Rio de Janeiro, RJ. Rua Santa Clara, entre a Barata Ribeiro e a Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

A poucos metros da praia de Copacabana, a vitrine da cidade maravilhosa. Ambos os relatos seguintes são factuais; desenrolaram-se respectivamente entre os dias 4 e 5 de dezembro. Se opto por relatá-los com um trato literário, justifico-me por acreditar ser a poesia um caminho potente para despertar o coração, a ação transformadora, dos leitores. Sem a sensibilidade revivida permanentemente pela Arte, talvez sejamos tragados pelo risco do sentimento paralisador de impotência, do individualismo cego, da indiferença perante a miséria humana.

Ontem à noite um violinista tocava na calçada em frente de casa. Entre as músicas, destacaram-se tanto As Rosas Não Falam quanto Eu Sei Que Vou Te Amar. Em um ritual profano, renasciam Cartola, Tom Jobim e o poetinha Vinicius de Moraes. Venciam o tempo devorador, a morte silenciadora. Alguns pedestres paravam, saiam um tiquinho de si próprios, ouvindo por um tempo a melodia doce, paradisíaca. Relembravam de tentar tatear o outro, o amor, a vida. Depositavam um pouco de dinheiro para o músico andarilho. E uma senhora de 84 anos cantava da janela, parindo uma voz resistente de modo a acompanhar os sons delicados do violino. Entre os morros e as praias da Zona Sul, a Lua, a Beleza.

Hoje de manhã um policial militar espancava um rapaz negro suspeito de roubo na calçada em frente de casa. Os pedestres, feito uma plateia apática, ignoravam. Alguns talvez aprovassem as pancadas infernais dadas à luz do dia. Em um estádio mortificante a céu aberto, dentro do qual a assimetria de poder era tão enorme quanto o mundo, o garoto era como uma bola de futebol à mercê dos pés de um sádico fardado. No anseio por ordem, por progresso, instaurava o caos, o regresso. E uma senhora de 84 anos gritava desesperada da janela, sem reconhecer as forças policiais do próprio país. Lembrou-se do amor, do pai falecido: um militar empático, carinhoso, talvez ingênuo. Chorou pelo rapaz, pelos pedestres, pelo pai, pelo país, pela humanidade. Verteu lágrimas velhas, audíveis, para compensar as lágrimas eternas, silenciosas, de Deus. Entre os morros e as praias da Zona Sul, o Sol, o Terror.