Juiz do caso Assange é amigo de ministro que orquestrou sua prisão


A revelação levanta questionamentos sobre a parcialidade do magistrado ao julgar o maior caso envolvendo a liberdade de imprensa da história.


Ian Burnett, juiz do Supremo Tribunal britânico responsável pelo caso atual do jornalista Julian Assange, é um amigo íntimo de Sir Alan Duncan, ex-ministro das Relações Exteriores do Reino Unido e membro do Partido Conservador, que providenciou o despejo de Assange da embaixada equatoriana. Os dois se conheceram quando eram estudantes em Oxford na década de setenta. Agora, o juiz mais poderoso da Inglaterra e do País de Gales, Burnett, decidirá em breve sobre o caso de extradição de Assange. A informação, dada inicialmente em um site de jornalismo independente britânico, está levantando dúvidas sobre a parcialidade da corte. Burnett agora julga o recurso dos Estados Unidos contra a decisão proferida em janeiro deste ano de não extraditar o jornalista.

“Meu bom amigo e contemporâneo de Oxford, Ian Burnett, é anunciado como o próximo Lord Chief Justice. Em Oxford, sempre o chamávamos de ‘o juiz’ e eles sempre me chamavam ‘primeiro-ministro’, mas é Ian quem está lá.”, escreveu Duncan em sua autobiografia recentemente publicada. Em resposta ao site que publicou a reportagem inicial, o juiz do Supremo Tribunal confirmou que ambos são amigos desde a universidade.

Em uma situação incomum, o governo da Grã-Bretanha pagou mais de oito mil libras para trazer o então ministro da Defesa do Equador, Oswaldo Jarrín, para o país, em novembro de 2018, dois meses antes da expulsão e prisão de Julian Assange da embaixada do Equador. A visita de uma semana aconteceu uma semana depois que a primeira-ministra foi instruída a conversar com o presidente do Equador, Lenín Moreno, de modo a expulsar Assange da embaixada.

Os diários de Duncan, que liderou as negociações sobre Assange como ministro, lançam luz sobre a pressão que a Grã-Bretanha exerceu sobre o Equador após o governo de Lénin Moreno assumir o poder em 2017. Moreno desfez a maioria das políticas externas feitas pelo seu antecessor, Rafael Correa, e alinhou-se com os Estados Unidos, assinando acordos com o Fundo Monetário Internacional e expressando publicamente seu aborrecimento com a situação de asilo de Assange na embaixada do seu país em Londres.

Em 2016, Duncan conheceu o ministro das Relações Exteriores de Correa, Guillaume Long, que ainda estava empenhado em defender o direito de asilo de Assange. Em seus diários, Duncan lamentou que Long “defendia os supostos direitos humanos de Julian Assange”. Mas em março de 2018, com o governo Moreno em vigor, Duncan estava mais esperançoso e teve um encontro individual com a primeira-ministra Theresa May, onde ele “a atualizou sobre o Equador e Assange”. “Ela pode querer bajular o presidente Moreno”, escreveu.

Duas semanas depois, ele acrescentou estar ‘perto’ de tirar Assange da embaixada do Equador. Seis meses depois, em setembro de 2018, Duncan recebeu um telefonema do novo ministro das Relações Exteriores do Equador, José Valencia. “Ambos queremos Assange fora da embaixada”, disse, “mas o governo do Equador ainda não dará o passo final necessário por medo da reação interna”.

Mas o mais importante, e o mais preocupante, é uma conversa que o ex-ministro teve com Ian Burnett sobre o caso — o que poderia indicar uma parcialidade do magistrado no julgamento do recurso. Em maio de 2019, em uma conversa que não foi registrada, Burnett o informou sobre um jantar que tivera com a então primeira-ministra Theresa May dois dias antes.

Questionado pela imprensa britânica, Duncan nega ter abordado algo sobre o caso com o magistrado, mas a veracidade de sua informação não pode ser checada, devida as incontáveis falas pejorativas do ex-ministro sobre Assange — como alegar que ele possui “supostos direitos humanos”, ou chama-lo de “verme” no parlamento britânico.

Ele também admitiu que conseguiu arranjar um artigo de sucesso no site Daily Mail, publicado um dia após a prisão de Assange, que descrevia ‘a história de horror’ sobre a estadia do jornalista na embaixada. A peça foi o começo para uma série de artigos em toda a imprensa internacional que supostamente descreveriam o péssimo comportamento de Assange como refugiado.

Duncan também escreveu em seus diários que estava “tentando esconder o sorriso afetado” e ofereceu bebidas em seu gabinete parlamentar para a equipe envolvida no despejo. O então ministro voou para o Equador para se encontrar com o presidente Lenín Moreno para “dizer obrigado” por entregar Assange. Ele também relatou que deu a Moreno “um lindo prato de porcelana da loja de presentes do Palácio de Buckingham”, e acrescentou: “Trabalho feito”.



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