos expostos a esse tipo de conteúdo, mas, porque cria uma sensação de pertencimento e de comunidade aos que adotam essa categoria de conspiração. Um sentimento de que você faz parte de um grupo lutando pela liberdade e contra inimigos poderosos, apelando, por fim, ao vitimismo.

Um dos exemplos citados por pesquisadores é a alegação de que testes PCR produzem um alto número de falso positivos. A explicação criada pelo grupo é que existe um plano para ‘inflar o número de casos e manter a população em um estado de medo constante’. De forma semelhante, o eles alegam que autoridades de saúde ao redor do mundo estão ‘ignorando’ curas e tratamentos por a pandemia ser planejada pelas grandes empresas do meio da saúde. Essas narrativas criam um sentimento de desconfiança em relação a autoridades e profissionais, além de apelar e fortificar o sentimento de pertencimento entre os membros de tais comunidades.

As principais cinco teorias da conspiração em cada idioma, conforme a pesquisa:

InglêsEspanholÁrabe Alemão
Hidroxicloroquina, vitamina C e zinco podem curar a Covid-19.Máscaras não são necessárias e/ou são perigosas.O coronavírus não é mais perigoso que uma gripe normal.Testes PCR não funcionam.
As mortes por coronavírus são infladas ou incorretas.A pandemia não existe.A pandemia não existe.Comparações entre a pandemia e o nazismo.
A pandemia não existe.Lockdowns não são necessários e/ou estão matando mais pessoas.Hidroxicloroquina, vitamina C e zinco podem curar a Covid-19.A pandemia não existe.
A Covid-19 é uma doença de estações.Hidroxicloroquina, vitamina C e zinco podem curar a Covid-19.A imprensa faz parte do plano e está mentindo para você.Vacinas de mRNA causarão muitas mortes ao longo dos anos.
A imprensa faz parte do plano e está mentindo para você.A vacina da gripe contém coronavírus.O coronavírus está sendo usado para matar os idosos. O coronavírus é menos perigoso do que você acha.
Tabela com as principais desinformações em cada idioma. Nota: as frases acima são desinformações e não condizem com a realidade por trás da pandemia. Cheque as normas indicadas por sua autoridade de saúde local.

Da mesma maneira que o maior volume de conteúdo relacionado ao World Doctors Alliance está em Inglês, Espanhol ou Alemão, nessa ordem, tais idiomas também estão no topo dos quatro principais em que se fazem checagem de fatos nos artigos da Aliança. Como notam os pesquisadores, também há uma aparente lacuna de checagem em postagens com idiomas menos ‘comuns’. Por exemplo, mais de cinco mil e quinhentas publicações envolvendo a Aliança foram encontrados em Romeno, Húngaro, Sueco e Italiano, mas nenhum artigo de checagem foi feito sobre as postagens nesses idiomas.

A checagem de conteúdo fora da Língua Inglesa é um problema sério. Estudos durante as últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos mostraram que a desinformação política se espalhou mais amplamente e persistiu por mais tempo quando foi compartilhada em Espanhol em vez de em Inglês. O Espanhol é a terceira língua mais falada no mundo, o que torna preocupante que algumas comunidades estejam menos protegidas de informações prejudiciais apenas por causa do idioma que falam. Os conteúdos conspiratórios envolvendo a extrema-direita norte-americana não permanecem selados no primeiro mundo, eles são exportados para a América Latina.

O Facebook é a única plataforma que permitiu que o World Doctors Alliance dobrasse seu alcance em seis meses — logo, nada mais justo que abordar seu procedimento na checagem de conteúdo além do Inglês. Para realizar a checagem de milhares de postagens em um tempo curto, a plataforma apoia-se em ferramentas de moderação não humanas, ou inteligências artificiais, para conteúdos em Espanhol — já para conteúdos em Inglês, a moderação é feita manualmente. Um estudo da Avaaz, uma organização sem fins lucrativos de Direitos Humanos, aponta que, enquanto 70% da desinformação escrita na Língua Inglesa acaba sinalizada com rótulos de advertência ou conteúdo enganoso no Facebook, apenas 30% da desinformação em Espanhol é sinalizada. A mesma pesquisa também aponta a falta de checagem de conteúdo em Italiano e em Português.

Dados da pesquisa também apontam que, entre janeiro do ano passado e julho deste ano, a Aliança passou de três mil e quatrocentos seguidores para mais de quatrocentos mil. O aumento foi impulsionado, principalmente, pelos dois membros mais proeminentes do grupo: Dra. Dolores Cahill, ex-professora da University College Dublin, e Dr. Scott Jensen, ex-senador estadual de Minnesota. Além disso, boa parte das páginas de membros da organização foram criadas após o início da pandemia — somente dois membros tinham contas oficiais ligadas ao movimento antes de janeiro do ano passado.

Aoife Gallagher, pesquisador do Institute for Strategic Dialogue, disse em entrevista para o jornal britânico The Guardian: “A abordagem de checar o conteúdo de uma postagem por vez funciona essencialmente como um gesso em uma ferida que jorra. Muitos dos influenciadores na Covid e nos espaços de desinformação de vacinas produzem grandes quantidades de conteúdo, impossibilitando para os verificadores de fatos acompanharem os esforços de desmascaramento”. Após a condução da pesquisa, o instituto apelou ao Facebook para tomar medidas mais firmes contra os “superpropagadores de desinformação”, para aumentar os recursos dedicados à moderação e checagem de fatos em outros idiomas além do Inglês e para melhorar a tecnologia de inteligência artificial a fim de auxiliar na moderação.



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