Já faz algum tempo que me pergunto o porque nada publicado pela imprensa, no mundo todo, parece ter efeito. Durante os últimos dois anos, parece que a maior quantidade de escândalos internacionais e nacionais foram revelados pela imprensa, tanto hegemônica quanto independente, mas ninguém dá bola. Nada vai para a frente, não há mudança. O público se importa até um certo ponto, e depois segue para o próximo escândalo, a próxima decepção. Não tenho dúvidas que esse problema foi impulsionado pelas redes sociais, somado ao sentimento natural de se interessar por mistérios, polêmicas e intrigas, mas a questão final, ao menos para mim, é o que podemos fazer para mudar isso? 

Parte da imprensa não só se adequou, como se acomodou a esse sentimento — tanto que o jornalismo ‘carniceiro’, onde tragédias são exploradas por visibilidade, nunca foi tão comum ao redor do mundo. Mas não podemos nos adequar ao sentimento inconstante de correr para a próxima polêmica ou o próximo escândalo político. Não só porque isso não causa nenhuma mudança formal no mundo, mas, porque isso é deprimente, tanto para o leitor, quanto para os jornalistas. Não me leve a mal, o mundo hoje é completamente deprimente e, em certos momentos, até distópico — mas aceitar a infeliz realidade não significa que devemos nos conformar com ela, é claro. 

Esse é um dos principais pontos: o jornalismo atual se tornou deprimente. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que se nega a ler a imprensa ou ver telejornais porque considera “muito deprimente”, ou, porque gera sentimentos de ansiedade. Isso nos leva a um questionamento, ou talvez um paradoxo, já que para muitos, eu incluída, a imprensa deveria ser um sinônimo de revolução. A imprensa independente durante a ditadura militar brasileira, por exemplo, levou a conscientização de muitos brasileiros do que realmente estava acontecendo no regime militar. No maio francês, a imprensa estatal foi crucial para a derrocada do governo gaullista ao participar de greves gerais e impulsionar os trabalhadores franceses a entenderem a opressão social que estava ocorrendo naquele momento. Ao longo da história, é capaz que em cada país, cada cidadezinha de interior, a imprensa tenha tido um papel importante, mesmo que durante um breve período. Esse sentimento de mudança e revolta é o que nos falta hoje — e não se engane, falta nesta revista também. 

Quando digo que a imprensa é revolucionária, isso é normalmente associado a um contexto ideológico ou partidário. O jornalismo e a sociedade brasileira se tornaram tão dualistas, tão oito ou oitenta, que a etimologia das palavras é completamente ignorada por sentimentos ideológicos. Você pode considerar que a imprensa é revolucionária em um contexto ideológico, fique a vontade e não vejo nenhum problema sobre isso, mas pessoalmente isso não é o que digo.

Aos meus olhos, a imprensa é revolucionária porque tem a capacidade de questionar tudo e todos, além de, potencialmente, poder estar em contato com cada brasileiro. Através de um celular, de uma televisão, até de um jornal impresso, a imprensa tem o potencial de atingir todos os brasileiros, mesmo que de formas diferentes ou em momentos distintos. E isso é um potencial revolucionário, é um potencial de mudança. 

Pense: se você pudesse dizer algo para todos os seres humanos no Brasil, o que você diria? Eu imagino, e quero supor que você faria isso com bom coração, que você provavelmente não correria com suas palavras e pensaria com bastante cuidado o que diria. Trazendo essa lógica para a imprensa, porque um ramo que tem o potencial de atingir mais de duzentos milhões de brasileiros não pensa atentamente antes de escrever cada frase? Porque corremos para publicar histórias interessantes em nome do reconhecimento ou somente a possibilidade de colocarmos isso no currículo, ao invés de pensarmos que cada palavra que escrevemos pode mudar a vida de uma pessoa para sempre? Não é somente uma questão de falta de otimismo e responsabilidade no jornalismo atual, mas também aquele sentimento inquieto, de sentar na borda da cadeira batendo os pés, e pensar como você pode mudar algo. 

Eu quero trazer esse sentimento para a revista, e para todos vocês que nos leem. Eu realmente quero mudar o mundo. E não acredito que estou sozinha nisso, pelo simples fato de que temos mais de duas dezenas de integrantes nessa equipe, trabalhando de forma voluntária e dando o melhor de si neste projeto mesmo sem saber onde vamos chegar — e nem se vamos chegar em algum lugar. Eu não estou sozinha porque, quase diariamente, recebemos e-mails de leitores, alguns adolescentes, enviando textos para publicarmos ou elogiando nosso trabalho. A verdade é que, nós não estamos sozinhos, pelo simples fato de você tirar alguns minutos do seu dia para ler essa publicação. Seu dia pode estar sendo péssimo, sua vida, na verdade, pode estar péssima no momento, assim como a de muitos aqui nesta redação, mas você está aqui. Nós estamos aqui. 

Todos esses questionamentos e breves observações me levaram à afirmação de que precisamos mudar ano que vem. Não se engane, não vamos virar a cara para a realidade e fingir que somos filhos de herdeiros ou pessoas de classe média sem consciência de classe, mas nós não vamos nos afundar no sentimento deprimido da imprensa. Ao mesmo tempo, não posso mentir para você e dizer com completamente certeza de que sei qual é essa direção utópica, mas em resposta a isso digo que a maior parte das coisas que fiz na minha vida, fiz sem saber o que deveria fazer, como esta revista, e até o momento não tive reclamações sobre isso. 

Ano que vem, seremos novos. Este editorial é nada mais, nada menos, do que um convite para embarcar nessa mudança conosco. Mude o mundo conosco.

Sabiá

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