A redenção pela Arte: mil e uma vidas

Somos, enquanto espécie, seres sociais. Nascemos a partir de bandos; deles, nos reunimos em grupos maiores; por fim, em civilizações. Estar em contato com a alteridade está inscrito nos genes e no psiquismo do Homo Sapiens. De modo a articular o pensamento, as línguas são ferramentas basilares, adquiridas a partir do contato com a cultura. Antes das palavras, comunicamos a angústia indizível pelo choro, pelo corpo febril, pelos gestos exagerados. A comunicação do eu com o mundo é uma imposição da vida.

Proponho ser a Arte um desdobramento da necessidade fundamental do homem pelo outro. Seja qual for a expressão artística, revelará a dependência pelo outro: um eu-outro, um lugar-outro, um tempo-outro, uma realidade-outra. O fazer artístico permite a duplicação pela deformação do mundo: é um instrumento de multiplicação da existência. O poeta brasileiro Ferreira Gullar constatou certa vez: “A Arte existe porque a vida não basta”.

O ser humano é um ser contador de histórias. Existirá alguém capaz de permanecer mais do que poucos dias sem adentrar no mundo-outro da ficção? Você, leitor, consegue se manter quanto tempo afastado de músicas, séries, filmes e/ou livros? Se o acesso à Arte for uma impossibilidade, se a pessoa estiver exausta de ficções artísticas, resta a vontade pelo outro: desde o nascer longínquo da humanidade, reunimo-nos ao redor das fogueiras para conversar, para compartilhar as próprias vivências.

Tateando as razões da Arte, o escritor Umberto Eco sugere o seguinte em Seis passeios pelos bosques da ficção: “há um outro motivo pelo qual nos sentimos metafisicamente mais à vontade na ficção do que na realidade. Existe uma regra de ouro em que os cripto analistas confiam — a saber, que toda mensagem secreta pode ser decifrada, desde que se saiba ser uma mensagem. O problema com o mundo real é que, desde o começo dos tempos, os seres humanos vêm se perguntando se há uma mensagem e, em havendo, se essa mensagem faz sentido. Com os universos ficcionais, sabem sem dúvida que têm uma mensagem por trás deles e que uma entidade autoral está por trás deles como criador e dentro deles como um conjunto de instruções de leitura”.

Dizem por aí os descrentes ser a vida uma só. “Carpe Diem”, repete o coro como um desdobramento obrigatório a partir da descrença na vida futura dos humanos na Terra, da impossibilidade de transcendência espiritual. Os horizontes da juventude aparentam estar limitadíssimos. Será aproveitar o momento despreocupadamente o único caminho, será a “vida uma só”? A ausência de um sentido estabelecido no universo é assunto de vários pensadores do século vinte. Um dissidente do existencialismo francês, o filósofo-romancista Albert Camus, propõe o seguinte: o ser humano demanda significado, o cosmos oferta caos; a lógica cósmica, caso haja, é ilógica para a razão limitada do Sapiens. De um encontro tão desigual entre ator e cenário, nasce o Absurdo da condição humana.

“Se eu fosse uma árvore entre as árvores, gato entre os animais, a vida teria um sentido, ou antes, o problema não teria sentido porque eu faria parte desse mundo. Eu seria esse mundo ao qual me oponho agora com toda a minha consciência e com toda a minha exigência de familiaridade. Esta razão, tão irrisória, é a que me opõe a toda criação”, escreve Camus no livro ensaístico O Mito de Sísifo. Sem ser consciente de si próprio, extinguem-se as interrogações existenciais, os porquês. A experiência artística é capaz de despertar a consciência, a dúvida.

Doenças, guerras e fome galopantes: como explicá-las? Existirá algo por trás do sofrimento, como propõe o cristianismo, assim como outras religiões? O sofrer é condição de elevação para uma vida-futura mais prazerosa? Ninguém consegue responder com total certeza. “Quem podia afirmar que a eternidade de uma alegria podia compensar um instante de dor humana”, questiona Camus por meio de um personagem no romance A Peste.

