O Segundo Rosto (1966) é um filme estadunidense de suspense/ficção científica dirigido por John Frankenheimer. Nele, o espectador acompanha Arthur Hamilton (John Randolph), um banqueiro de classe média, casado e bem-sucedido. O casal tem uma filha residindo no Oeste — para onde foi encaminhada a fim de, assim como os próprios pais, viver o sonho americano.

E o que é o sonho americano? É uma imagem, um ideal. É aproveitar a pureza da infância em uma família bem-estruturada. É ser um jovem extrovertido, festeiro e alegre. É estudar nas melhores universidades. É ter um emprego estável, rentável, uma casa com carros na garagem. É casar-se para gerar filhos, encaminhando-os a um futuro quase idêntico, porém melhor. A felicidade, o sucesso, o mérito e a crença de que cada geração prosperará mais em comparação à anterior — são alguns dos pilares do American Dream. Inexiste espaço para fracasso, infelicidade e incompletude.

Arthur Hamilton conquistou o troféu, completou item por item do American Way of Life — o único modo de viver, segundo as propagandas. Com uma idade avançada, sentia-se, provavelmente sem consciência do porquê, incompleto e infeliz. A vida (ou morte?) sexual com a esposa inexistia, os vários significantes materiais desprovidos de significado e o vazio de sentido existencial preenchiam cada átomo do corpo velho.

O primeiro rosto de Arthur.

Como um Sísifo infeliz, Arthur trabalhava em um banco sob uma rotina repetitiva. Eis que o estranho, o inesperado, interrompe a penitência do banqueiro. Nos minutos iniciais do filme, a câmera invade o rosto de Hamilton depois de receber um bilhete de um desconhecido com um endereço misterioso escrito. O medo de Arthur transborda pelas gotas de suor, pelo tamborilar incessante de dedos, pelo desconcertante olhar perdido: apenas a curiosidade, a atração pelo Mistério, é capaz de superar o terror.

Convidado por um amigo dado como morto, Arthur chega a uma empresa que oferta a ele uma nova vida, o renascimento. Coagido a aceitar a proposta, porque é mais fácil seguir adiante quando o retorno é uma impossibilidade, assina o contrato com um empresário pagando uma alta quantia em dólares. Compra uma segunda existência. Para renascer é preciso morrer, pelo menos nos registros mundanos: os competentes funcionários da companhia se encarregam dos devidos procedimentos.

O segundo rosto.

Arthur Hamilton, por intermédio de uma intervenção cirúrgica agressiva, renasce como “Tony” Wilson (interpretado por Rock Hudson) — um galã mais jovem e pintor renomado. Antes de um renascimento existencial, é um renascer estético. O segundo rosto é uma oportunidade de viver diferente, de se libertar do trabalho, da família, de perseguir os próprios interesses (quais?) isento de responsabilidade. “É o sonho de qualquer americano de meia-idade”, dizem a ele.

Assim sendo, na segunda metade do filme, Wilson irá atrás do prazer. Encontra uma mulher mais nova, sensual, com a qual festeja em um ritual dionisíaco de nudez, música, dança, embriaguez e êxtase coletivo. Um protestante defronte a um ambiente pagão. O vinho da festividade evoca o símbolo potente do sangue: signo da maturidade sexual feminina, da fertilidade, da hereditariedade, da morte e do renascimento A acompanhante de Tony, extasiada pelo espírito de Baco, brada em uma afirmação trágica: “Eu vim aqui para sentir, ser… Eu estou morrendo, e esse é o mundo… todo o mundo sangrando!”

Contudo, no Ocidente contemporâneo, herdeiro da cultura greco-romana, a velhice e a morte perderam lugar de prestígio na simbologia corrente. Talvez Arthur Hamilton aceite renascer porque ser velho, estar na iminência do morrer, seja insuportável em um contexto sócio-histórico em que saúde e juventude são propagandeadas como a totalidade da existência humana. Algumas das ciências atuais pretendem reverter o envelhecimento; se possível, matar a morte. Com a engenharia genética, quiçá o homem criará bebês com as características mais desejáveis para ele. E para qualquer mal, existe um remédio esperando na esquina.

Retornando à narrativa fílmica, apesar da mudança imagética exterior, dos prazeres, Arthur-Wilson permanece infeliz. A segunda existência é tão castrada quanto a primeira: permanece quebrada num devir incessante. Tony, no intuito de compreender a si próprio, empreende uma jornada para conhecer Hamilton, o Outro residente dentro dele. Retorna à casa na qual a ex-mulher ainda mora, tentando descobrir quem é ele a partir do dizer dela. As dúvidas existenciais por ele vivenciadas são por ela apenas ditas, jamais respondidas: o que ele queria, qual era o desejo?

Encarando o espelho da residência antiga, Tony vê os dois rostos simultaneamente; os duplos se confrontam: nenhum deles se compreende. O vidro reflete apenas aparências, nenhuma resposta definitiva. Os olhos exaustos dele dizem quietos: “Você sabe quem é você?”. E o espelho diz silêncio, diz o indizível sem dizer. E agora, Wilson?

O (des)encontro dos dois rostos.

Arrependido, Tony quer reverter a operação estético-existencial. Contudo, o que está feito está feito: as cláusulas do Diabo são incontornáveis. Desesperado, acredita ser possível seguir um sonho autêntico em uma terceira existência. E que sonho? Ninguém sabe, nem Wilson. A vida é vista por ele como mais um produto industrial – comprável e, quando considerada obsoleta, descartável. Num desfecho triste, é morto numa sala de cirurgia pelos médicos responsáveis pelo renascimento anterior. A empresa, desprovida de qualquer ética senão o éthos do lucro, servirá o corpo bonito a outro burguês insatisfeito.

O Segundo Rosto suscita muitas questões, sendo uma delas acerca do poder das imagens, dos ideais. Ambos conformam a diferença à identidade, são potencialmente totalitários, aprisionadores, redutores. A vida, às escuras, desenrola-se sem nenhum compromisso com o imaginário; o real é livre, caótico, fraturado, irredutível a representações humanas. O protagonista Arthur-Wilson, seguindo a existência imposta pelo discurso alheio, pelo outro, carregando a pedra montanha acima dia após dia, conquistou a miséria existencial. E quantos Sísifos infelizes estão se arrastando por aí?

Existirá algum caminho de vida alternativo, mais feliz? Possivelmente exista para cada um: a potência simbólica do Homo Sapiens é inesgotável. E vivemos em um enorme símbolo, o imenso mundo: seu significado oculto, caso haja algum, é inalcançável. Entretanto, somos animais capazes de elaborar sentido a partir de um real indiferente à existência, de inventar a vida. Apesar dos perigos sugeridos anteriormente, as imagens (tal como os ideais) resguardam um poder imprescindível: a força de mover o ser. São mais poderosas, mais prazerosas, na medida que estejam em conformidade com a unicidade existencial de cada um. Somente um ideal para a maioria conduz ao mal-estar, porque nenhuma subjetividade é igual a outra: somos resultado dum emaranhado de probabilidades tão improváveis quanto irrepetíveis.

Portanto, resta a cada pessoa encarar o único rosto no espelho, capaz de incontáveis metamorfoses, aceitar a incompletude inerente à espécie e criar significados-motores autorais a partir do contato interminável com o Outro interior — o inconsciente —, e com o outro exterior — a sociedade humana, em que os diferentes nascem, crescem, morrem e renascem.