A quem interessa a banalização da linguagem neutra?

Na faculdade de Letras, uma das primeiras coisas que descobrimos é que a língua é um organismo: vivo, pulsante e sua transformação é inevitável. Por que, então, vemos até profissionais da linguística desmerecendo os assuntos referentes ao uso da linguagem neutra? A primeira pergunta que eu faço é: quem é você para questionar a necessidade do uso do pronome neutro? Se você leu com tom de agressividade, a intenção não foi essa! É uma pergunta literal mesmo: quem é você, em sociedade, para criticar ou abraçar a linguagem neutra? A sua posição nessa estrutura social vai dizer muito do porquê dos seus posicionamentos perante isso. 

Não é de hoje que a língua passa por mudanças, basta pensarmos na evolução de alguns vocábulos. Um exemplo é o “você”, que, antes, era mais conhecido como “vossa mercê”, “vossemecê”, depois, “você” e, hoje, encontramos até no formato “vc”. Não irei me aprofundar na questão ideológica do termo, mas acho que, pensando um pouco, conseguimos notar como o “vossa mercê” nos relembra a subalternidade do discurso ao redor dos vocábulos. Lembre-se de algumas novelas e de quem eram as pessoas que tinham que usar esse termo.

O pronome de gênero neutro foi criado por Pri Bertucci e Andrea Zanella em 2014, objetivando tornar a Língua Portuguesa mais inclusiva. Muitos ainda se recusam a aderir à linguagem neutra, seja por alegar ser uma motivação elitista seja por toma-la como uma discussão desnecessária perante outros problemas, tratando do assunto com banalidade.

No entanto, vou contar a vocês: dá para falar sobre tudo e está tudo junto e misturado. Pensar uma coisa não exclui outra. Pensar uma coisa, inclusive, nos leva a pensar também nessa outra; pode não ser tão emergencial quanto outras questões, mas por que não refletir sobre isso? Ou vocês acham que, há muitos anos, não soaria utópico querer tratar de direito das mulheres ou do fim da escravidão?

Estamos tão imersos no binarismo e na imposição de gênero masculino que não nos parece haver outra alternativa, mas vejam: existe! Essas pessoas que não se enquadram nos esteriótipos do masculino e do feminino sofrem a cada vez que precisam se enquandrar em duas caixinhas que ignoram completamente suas existências, ou vocês acham que só existem pessoas ricas quando se trata de transexuais, travestis, não-binárias, intersexo e outros mais? Um estudo da Scientific Reports aponta, ainda, que três milhões de pessoas no Brasil se identificam como transgêneras ou não-binárias.

Ao escrever, falar e nos comunicarmos em geral, não usamos simplesmente códigos linguísticos; mais do que isso, temos termos ideológicos. A respeito disso, Lera Boroditsky, professora de ciências cognitivas da Universidade da Califórnia, diz: “Mesmo o que pode ser considerado aspectos simplórios da linguagem pode ter efeitos subconscientes de longo alcance sobre como vemos o mundo”. Ainda sobre isso,  o filósofo e linguista Mikhail Bakhtin afirma: “Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo.”

É preciso pautar a existência do sexismo linguístico pois esse “todos” privilegia o homem como base estrutural de tudo e isso tem ocupado todes cantos, mercados de trabalho e esferas sociais; por que não se apossará, também, da nossa língua? O papel social da língua é reflexo dos papéis na sociedade; logo, como não estariam presentes nela estereótipos de gênero e exclusão? 

Outro ponto a ser tocado é o de que, embora não se veja, ainda, a existência de algum projeto para a inclusão da linguagem neutra nas escolas, já existem centenas de cláusulas desnecessárias contra o seu uso sancionadas pela direita que, como de costume, se apavora com tudo o que fuja da norma. Ela já grita aos quatro cantos pela proibição.

“damos nome ao ‘novo’ para que

ile tenha um lugar legítimo em nossa realidade

ile carrega a ultrapassagem do binário

não é só neutro, é político

não é fechado, é expansiiiivo

ile traz uma estranheza

que questiona os conceitos definidos

que muitas vezes não definem (…)

ile abre um caminho vocal

pra que o pensamento compreenda mais nuances

para que a inclusão não seja só nos bastidores

para que o discurso possa ser ouvido por todes

para que a realidade se transforme

e que ela se remolde para abarcar

todas as possibilidades do humano”

“Ile”, em ”Manifesto ile para uma comunicação radicalmente inclusiva”

Ademais, não se pede uma mudança de tratamento para com os objetos (como “a mesa” ou “o computador”) nem se estão pedindo a abolição de gêneros, mas sim um adicional que seja, de fato, uma representatividade para as pessoas não binárias. Quando se nega o tratamento de uma pessoa pelo gênero com que ela se identifica, ocorre uma violência contra essa existência.


Nota do editor: a pesquisa que afirma que o Brasil possui cerca de três milhões de indivíduos com gêneros diversos foi feita por uma instituição privada. Cabe ressaltar que o Censo, pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estátistica (IBGE) de modo a extrair informações sobre a demografia do país, não contabiliza a população LGBT.



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