O Quarto de André | Alguém

Alguém está a esperar por mim, alguém que surgiu, alguém que nasceu aqui, bem depois de mim, mas não uma criança, eu espero por alguém aqui. Ressurgir ou renascer talvez implique um clímax em algum lugar que caminhe, aqui implica uma espera ou uma desilusão, enquanto alguém não vem eu fico comigo, outro alguém. 

Olhando a cadeira e esperando alguém que sente eu vejo barro impaciente sair e fazer teatros, brincam de eu. Eu fumo um cigarro enquanto decido se me ajudo a escapar de mim mesmo ou se ajudo eu a continuar dando choques nas pontas de meus próprios dedos enquanto eu escuto meus gritos o cigarro parece um pouco mais reconfortante mas eu também sinto dor pois, afinal, sou eu mesmo. Se alguém entrasse agora seria no mínimo um tanto engraçado, eu, que espero por algo que não sou eu mas que veio comigo me distraio vendo o barro que acaba de expelir como um dejeto representando eu comigo mesmo de maneira realista, mas tão realista, eu choro e enquanto eu mesmo coloco aquele tipo de fio de carro na ponta dos meus dedos se eu  mesmo algum dia poderia me perdoar por tudo aquilo que eu fiz comigo mesmo aqui enquanto ninguém olhava, enquanto ninguém me dirigia a palavra, espero que ninguém goste em algum momento de mim a ponto de vir pois se alguém vir seria estranho explicar este estranho entretenimento de ver eu mesmo me torturando esperando por alguém que eu gostaria que amasse. Viu? Passou, pelas vírgulas eu, que fumo um cigarro na porta do porão, sufoco entre muitas e muitas vírgulas o grito de eu mesmo para continuar a pensar se continuo ou não meu trabalho, é sempre pior trabalhar consigo mesmo, pensou eu que fiquei com o trabalho mais pesado de amarrar jogar água e eletrocutar enquanto eu mesmo penso no valor da sua própria existência, enquanto isso, eu mesmo sinto vergonha de ter me deixado ser pego por eu mesmo, sinto vergonha por ter sido foragido em primeiro lugar mas eu, que assisto na cadeira esperando alguém, que eu mesmo tenho um tesãozinho por choques e limites ultrapassados e vergonha induzida por terceiros, por mais que o terceiro seja eu mesmo. 

De súbito, as coisas assumem um som um tanto mais sério, isso se dá quando eu colapso e morro, sem muito aviso ou motivo, já que choques geralmente são mais afeitos a dar energia do que tirar. Eu olho para o teto encardido e penso “merda” enquanto eu da plateia penso que algum órgão meu poderia ter sido evitado e então me lembro que o barro não sou eu, mas esqueço. 

Voltando, eu sou enterrado sem muita cerimônia, mas com muito abalo, eu que me deixava morrer com um cigarro do lado de fora chora com soluços mas quem sente mais sou eu que matei o filho da puta, sinto uma pontada de falta, como se pelas minhas costas houvesse um ralo e eu mesmo fosse esvaziando, ele é enterrado com mais terra na cara em algum canto cenográfico sem espaço. Nós dois passamos nos denunciamos para nós mesmos, que nos levam para outros porões escuros onde, em um determinado momento, eu me questionarei sobre limites enquanto eu estou lá, dando o choque e tendo o trabalho horrível de olhá-lo como um igual, de dar valor para a sua vida e ouvir as suas últimas palavras, eus falamos que só seguimos ordens e, quando eu lhes pergunto de quem, eles apontam para mim, um olhando com pena, outro com ódio, disso o barro de segunda geração se cansa, se junta, fica mais escuro e cai ao chão, se alguém tiver que vir que venha agora, já me cansei de mim sozinho e escondo eu mesmo atrás da porta.

Entretanto, ninguém vem, e já está na hora do jantar, já basta de pensar sobre mim! Concluo eu que ainda tenho um trabalho a ser feito. E enquanto preparo a sopa para o jantar eu vejo que algo se molda lentamente em algo amorfo, todo o barro colapsado em si mesmo pelo seu próprio ódio introjetado que simplesmente não conseguia parar de olhar a si mesmo e com olhar se odiar se cansou de ser eu, se cansou e morreu e virou alguém, alguém para eu fazer. Penso logo em lhe dar olhos claros, que um espelho, quero também um rosto conhecido, mas não de eu mesmo.


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