Um Touro Profano de Assombrosas Bolas

Um sol quente não tanto se levantou como cuspiu seu fogo no centro de São Paulo. Com ele, amanheceu na Rua Quinze de Novembro, frente à Bolsa de Valores brasileira, uma estátua dourada de um touro, com cerca de 5 metros de comprimento e uma tonelada de peso -(de acordo com o press release repetido ad nauseam no noticiário, a estátua é feita de uma estrutura de metal coberta com fibra de vidro e tinta — ou seja, parecido com a construção dos carros alegóricos de carnaval, ainda que com muito menor sucesso estético). A vizinhança, como quase todo o centro de São Paulo, é uma mistura de brutalidade e exuberância estética, ainda que toda promessa modernista de outrora da cidade, hoje esteja mesmo coberta de mijo e pombos. De qualquer maneira, a vizinhança já estava acostumada com esse tipo de paradoxo tolo, afinal é na mesma rua que fica o Museu Memorial Bovespa e uma filial do que deve ser a loja mais estúpida que eu já vi no Brasil, a Americanas Express. Que a escultura “veio acompanhada” (ou melhor, enlatada) por uma campanha publicitária é óbvio — do mesmo jeito que o “artista” é, na verdade, um arquiteto com experiência em “arquitetura corporativa” e o patrono, Pablo Spyer, é um apresentador caricato da Jovem Pan, o reduto da patética extrema-direita brasileira. Mas, ainda, a estratégia de marketing desta “obra de arte” é surpreendentemente tímida, já em postura defensiva e assustada: a estátua não representa o mercado, mas “especialmente as características da população brasileira”, suplicou a B3, em nota.

O medo é também transparente na execução: uma cópia descarada da “Charging Bull”, escultura do italiano Arturo Di Modica, um artista mediano cuja única reivindicação à fama foi pagar com dinheiro próprio e instalar ilegalmente o tal boi em frente a Wall Street em Nova Iorque. A escultura original — e, obviamente, a cópia tupiniquim — não têm nem um pingo de originalidade ou valor artístico. Nenhuma delas fala qualquer coisa nova ou verdadeira sobre material, forma, tema, superfície, cor, público, nada. Mas, sinceramente, a enorme maioria da arte pública é horrível — o processo de decisão sobre o que é apropriado ao público é inevitavelmente burocrático e oco, e o centro de São Paulo é palco fértil para esses experimentos, onde até as esculturas modernistas um dia minimamente interessantes hoje desfalecem como esqueletos de ferrugem, funcionando só como lembretes para atualizar a vacina de tétano.

Mas o nosso “Touro de Ouro” é também particularmente ridículo. Sem o movimento que até Di Modica conseguiu dar ao seu “charging bull” (um touro atacando, sua musculatura engajada, narinas abertas, chifres afiados), a cópia que o arquiteto civil fez é mais alisada e imóvel, suas pernas obesas e anãs gritam inabilidade e diabetes, a bunda redonda e lisa me lembra uma boneca de plástico. A aparência é, no fim, mansa, castrada e a escultura parece leve, como outra bugiganga de plástico qualquer da 25 de Março.

Engraçado como nem o tamanho, a masculinidade, a opulência dourada, nem mesmo as enormes bolas soam como transgressivos. Na verdade, é tudo broxante. Até o jeito que a luz solar reflete na cor é artificial. Que não há nenhum mérito estético é óbvio, mas o que me ofendeu foi mesmo a falta de sensualidade. Não que isso seja surpreendente: vivemos na era em que todo mundo é malhado e gostoso, mas ninguém quer transar.

De qualquer maneira, o touro nasce no ápice dos anos Bozo. Na última semana, Bolsonaro se esbanja em hotéis de luxo no Oriente Médio, com comitiva que tem até desembargador do sempre suspeito TJ do Rio de Janeiro; o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é aplaudido de pé no parlamento europeu e a grande imprensa brasileira não cobre; Ciro volta ao palco eleitoral após uma pausa dramática para protestar o apoio do seu partido a PEC dos Precatórios (a PEC passou e Ciro voltou, então sofremos duas vezes); e o juiz suspeito que fraudou as eleições de 2018 é entrevistado pelo pior escritor brasileiro, Pedro Bial. O teatro do ridículo é a nossa realidade, então foi uma semana qualquer.

Mas são essas ocorrências externas que envenenam a atmosfera em que analisamos o Touro. Em um nível cognitivo imediato, a estátua lembrou-me da exortação de Carl Dreyer para se usar “artifício para tirar artifício do artifício”, ainda que em seu oposto: o Touro é tão inconsciente da sua artificialidade e do seu fracasso que, confesso, ele me agrada. Minha primeira resposta foi mesmo cair na risada.

