Governo dos Estados Unidos é hackeado com spyware israelense

Pelo menos nove funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos foram hackeados por um usuário desconhecido usando o Pegasus, um spyware de última linha desenvolvido pelo Grupo NSO, uma empresa de tecnologia israelense.

Em junho, um escândalo internacional foi criado após as revelações de que políticos, jornalistas e ativistas foram espionados pelo software a mando de clientes de ‘alta linha’ da empresa. Mais de cento e oitenta jornalistas foram citados nos dados, entre eles repórteres, editores e executivos de grandes organizações de imprensa ao redor do mundo. Registros também mostram que o repórter mexicano Cecilio Pineda Birto constava na lista como pessoa de interesse para um cliente de mesma nacionalidade poucas semanas antes de seu assassinato. Seu telefone nunca foi encontrado pelas autoridades e nem familiares.

No início do escândalo, a empresa afirmou ser impossível hackear telefones norte-americanos. Após uma lista de alvos ser divulgada pela imprensa com alguns números de telefones fixos e celulares dos Estados Unidos, a empresa argumentou ser ‘tecnicamente impossível’ acessar tais dispositivos com suas ferramentas. Agora, novas revelações mostram que pelo menos nove funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos foram infectados com o software. Segundo o site, a invasão atingiu oficiais norte-americanos baseados em Uganda ou focados em questões políticas relativas ao país.

A Apple emitiu um comunicado para todos seus usuários afetados pelo spyware, entre eles, funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que foram facilmente identificados como funcionários do governo porque associaram endereços de e-mail que terminam em e-mails que possuem o prefixo do governo (state.gov) em seus IDs da Apple.

Após se infiltrar em seu telefone, sem que você note, o spyware pode rapidamente transformá-lo em um dispositivo de vigilância — copiando mensagens enviadas ou recebidas, colhendo suas fotos e gravando suas ligações. Ele pode filmá-lo secretamente através das câmeras do seu dispositivo ou ativar o microfone para gravar suas conversas. Além disso, também pode identificar onde você está, onde esteve e quem conheceu. O Pegasus, em teoria, também não deve deixar rastros, embora os investigadores tenham desenvolvido alguns métodos para determinar se um telefone foi hackeado por ele.

A empresa, com sede em Israel, precisa obter a aprovação do Ministério da Defesa de Israel antes de vender seu software a outra agência governamental. Em junho, foi revelado que o presidente francês, Emmanuel Macron, o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, e o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, estavam listados como alvos em potencial de clientes da empresa, que também incluía diplomatas, chefes militares e altos políticos de trinta e quatro países.

Mês passado, o grupo NSO foi incluído na lista negra do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, de forma a impedir a importação do software. Com a ação, firmas norte-americanas estão proibidas de exportar bens e serviços para a empresa porque, segundo comunicado à imprensa do órgão, a empresa “apresenta um risco significativo de estar ou se envolver em atividades contrárias à segurança nacional ou estrangeira interesses políticos dos Estados Unidos.”. No mesmo mês, a Apple processou o grupo NSO por invadir seus dispositivos com o spyware.

Atores patrocinados pelo Estado como o Grupo NSO gastam milhões de dólares em tecnologias de vigilância sofisticadas sem responsabilidade efetiva. Isso precisa mudar. Os dispositivos da Apple são o hardware de consumo mais seguro do mercado — mas as empresas privadas que desenvolvem spyware patrocinado pelo estado se tornaram ainda mais perigosas

Craig Federighi, vice-presidente sênior de engenharia de software da Apple.

O sigilo das empresas israelenses de segurança cibernética está se dificultando de manter em um mundo no qual a segurança está cada vez mais privatizada. Quando empresas desta proporção são públicas, a sociedade possui liberdade de consultar relatórios e fazer questionamentos como, por exemplo, quais projetos estão sendo organizados, quais armas estão sendo fabricadas, entre outros.

O governo israelense costumava manter um controle rígido sobre a indústria de armas e as organizações de inteligência que operam dentro e fora de Israel, mas a privatização se infiltrou. A empresa responsável por desenvolver o spyware Pegasus, a NSO, não é apenas privada, mas a maioria das ações da empresa foi comprada pelo fundo europeu Novalpina em 2019, o que significa que a empresa pode ser israelense, mas pertence a investidores estrangeiros.



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