Meu velho esquema novo

Acho que já faziam alguns meses que nós não nos víamos. Honestamente, nem sei o que passou pela minha cabeça naquele dia para te chamar, mas tudo bem ser impulsivo às vezes. Não tinha ideia se ia ser como antes, mas valia a pena tentar.

Passei a tarde inteira no mercado tentando planejar o que cozinhar, bem, em todos os sentidos possíveis. Claro que eu queria pensar em todos os meticulosos detalhes — você sabe que eu amo eles —, então nada era a toa: a massa, as bebidas… Ainda bem que eu não esqueci que você não gosta de vinho. Fora isso eu tinha que encaixar tudo de uma forma que eu não gastasse tanto — pelo amor de Deus, ou do governo mesmo, paguem melhor os professores —, sorte que eu realmente nasci com o dom de ser pão duro e gostar de fazer coisa boa.

Trocos contados e compras na mão, toquei para casa. Eu não moro longe do mercado não, mas esse caminho todo não prestei atenção em um passo, só pensava em todas as situações possíveis e… Bem, você né? — ai, Deus, olha o golpe vindo de novo. Ah! Quem se importa, cair em golpe é bom demais. Cabeçada na porta do apartamento por conta da distração e volta para realidade — irmão, doeu sincero e nem era o coração.

Hora da ação, ela ia chegar em umas duas horas e até meu atraso para terminar o jantar era planejado. Jorge Ben tocando alto e culinária de alto nível — alguém pode passar meu número para o Jacquin? Hoje eu ‘bagaço’ o MasterChef —, modéstia e molho à parte, talharim na água fervendo e cerveja no congelador — tomara que eu não esqueça. Agora ela ia chegar em uns 15 minutos, o tempo passou muito rápido, já escutei todos os álbuns do meu mano Jorge — Nessa altura já éramos íntimos — e voltei para o primeiro: samba esquema novo — perfeito. Me arrumei para ficar em casa, e fiquei na cozinha esperando — porra, a cerveja.

 Infindáveis cinco minutos depois, minha campainha toca — diferente do telefone, era o meu amor. Que amor o que, vei, tô emocionando já e essa música nem é do mesmo álbum —, abro a porta com a firmeza de um senhor de 132 anos e me deparo com aquilo — senhor, que mulher. Tim dom, violão batendo igual meu coração — sai da minha cabeça, Jorge —, ela tava linda… Na verdade, ela sempre está, mas naquele dia não sei. Não conseguia nem falar, tava vidrado, parado sem reação. Ela sorriu para mim igual à primeira vez que nós saímos, não ia conseguir me mexer, mas… Ainda bem que o Jorge tava lá: “Vem, morena vem, que o samba está a lhe esperar. Pois, existe naquele cantinho um piano de estimação, uma velha bateria, para fazer a marcação. Um amigo inseparável: o meu violão” — hoje, meu melhor amigo é você, Jorge. Nem pensei duas vezes, puxei ela pela mão e começamos a dançar, de qualquer jeito, bem desengonçado no início, mas o meu violão sempre encaixou no seu tamborim, nosso ritmo não se perderia nunca.

Foi isso, nem boa noite, a gente só ria e se olhava nos olhos. Era bom ter você de volta, e Jorge também sabia: “Bate em meu peito, baixinho, quase calado, um coração apaixonado por você”.



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