O monitoramento na guerra


Reconhecimento facial está sendo utilizado por militares israelenses para rastrear e deter palestinos. Até quando?


Militares israelenses têm conduzido um enorme esforço para perpetuar a vigilância na Cisjordânia ocupada com o objetivo de aumentar a vigilância da população palestina. O exército integrou a tecnologia de reconhecimento facial a uma rede crescente de câmeras e smartphones para ampliar a tática de monitoramento. Não é novidade que israelenses utilizam tecnologias abusivas para monitorar ‘inimigos’, mas a nova informação vem de uma denúncia de soldados israelense, trazendo ainda mais conhecimento para a população.

A nova iniciativa de vigilância foi lançada dois anos atrás e envolve, em parte, uma tecnologia de smartphone chamada Blue Wolf, que capta fotos de rostos de palestinos e as associa a um banco de dados de imagens tão extenso que um ex-soldado descreveu como o segredo do exército “Facebook para os palestinos”. O aplicativo pisca em cores diferentes para alertar soldados caso uma pessoa seja detida, presa ou deixada sozinha. Para construir o banco de dados usado pela Blue Wolf, soldados competiram no ano passado fotografando palestinos, incluindo crianças e idosos, com prêmios para o maior número de fotos coletadas por cada unidade. O número total de pessoas fotografadas não é claro, mas, no mínimo, chegou aos milhares.

Além do Blue Wolf, os militares israelenses instalaram câmeras de varredura facial na cidade dividida de Hebron para ajudar os soldados nos postos de controle a identificar os palestinos antes mesmo de apresentarem sua identidade. Uma rede mais ampla de câmeras de circuito fechado de televisão, “Hebron Smart City” ou Cidade Inteligente de Hebron em tradução livre, fornece monitoramento em tempo real da população da cidade e, disse um ex-soldado, às vezes pode ver o interior de propriedades privadas.  O uso de vigilância e reconhecimento facial por Israel parece estar entre as implementações mais elaboradas dessa tecnologia por um país que busca controlar uma população sujeita, de acordo com especialistas da organização digital de direitos civis AccessNow.

A nova revelação é somente mais um ponto trágico na antiga linha do tempo de ataques cibernéticos e violações de privacidade de palestinos conduzidas pelo exército israelense. Segundo a imprensa internacional, ativistas palestinos foram hackeados com o spyware Pegasus, um programa de potencial destrutivo capaz de copiar todos os arquivos de um dispositivo, ativar e desativar câmeras e microfones sem sua permissão, além de monitorar todos os passos do usuário. Seis ativistas palestinos que atuam na causa dos direitos humanos — alguns que foram acusados por Israel de participarem de organizações terroristas. Uma investigação da Front Line Defenders (FLD), um grupo de direitos humanos com sede em Dublin, descobriu a invasão. 

Segundo os ex-militares denunciantes, eles disseram que foram informados pelos militares que os esforços eram um poderoso aumento de sua capacidade de defender Israel contra terroristas. Mas o programa também demonstra como as tecnologias de vigilância já estão sendo usadas nos bastidores em lugares onde marginalizados ou afetados por conflitos militares. “Eu não me sentiria confortável se eles usassem no shopping em [minha cidade], vamos colocar dessa forma”, disse um soldado israelense recentemente dispensado que serviu em uma unidade de inteligência. “As pessoas se preocupam com as impressões digitais, mas isso acontece várias vezes.” 

Em Israel, uma proposta de policiais para introduzir câmeras de reconhecimento facial em espaços públicos atraiu oposição substancial, e a agência governamental encarregada de proteger a privacidade se manifestou contra a proposta.  Mas Israel aplica padrões diferentes nos territórios ocupados. Enquanto a Europa está construindo e debatendo legislações contra tecnologias opressivas e destrutivas, como o reconhecimento facial, a situação descrita pelos ex-oficiais mostra uma violação dos direitos básicos, incluindo o direito à privacidade, já que soldados israelenses estão sendo incentivados a coletar dados (imagens) da maior quantidade de palestinos que conseguirem, como se a violação de privacidade de populações marginalizadas pela guerra fossem uma competição. 

