Onde está o futuro prometido aos jovens?

Aos 22 anos, tenho pouco distanciamento do fim da minha infância e início da adolescência. Lembro-me bem do mundo em que vivia na virada da década de 2000 para a de 2010, período histórico que, aliado à inocência da infância, me fazia ter uma visão bastante utópica sobre as coisas: minha família foi melhorando de vida com o passar do tempo, assim como as pessoas ao meu redor. Com isso, eu acreditava que era só questão do passar dos anos para que, mesmo os mais pobres, ascendessem e conseguissem viver uma boa vida, afinal, era essa a realidade que eu presenciava.

Na adolescência, fui entendendo melhor as coisas. Durante a primeira grande crise que vivenciei, naquele conturbado momento que o país passou entre 2014-2016, levei a primeira porrada da vida. Vi muito progresso indo por água abaixo. Mas como isso era possível? É claro que, aos 16-17 anos, sabia que o progresso não era uma constante e que dependia de incontáveis fatores, mas não estava preparado para o que aconteceria comigo. Tudo parecia tão sólido, meus pais trabalhavam desde sempre, nunca havia presenciado o desemprego ou a dificuldade financeira.

Não cheguei perto de ser rico, mas dentro do possível, tinha o que queria. As coisas mais caras levavam algum tempo, mas eram alcançadas. Às vezes, esperava o natal ou o meu próximo aniversário para ganhar um novo videogame ou a chegada do verão para as viagens anuais à praia — moro a mais de 500 km do litoral — e aproveitara muito até aquele momento. Foi um choque, aos 17 anos, entender que aquilo não era mais real. O desemprego chegou a minha porta e entrou sem bater. Meu pai, que em todo esse período teve a maior renda da casa, perdeu o emprego da noite para o dia, com a empresa fechando suas portas no Brasil. Minha mãe ganhava menos, e menos ainda no momento da crise, afinal, trabalhava — e trabalha até hoje — no comércio.

Nunca me esqueci da tristeza nos olhos dela quando me disse que não poderia pagar minha festa de formatura ao final daquele ano e me contou a real situação das finanças da família, da qual eu não tinha consciência naquele momento. Eu não sabia o que fazer. Não era assim que eu esperava que as coisas fossem. O que eu me lembrava dos tempos de infância era meu pai dizendo que, aos 18 anos, me daria um carro. Pensava qual carro seria. Eram muitas opções, que, ao fim, não foram.

A faculdade particular que cogitava e aquele desejo de fazer um intercâmbio no exterior foram totalmente excluídos de minha lista de planos. Na última semana do ensino médio, consegui um emprego, alguns dias depois, veio o resultado do vestibular. Passei. A educação ainda era vista por mim como o caminho. Foi isso que meus pais me disseram a vida toda: que eu poderia estudar, mais do que eles estudaram, e, assim, teria condições ainda melhores do que as que eles poderiam me oferecer mesmo nos melhores momentos.

Mesmo numa realidade diferente, segui à risca o plano. Trabalhei das 8h às 18h, estudei das 19h às 22h. Chegava em casa, dormia e no outro dia bem cedo começava de novo. Guardava quase todo o dinheiro que ganhava, também sempre ouvi que economizar, junto com os estudos, era a melhor forma de ter um bom futuro, mas uma hora não aguentei. Aos 18 anos, era um zumbi. Da casa para o trabalho, do trabalho para a faculdade, da faculdade para casa. De segunda à sexta. Aos sábados, trabalhava também. As coisas estavam melhores em casa, não havia mais o desemprego, mas estávamos muito longe da fartura de tempos anteriores. Com o dinheiro que ganhei, decidi sair do trabalho em busca de um estágio. Demorou um pouco, mas chegou quase que pontualmente: quando consegui a vaga, meu dinheiro já estava acabando.

“Talvez os tempos difíceis tenham sido só um hiato”, pensava. “Há um futuro melhor, há esperança de que novamente haja algum progresso, afinal, porque não seria assim?”. Vi o sucateamento da universidade, a falta de bolsas de pesquisa, a diminuição do quadro de professores sem as reposições necessárias, acúmulo de funções, improvisações, greves e mais greves por falta de reajustes salariais, de investimentos no espaço e na educação como um todo. Faltavam até mesmo os funcionários para a limpeza do campus. Mas ia melhorar, eu sabia que ia. O ano era 2018.

Passar por aquelas eleições não poderia ter sido mais frustrante. Descobri, nas pessoas, um lado que não conhecia. Apesar de a violência ser próxima, o ódio sempre foi-me distante. Não foi aquilo que eu imaginei que seria, definitivamente não foi.

Vi, pouco a pouco, o que era ruim piorar; a ignorância, a estupidez, a violência eram pela primeira vez, um projeto. O único projeto. Dentro da universidade, de certa forma, senti medo do futuro pela primeira. Por que as pessoas estavam acreditando naquilo?

Foi pior do que eu esperava. O desmonte de tudo que havia sido construído foi gradual, as soluções foram substituídas pela destruição. A lógica do momento era que, em uma parede com uma pequena rachadura — cuja solução eu sempre enxergara como o conserto —, eles viam a saída como a demolição não só da parede, mas da casa toda. Era aquela expressão: estavam jogando o bebê fora junto com a água do banho. A pandemia da Covid-19 configurou-se, então, como a confirmação de toda a incompetência, despreparo, prepotência e, o pior, da pura e simples maldade dos que sentam nas cadeiras do poder, que lá foram postos democraticamente.

Ainda dá para superar? Hoje, ler a notícia de que a OCDE considera que o padrão de vida do Brasil deve ficar estagnado nos próximos 40 anos, foi como um soco no estômago. Por que fizeram isso conosco? Não foi esse mundo que me prometeram dez anos atrás. Não era isso que eu queria. Por que fizeram isso conosco? O que podemos fazer para superar esse ciclo de desgraças, que se instaurou no país que haviam nos prometido tanto?

Nas últimas décadas, acreditou-se que a democracia havia se consolidado no país e a via institucional era vista como o caminho possível para a resolução de nossos conflitos que se perpetuam na história. Porém o que levara décadas para ser construído, em apenas alguns anos, foi corroído a níveis mais do que preocupantes. A política está infantilizada e o desrespeito às leis, aos Direitos Humanos e aos preceitos básicos da construção de uma nação próspera foram deixados de lado. Hoje, os ‘poderosos’ orgulham-se de ter nos tornado párias e, na oposição, os projetos de poder pessoal são postos acima da principal necessidade do país: tirar a caquistocracia que tomou conta do poder público dos postos que ocupam. É difícil a falta de perspectiva no coletivo.



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