Com a crise atual que vivemos no Brasil, sabe-se que o poder aquisitivo de muitos declinou consideravelmente. Porém, tivemos uma parte da sociedade que foi ainda mais afetada diante dessa degradação econômica em cadeia. Temos uma parte da população esquecida e vive às margens da invisibilidade, tornando-se totalmente vulnerável aos olhos da sociedade. Esse grupo, conhecido por pessoas em situação de rua, não vivencia uma nutrição adequada, muito menos vive de forma minimamente digna quando se trata de saúde e bem-estar. 

Na última semana, mais precisamente na sexta-feira (12), repercutiu na mídia uma foto de um ator (Wagner Moura) comendo uma “marmita”, a qual levava em seu cardápio camarão. Socialmente, o camarão é visto como uma comida ” de gente rica”, onde apenas da classe média à alta tem o acesso.

O que chamou a atenção desse episódio não foram as críticas ao movimento (MTST), ou ao pré-candidato ao governo de São Paulo, Guilherme Boulos, mas sim ao prato servido, pois este continha um alimento superestimado. Houveram diversos comentários referente ao “nível” da marmita, onde alguns internautas afirmam que os ocupantes do movimento “não tem onde morar, mas comem marmitas recheadas de camarão”. 

A crítica que reverencia o fato de que as pessoas não possuem moradia, mas estavam se alimentando de camarão, só demonstra mais ainda o falho sistema em que vivemos, onde nem a moradia, nem o direito a uma alimentação minimamente digna estão sendo garantidas. 

Assim, surge aqui, uma discussão necessária com relação à insegurança alimentar e a hierarquização do alimento, onde socialmente falando, há uma tabulação de alimentos destinados à classes sociais, sendo considerado uma alimentação simples, aquela que leva produtos “baratos”, e uma alimentação de “rica”, aquele que leva alimentos mais superfaturados ou selecionados.

A insegurança alimentar no Brasil é algo muito preocupante e é sustentada pela cortina de fumaça criada pela sociedade e pelo Estado em não prover aquilo que necessariamente todos temos direito: segurança. 

O indivíduo tem direito em se sentir seguro na sociedade em que vive, seja essa segurança referente a sua alimentação, ao seu trabalho ou à sua saúde. E o Estado tem sim a legitimidade para promover essa segurança, mas a sociedade, como comunidade, também deve concorrer para isso. 

O que deve ser analisado diante dessa discussão referente a marmita servida pelo movimento social é se o problema está nas pessoas passarem fome, ou se está no problema delas comerem a mesma comida, com a mesma qualidade, que você consome. 

O que deveria ser chocante socialmente é o fato de que milhares de pessoas passam fome diariamente (inclusive, pode-se observar o crescimento da circulação de pessoas pedindo recursos nas ruas), não possuem moradia e não sabem se vão poder comer no dia de amanhã (125 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar), não vindo de fato importar o tipo de alimento que irá sanar a fome. 

Segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN), o número de pessoas em situação de insegurança alimentar grave saltou de 10,3 milhões para 19,1 milhões. Nesse período, quase 9 milhões de brasileiros e brasileiras passaram a ter a experiência da fome em seu dia a dia. 

No gráfico abaixo, pode-se observar a evolução da fome no Brasil no período de 2004 a 2020: 

Buscar comida em lixos ou aquelas que foram descartadas por estarem vencidas ou que são nutricionalmente inutilizáveis, como ossos, é uma realidade no Brasil, principalmente durante a pandemia. Em outubro, foi noticiado um caso de que dois homens teriam levado R$50,00 reais em produtos vencidos de um depósito, que seriam triturados e descartados, vindo ainda a serem conduzidos para delegacia e indiciados por furto. 

No caso, o promotor responsável recorreu da decisão que absolvia os indivíduos, por acreditar que “não se pode usar o principio da insignificância e do crime bagatelar como estímulo e combustível à impunidade”.  

Nesses cenários de absoluta insegurança nutricional e descaso social, denota-se uma tremenda supressão de direitos constitucionais. Na Constituição, temos como objetivo fundamental a erradicação da pobreza, da marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais. Já como direitos sociais, temos: a saúde, a alimentação, a moradia e a assistência aos desamparados. 

A insegurança alimentar deve ser duramente combatida socialmente, a fim de coibir essa prática burguesa e capitalista de hierarquização de alimentos, onde um indivíduo merece comer determinado alimento mais que o outro, pelo simples fato de possuir maior poder aquisitivo. Comer não é merecimento, é direito. 

O que se deve cobrar e indagar é o fato de termos tantas pessoas que tem vontade de comer e poucas que comem à vontade. 

Com isso, levanta-se a necessária discussão: estamos realmente buscando combater a fome, ou apenas nos preocupamos com o cardápio servido? 

Fome não pede extrato bancário. 


Para saber mais acesse: http://www.olheparaafome.com.br

referências: 

OBSERVATÓRIO DO TERCEIRO SETOR. 125 milhões de brasileiros enfrentam insegurança alimentar na pandemia. Disponível em: https://observatorio3setor.org.br/noticias/125-milhoes-de-brasileiros-enfrentam-inseguranca-alimentar-na-pandemia/

MP pede prisão de homens por furtar comida vencida que iria para lixo. Disponível em: https://www.google.com.br/amp/s/www.metropoles.com/brasil/mp-pede-prisao-de-homens-por-furtar-comida-vencida-que-iria-para-lixo%3famp   

Sabiá

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