O pior das tecnologias de vigilância, ou que tem esse potencial, é que a acomodação faz parte do processo. Da mesma maneira que você pode ter se acostumado a ter uma ‘assistente virtual’ em sua casa, como uma Alexa, mesmo que ela grave todas as suas conversas enquanto está ligada e seus registros são entregues — e lidos — por funcionários humanos, você pode se acostumar com tecnologias de reconhecimento facial. Yaser Abu Markhyah, um palestino de quarenta e nove anos e pai de quatro filhos, relatou que sua família vive na cidade de Hebron há cinco décadas e acabou aprendendo a lidar com postos de controle, restrições de movimento e violações de privacidade desde que Israel tomou controle da cidade, no fim da década de sessenta.

Hebron sempre foi um foco de violência, com um enclave de colonos israelenses de linha dura e fortemente protegidos perto da Cidade Velha, cercados por centenas de milhares de palestinos e a segurança dividida entre os militares israelenses e a administração palestina. Mesmo assim, ele nota que o excesso da vigilância saqueia as pessoas dos últimos vestígios de privacidade. “Não nos sentimos mais confortáveis ​​socializando porque as câmeras estão sempre nos filmando”, disse Abu Markhyah. Ele disse que não permite mais que seus filhos brinquem do lado de fora, na frente de casa, e parentes morando em bairros menos monitorados evitam visitá-lo.

Issa Amro, ativista que dirige o grupo Amigos de Hebron, apontou para várias casas vazias em seu quarteirão.  Ele disse que famílias palestinas se mudaram por causa de restrições e vigilância. “Eles querem tornar nossas vidas tão difíceis que iremos embora sozinhos, para que mais colonos possam se mudar”, disse Amro.

 “As câmeras só têm um olho: para ver os palestinos.  Do momento em que você sai de casa até o momento em que chega em casa, você está diante das câmeras. ”

Issa Amro

Seis ex-soldados foram entrevistados pelo The Post. Um deles afirmou que o banco de dados da iniciativa Blue Wolf é uma versão reduzida de outro enorme banco de dados, chamado Wolf Pack, que contém perfis de praticamente todos os palestinos na Cisjordânia ocupada, incluindo fotos de indivíduos, suas histórias de família, histórico escolar e uma classificação de ‘segurança’ sobre cada pessoa. Este mesmo ex-soldado também descreveu o banco de dados como o “Facebook para os palestinos”, mesmo que a rede não esteja conectada a rede social.

Em entrevista, outro ex-soldado disse que ao patrulhar as ruas da cidade, foi encarregado de coletar a maior quantidade de fotografias de palestinos em uma determinada semana usando um celular do exército e se conectando ao aplicativo — além de dizer que algumas dessas missões diárias duravam mais de oito horas. O mesmo também disse que crianças normalmente posam para as fotos, enquanto idosos, sobretudo mulheres mais velhas, costumam resistir — provavelmente pela experiência e o conhecimento de múltiplas violações que ocorrem em um ambiente de guerra ou já ocorreram na cidade. Ele descreveu a experiência de forçar indivíduos para coletânea de imagens contra sua vontade como algo traumático, o que é questionável, no mínimo, já que o tempo que esse indivíduo permaneceu no exército após o início do programa de vigilância não foi disponibilizado. Isso é relevante, já que, caso ele tenha permanecido no programa sabendo das violações e descrevendo suas ações deliberadas como traumáticas, há um problema em relação a sua ética.

As imagens tiradas por cada unidade totalizariam centenas a cada semana, com um ex-soldado dizendo que a unidade deveria tirar pelo menos mil e quinhentas. Unidades do Exército em toda a Cisjordânia ocupada criaram uma competição por prêmios, como uma noite de folga para os soldados que tirassem mais fotografias. Em todo o momento, durante o relato dos ex-soldados e sobretudo quando os ‘prêmios’ são mencionados, há um ar de brincadeira por parte do exército israelense — é como se a violação da privacidade de palestinos não fosse uma violação dos direitos humanos e de convenções internacionais, mas um jogo onde o exército israelense mostra seu poder.

Quando há um indivíduo que já consta no banco de dados, o aplicativo registra a correspondência e pode ‘piscar’ em três cores, segundo ex-soldados e uma captura de tela enviada para o The Post. Em verde, o indivíduo pode passar, em amarelo deve ser detido e em vermelho deve ser preso imediatamente.