Penso nisso enquanto vejo no YouTube vídeos de banqueiros e Faria Limers posando para fotos com sua nova estátua, suas mãos almofadadas esfregando os flancos dourados, seus rostos rasgados com sorrisos de vilões clichês. Os bastardos exaltam tão abertamente a exploração e a desigualdade, se esbanjam tão alegremente na vulgaridade que é celebrar riqueza em um país aflito pelo desemprego e a fome; a estátua é tão abrasiva, inferior até à estatueta de acrílico de parque de diversões, com bolas enormes penduradas abaixo da sua bunda indiscutivelmente feminina; enfim, a falta de vergonha é tanta, tanta, que acaba acertando precisamente o pathos do momento. Eles riem na nossa cara — o que me incomoda quase nada na estátua, e muito na realidade política.

De certa maneira, a arte pública, nos raros casos em que é bem sucedida, funciona quando consegue lacrar nossas percepções passageiras e mal articuladas sobre o presente em imagens coerentes e instantâneas. Existe um potencial enorme nesse congelamento. E em 2021, memes são a única forma de comunicação: memes são legais, são poderosos, é sexy. E é só isso que o touro é, um meme gigante, tanto para quem o admira quanto para quem o protesta.

A verdade é que hoje quase toda arte é política, mas quase nenhuma é visionária. A nossa realidade é mimética e mal articulada. Texto, persuasão e habilidade retóricas foram substituídos por imagens, sugestões e piadas. E, em um espelho entre o fazer artístico e o fazer político (tanto o ativismo como a governança), agora forjar coalizões complexas e cheias de nuance está completamente fora de moda — tribalismo e fanatismo é que são cool (para todos os lados do espectro político, diga-se de passagem).

A realidade algorítmica é tão onipresente e toda nossa vida tão dissolvida em tribalismo que condenar ou exaltar qualquer arte (ou qualquer fato!) parece inútil — as alianças estão definidas a priori e arriscar uma opinião ambígua é quase um suicídio social. Como eu sou particularmente adepta ao fracasso, vou ousar dizer aqui que eu considero o “Touro de Ouro” tão oco quanto grande parte da arte “politizada” hoje exposta em… todos os museus, todas as galerias, debatidas em todas as teses de mestrado e em todos os episódios deprimentes das nossas guerras culturais. Vivemos na Era da Estupidez — e, desculpem os críticos que não ousam criticar arte ruim se ela expele a Ideologia Correta, mas não é só o Touro que é idiota, mas sim quase toda arte contemporânea. 

Alguém já fez no Twitter a “provocação” óbvia que os debates sobre vandalismo em estátuas vão se aplicar ao nosso Touro idiota também — mas esse não é o debate importante. E, aliás, eu nem preciso checar se algum crítico cultural já tuitou sobre vandalismo e essa escultura, eu tenho certeza que já o fizeram. Aposto todo o dinheiro no meu bolso que nos próximos dias a estátua será pintada com protestos mencionando FOME, talvez um xingamento a GUEDES e a BOZO apareçam logo também. Não que essas exaltações sejam erradas ou inúteis, mas a obviedade de tudo é que é um porre. O Touro foi feito para ser vandalizado — é parte do teatro. Em horas, milhares de tuítes em protesto serão lançados no meta-universo que promete nos devorar. Em horas, a única coisa que vai importar é ridicularizar o Touro ou ridicularizar os “perdedores frágeis” que se sentem incomodados com algo tão desimportante como uma estátua. As fronteiras das nossas tribos são tão evidentes e tediosas.

O debate que me interessa, o único debate frutífero, é como de fato protestamos e lutamos contra um sistema ubíquo, totalitário e cada vez mais polarizante. Porque engajar nos mesmos termos, na mesma fábrica de trollagem que é nossa vida toda, é completamente inútil — e, eu cada vez mais acredito, é completamente imoral. Enquanto nos perdemos em mais um pânico moral (guerras culturais são, afinal, sobre moralidade), mais uma vez somos forçados a adotar o prisma político para tudo. Se o século XX debateu a incursão das imagens em todos os aspectos da nossa vida — até que deixou a arte completamente inútil e conceitual — o século XXI parece que vai ser marcado pela politização de tudo. “O pessoal é político! Sua identidade é política! Como você vive é um ato político!” É tão onipresente que virtualmente nada mais é separável do político. Como a pornografia, arte política não existe mais porque ela já está em todo lugar. A transcrição de tudo para essa politização constante além de solipsista, alienante e uma enorme rendição do potencial da vida e da arte, também parece não gerar mudança concreta nenhuma — não que isso incomode seus praticantes.

