Como se não bastassem suas mensagens motivacionais naquela rede de fotografias em que todo mundo parece meio cult e meio espiritualizado, ele ainda aparece na academia em uma rotina insuportável postada diariamente.

E continua: fotos com os cachorros, o homem amado por clientes tão incríveis quanto a necessidade que ele tem de mostrar que são incríveis mesmo. Na sua “bio”, bons clichês para florear o imaginário coletivo que precisa urgentemente fugir da realidade idealizando pessoas e coisas; mas sabemos: mais cedo ou mais tarde, o surto vem.

Nos encontros que se dão cheios de amenidades, lá está ele, criticando as falas, apontando erros, expulsando as visitas como bem entende quando ele, “o bonitão”, acredita que já aproveitaram o bastante. Tudo isso com um ar de chique, de superior, de inalcançável. Exaltando convívios com uma dose superestimada de valor que só existe na cabeça dele, prossegue. Em um dia desses, sua mãe pediu para que ele desse carona a uma prima e o lindo respondeu que a prima sabia se virar. Mas é claro que ela sabia se virar e realmente não precisava de você, ó deus soberano, mas é que você não entende de gentileza.  

Como te explicar que as pessoas são diferentes e que seu tom rude e ríspido acaba por causar desconforto em seu entorno porque, pasme, você não é melhor que ninguém para que todos tenham que te tolera? Será preciso um desenho para te mostrar que não dá para fazer só o que gosta se mora na merda de um mundo que exige que você necessite das pessoas (como elas também de você) e, com isso, as concessões não são quase inevitáveis?

Você fala alto que pretende passar o resto da vida sozinho, explica a importância da solidão e eu quase ouço, mas sempre acabo pensando que quem desdenha muito quer realmente comprar. Duvido que não sonhe com alguém que aguente toda a sua chatice e troque presentes no dia dos namorados.

Eu sei que o tempo passou e que está complicado você fazer algum aprendizado afetivo que desconstrua sua necessidade de correlação entre finesse e poder; mas tenta, vai? Não é você quem ama postar coisas que dizem que, enquanto há vida, há chances de recomeços? Um dia desses, com todo carinho, tive vontade de colocar a mão em seu ombro e falar:

— Meu amor antes de vomitar arrogância para calar seu desejo de ser amado, tenta baixar o Tinder.

Sabiá

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