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Outro aplicativo foi desenvolvido especificamente para colonos judeus — israelenses que vivem na Cisjordânia ocupada — e podem ser utilizados para escanear a carteira de identidade de um palestino. O aplicativo não tem permissão para deter ou prender pessoas, mas os usuários podem analisar os documentos e a história dos palestinos que queiram. Ele só foi confirmado publicamente pela primeira vez por militares israelenses dois anos atrás, em uma publicação de um site de direita.

No ponto sobre a publicização das tecnologias de vigilância de Israel como um todo, inclusive as que não são utilizadas contra os palestinos e vendidas no mercado internacional, há uma lacuna de informação. Sobre o spyware Pegasus, por exemplo, após o escândalo de julho sobre o uso da arma para a espionagem de jornalistas, ativistas e até presidentes europeus, Israel passou semanas sem dar um retorno ao público ou as Embaixadas. Foi necessário que um agente externo encerrasse o provedor de serviço e hospedagem da empresa fabricante para que uma ação inicial fosse tomada. Em relação à tecnologia Blue Wolf, os militares somente a reconheceram em uma única instância, em junho deste ano, em um folheto convidando os soldados a participarem de ‘um novo pelotão’ que ‘iria os transformar em um lobo azul’ — fazendo uma analogia ao nome do programa. O impresso também dizia que a ‘tecnologia avançada’ apresentava ‘câmeras inteligentes com análises sofisticadas’ e ‘censores que podem detectar e alertar atividades suspeitas em tempo real e o movimento de pessoas procuradas’.

Dois anos atrás, a gigante Microsoft investiu em uma empresa jovem de reconhecimento facial, a AnyVision. O grupo atua junto ao exército israelense para produzir uma rede de câmeras de segurança inteligentes com tecnologia de reconhecimento facial, para ser aplicada em toda a Cisjordânia ocupada. Ao público, a Microsoft disse que retirou seu investimento durante os combates em maio entre israelenses e palestinos, que levou a morte de dezenas de crianças palestinas. No mesmo ano, o exército israelense anunciou a introdução de um programa público de reconhecimento facial desenvolvido pela startup para uso em postos de controles onde há migração de palestinos na fronteira. O programa usa quiosques para escanear identidades e rostos, e é usado para verificar se um palestino tem permissão para entrar em Israel para trabalhar ou visitar parentes. No entanto, segundo um ex-soldado, o monitoramento está sendo feito em uma cidade palestina sem notificação à população local. Essas câmeras de checkpoint também podem reconhecer veículos, mesmo sem registrar as placas, e combiná-los com seus proprietários.

Existem dois pontos críticos. O primeiro é a questão da preocupação com a privacidade, que existe em qualquer país seja dentro ou fora de zona de guerra. O continente europeu está correndo para passar legislações que contenham a tecnologia de reconhecimento facial e, em alguns casos, planeja impedir o uso até mesmo por parte de forças policiais. Este ano, as Nações Unidas alertaram em um novo relatório sobre o perigo das tecnologias de reconhecimento facial e biométricas. Trazendo alguns desses pontos para um ambiente de guerra, onde há uma clara distinção de poder aquisitivo e militar, há o potencial destrutivo para que essa tecnologia seja, e está sendo, uma arma de vigilância. O segundo ponto é a questão do falso reconhecimento e o sigilo do exército israelense. Não há como autoridades internacionais ou especialistas checarem o banco de dados do programa para apontar erros ou falhas. Por isso, qualquer informação ali é limitada ao conhecimento dos programadores do exército israelense e dos militares e colonos que utilizam o aplicativo — e só. Se houver um falso-positivo, um erro de programação que leve a identificação da pessoa errada, não há forma de contestação. Os militares israelenses não comentaram as preocupações levantadas por autoridades internacionais, jornalistas e ativistas sobre o uso do reconhecimento facial, o que mostra que eles não possuem a menor intenção de mostrar como seu programa funciona.

Tecnologias opressivas estão sendo utilizadas e não fazem mais parte de um futuro distópico contido na arte. É necessário não só estar atento, mas crítico.



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