Essa estátua tão fácil de odiar pode ser a pílula vermelha, a droga da verdade. Há de se regozijar a oportunidade filosófica aqui: porque frente à feiura desse símbolo de riqueza em um país que volta a passar fome, aos milhões, a resposta normal e, creio, a resposta da maioria das pessoas será mesmo questionar: como chegamos até aqui? E isso é um engajamento filosófico, que nos une ao universo, à longa história humana e ao propósito de nossas vidas. Às vezes, a arte se revela como um microcosmo de tudo — e reconhecer o que é falso na arte, faz também ver o que é falso na vida. É uma chance para tomar uma experiência que é quase impossível — entender arte ou entender o mercado especulativo — e submeter a um julgamento analítico e abstrato, o que talvez seja mesmo a única maneira de entender qualquer coisa.

No fim, a estátua introduziu, via repulsa, um elemento metafísico no debate sobre desigualdade social. O contraste com as filas de osso, a simbologia do gado que remete ao fanatismo bolsonarista, a breguice de se fazer uma cópia de uma coisa americana, tudo isso faz nossos sentidos pularem. Esse maximalismo impetuoso pode ser elétrico. Entender a complexidade da nossa realidade econômica corrupta e imoral exige análise lógica, estatística, baseada em dados — ou seja, é quase impossível de fazer. Algo me diz que essa estátua vai causar mais nojo — e angariar mais votos para a esquerda — do que a revelação dos milhões em contas offshore do Guedes.

Aliás, quando foi a última vez que você viu um artista famoso brasileiro falar sobre a vulgaridade da riqueza? Na nossa era a exibição da ganância e da fortuna não são mais taboo ou chocantes, pelo contrário. Enquanto estivemos presos em nossas quarentenas, espiamos o luxo das mansões das celebridades. Sucesso, na nossa sociedade, é absolutamente igualável a sucesso financeiro, à fama e a poder. Ninguém sequer questiona esses valores imorais. E muitos nós vivemos um processo de politização completamente tomado pela realidade virtual — onde só se pode fazer parte do ritual nojento de exibir suas virtudes via posts corretos, pronomes no lugar certo, alianças retuitadas em repetições infinitas — tudo isso enquanto continuamos na mesma matrix gentil e complacente, amortecidos pelo ópio do entretenimento e nossas pequenas rotinas, santificando tanto uma completa inabilidade de realmente fazer política (um processo vagaroso, complexo, cheio de concessões e fracassos) quanto de engajar em debates (é bem mais fácil cancelar e dedurar para o RH!).

É por isso que eu sou fã de um tipo de arte ruim: arte ruim faz o espectador ser muito mais ativo1. Arte ruim gera invenção. E arte ruim revela com muito mais destreza o coração de seu criador (e de seu financiador). Agora, se a crítica é fácil, a tragédia é bélica. O Touro é tão abrasivo e brega que ele não resiste confessar a verdade (afinal, o melhor lugar para enterrar um corpo é bem embaixo do nariz de todo mundo): que o mesmo período que vê o Brasil voltar ao mapa da fome, que mata o maior programa social de retirada de pessoas da pobreza da história recente, é o mesmo período que vê o surgimento de dezenas de bilionários e a aceleração desenfreada da desigualdade econômica. E foi o Touro — feio, filistino, desalmado — que, no fim, falou mais alto sobre a vulgaridade da riqueza que a maioria dos artistas atuais. A minha defesa, se é que eu a faço, do Touro é que sua mediocridade é sincera. Ele até abandona a reivindicação da originalidade e liberdade para promover a perversão completa do fazer artístico. Que bom! Pelo menos é verdade! O Touro é abertamente um produto de marketing que pede do seu espectador somente que declare sua aliança política. Mas o que mais não é assim?

O Touro de Ouro é, sim, uma exegese cuzona e horrível. É uma espécie de zombaria extática, intolerável, vilanesca, realizada em frente a uma sociedade de algozes. Mas é a obra que merecemos. E assim alcança sua maior vitória, que não é intencional, mas é filosófica: ao exaltar nossas paixões, nos lança a um novo mundo. Lá vamos nós.


O material foi escrito inicialmente no dia vinte e dois de novembro, sendo publicado uma semana depois. Qualquer diferença de data é devido a isto.



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