A Embaixada do Equador em Londres passou de ser um prédio monótono, segundo funcionários, para o centro de um processo internacional envolvendo governos, agências de inteligência e empresas privadas contra um jornalista. Essa mudança começou quando Julian Assange, disfarçado de motoboy, chegou ao local para pedir asilo político por conta de ameaças crescentes diante seu trabalho. Nos sete anos seguintes, o jornalista não colocou o pé fora da Embaixada, mas conseguiu se tornar uma grande influência digital para jornalistas, ativistas e políticos, mantendo a maior ferramenta da imprensa moderna: o WikiLeaks. Mas no exato momento desta publicação, ele está participando de uma audiência de apelação envolvendo uma possível extradição para os Estados Unidos — onde, se julgado e condenado, poderá receber a sentença de até cento e setenta e cinco anos de prisão.

No primeiro dia de audiência, vinte e sete de outubro, a promotoria que representa os Estados Unidos afirmou que o jornalista poderia cumprir sua sentença na Austrália, seu país natal, caso fosse extraditado, julgado e sentenciado nos Estados Unidos. A afirmação, seguida de diversas críticas a juíza de primeira instância que bloqueou a extradição em janeiro por conta das condições perigosas das prisões norte-americanas, deveria causar comoção e revolta na imprensa mundial.

Mesmo já tendo cumprido sua sentença inicial na prisão de Belmarsh, que envolvia não comparecer a um depoimento policial, ele continua preso no Reino Unido — enquanto poderia ser liberado em fiança. Enquanto seu plano na Embaixada seria viajar do Reino Unido para a América do Sul, destino frequente de denunciantes e jornalistas perseguidos por governos de primeiro-mundo, os Estados Unidos pressionaram o Equador, tanto economicamente, quanto politicamente, para que o jornalista fosse expulso do local. Como um homem sem país, Julian Assange teve uma das maiores liberdades do ser humano — a de simplesmente ir e vir — renegada, cassada.

Semana passada, o presidente democrata falou que muitos norte-americanos estão se sentindo “deprimidos” por causa da pandemia e ansiosos sobre o futuro, pedindo àqueles que lutam com problemas de saúde mental que procurem ajuda se precisarem. Hoje, seu Departamento de Justiça dá continuidade as acusações imorais impostas, inicialmente, pela administração republicana — indo de encontro com a antiga administração Obama, a mais afetada por todos os vazamentos, mas que se recusou a prestar queixas por considerar como um ataque a liberdade de imprensa, abrindo precedentes para outros casos no mundo. A promotoria apela no único argumento da defesa aceito no tribunal: a saúde mental do jornalista. Assange foi enviado para uma unidade de saúde prisional poucos meses após ser preso, após compartilhar seus pensamentos suicidas para um guarda de Belmarsh. Ele também deu um testemunho ao tribunal afirmando que ficou em “confinamento solitário” enquanto estava na Embaixada, entre outras falas que indicam claramente a deterioração de sua sanidade mental em consequência das condições inumanas impostas em sua vida por autoridades britânicas.

O promotor britânico representando os Estados Unidos, James Lewis, questionou a integridade da decisão da juíza de primeira instância que impediu a extradição do jornalista em janeiro. Ele questionou a integridade de Michael Kopelman, psiquiatra renomado que avaliou o jornalista por meses e eventualmente o diagnosticou como um paciente com alto risco de suicídio, e disse que a juíza de primeira instância errou ao ouvir Kopelman, ao invés de um psiquiatra escolhido pelos Estados Unidos — dando a entender que a juíza teria sido parcial. A visão deturpada do promotor revela, infelizmente, mais um caso a irracionalidade cega autoridades norte-americanas em casos contra denunciantes ou jornalistas. Baraitser afirmou, em janeiro, concordar com todos os pontos da acusação envolvendo a ‘integridade’ do caráter de Assange, suas motivações políticas ou interesses pessoais. O que foi impossível, já que evidências médicas são evidências cientificas e pontuais, para a magistrada, foi negar o depoimento de um médico em um banco de testemunha.

A posição da promotoria revela um lado da justiça norte-americana que não é republicano ou democrata. É vingativo. Questionar o depoimento de um médico sobre um paciente que apresenta até sintomas psicossomáticos, evidente transformação física diante o agravamento dos transtornos, é a posição mais triste que uma acusação poderia ter. Seria como questionar para um paciente de quimioterapia se sua doença é legitima, e impedi-lo de ter acesso à medicação porque você acredita que ele finge seus sintomas e diagnóstico. Saúde mental e transtornos mentais, sobretudo quando falamos de indivíduos encarcerados, não deveria ser um problema que políticos somente devem usar em campanhas eleitorais.

Além disso, é crucial questionar o papel do Departamento de Justiça dos Estados Unidos na deterioração do estado mental de Assange. Para justificar o questionamento de evidências médicas e o testemunho de um médico legítimo, a acusação se baseia na suposta omissão do psiquiatra sobre o relacionamento do jornalista com sua advogada e noiva, Stella Moris. Para a promotoria, se a juíza de primeira instância soubesse que essa omissão ocorreu, ela teria aceitado a extradição. Mas ela sabia. Não só sabia, como escreveu em sua decisão em janeiro que considerou a omissão aceitável, já que o psiquiatra afirmou que protegeu essa informação por conta da privacidade do casal e dos potenciais riscos que a advogada enfrentaria. Hoje, Stella Moris afirma que tem medo de ser assassinada por agências de inteligência estrangeiras, além de relatar casos de perseguição e ameaças.

O Departamento de Justiça democrata está sendo tudo o que afirma não ser, e tudo que a administração republicana era. Além de questionarem evidências médicas e a integridade de uma magistrada, a promotoria também colocou em descrédito um relatório produzido pelas Nações Unidas envolvendo o caso. Mais especificamente, um documento produzido por Nils Melzer, relator especial envolvendo tortura e crimes contra os direitos humanos, reafirmando a condição psiquiátrica do jornalista, além de revelar que ele sofria torturas psicológicas na prisão de Belmarsh. Além do relatório, um painel especial das Nações Unidas afirmou, em 2016, que a detenção de Julian Assange era arbitrária. Quando o assunto é manter a suposta imagem de liderança dos Estados Unidos e encobrir corrupção e crimes de guerra em nações do terceiro mundo, há bipartidarismo.

Não há desfecho feliz nessa história, somente um homem sem pátria, uma comunidade jornalística devastada e desmotivada, e crimes de guerra sendo encobertos. Durante este último dia de audiência, o que é possível é esperar que a decisão não resulte na abertura de um precedente nunca visto na história — e sonhar que, jornalistas do futuro não sofram com a decisão, caso seja tomada de forma incorreta. Liberdade para Julian Assange, já!