Apesar de pecar pela descrença, sem saltar na fé, discordo da constatação de “ser a vida uma só”. Parece-me improvável um paraíso pós-existência, a reencarnação — o que jamais me permitirá negá-las; quem sabe algum dia acredito em alguma ideia religiosa. Se inexistem vidas-outras como sugerem as religiões, como vivê-las? Pelo contato interminável com o outro, pela Arte. Vivo no Brasil de 2021, sou um carioca branco de classe média. Estou a poucos metros da praia de Copacabana, por onde caminharam tantos nomes da História brasileira, por onde sonham pisar tantos. E que tédio é ser quem sou, embora me desconheça, e estar no tempo e no espaço em que o acaso me lançou: existiram séculos antes, quiçá existirão séculos depois – e por que agora, por que aqui, universo?

Entretanto, ao alcance da mão está uma coletânea de contos do escritor russo A. P. Tchekhov (1860 – 1904), traduzidos por Boris Schnaiderman. Apenas esticando meus braços, lendo as páginas escritas há mais de cem anos em uma língua tão diferente do português, em um país tão distante do Brasil, apesar de cheio de semelhanças, vivo outras vidas. Cito Tchekhov porque é a mais recente obra literária descoberta por mim, como também pela proximidade física: de fato, está perto.

E menciono Tchekhov porque um conto específico, de nome Angústia, motivou-me a escrever o presente texto. Conta a história de um cocheiro na Rússia do século XIX, marcada pelo autoritarismo do Czar, pelas desigualdades brutais e pela rígida hierarquia social — temas caros ao autor, às vezes alvo da censura, como na estória curta Subtenente Prichibiéiev. Retornando ao conto, o condutor de cavalos é um homem pobre no frio russo. Durante o anoitecer, aguarda quase imóvel junto do cavalinho, ambos cobertos de neve feito objetos do cenário urbano, algum passageiro para ganhar uns poucos rublos.

O cocheiro sem nome narrado nem dito há pouco perdeu um filho. Residindo em um lar coletivo, as únicas companhias do condutor são o cavalo, os moradores do lugar e os passageiros. Os dois últimos, porém, ignoram os apelos dele para conversar. Quando alguém sobe no veículo, o enlutado tenta desabafar sobre a morte do filho. O primeiro passageiro desconversa, ao passo que os pedestres xingam cruelmente o cocheiro pela desatenção na condução. Em seguida, embarcam três jovens; a eles relata cuidadosamente a tragédia recente. Ouve em resposta: “Todos vamos morrer”. Depois intenta iniciar a articulação do luto em palavras: “Coisa esquisita, a morte errou de porta… Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho…”. Logo após dizê-lo, um dos garotos exclama “graças a Deus”, pois chegaram ao destino.

Regressando à residência comunitária, enfim tenta compartilhar a dor com outro morador. O interlocutor engole um pouco de água, em breve adormecendo com a cabeça coberta. Daí relata a voz narradora: “Estando sozinho, não pode pensar no filho… Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável…”. Sem nenhum companheiro da espécie para falar, sem nenhum ouvido humano para ouvi-lo, sem nenhum ombro para chorar, o cocheiro termina desabafando ao cavalinho, o único outro disponível a ele. Em uma pequena frase magistral, o narrador tchekhoviano iguala a urgência vital por água à de dizer: “Assim como o jovem quis beber, ele quis falar”.

A angústia por ser ouvido reaparece em outro conto de A. P. Tchekhov, Um dia no campo. Nele, o personagem angustiado é um garoto mendigo. Ao longo do dia, passeia pelo bosque junto da irmã pequenininha e de Tieriênti, um sapateiro sem sapato e sem lar do vilarejo vizinho. O garoto vislumbrou formigas, abelhas, nuvens, pássaros, peixinhos… estava maravilhado pelo céu, pelo chão, pelo mundo. Feito como estivemos ou estamos, vez ou outra, “quando ainda não nos cansaram a tepidez do tempo e o verde monótono dos campos, quando tudo é novo e ressuma frescor”. Quanto mais experienciamos as coisas, menos elas causam deslumbramento – ou seja, o prazer arrebatador da primeira vez se desfaz em repetições: mas a poesia, para citar de novo Gullar, “nasce do espanto”. E a criança e o artista se espantam, alcançam a vida escondida na própria vida.

Acerca do conto, o desejo ardente por compartilhar a experiência interior surge logo antes do menino dormir: “Tem vontade de contar para alguém tudo que está vendo mesmo agora, nas trevas, tudo o que lhe perturba a alma, e não há com quem conversar”. Dentro em pouco, descansa. E Tchekhov escreve um desfecho de derreter lágrimas congeladas: “As crianças adormecem, pensando no sapateiro sem lar. E, de noite, Tieriênti vem vê-las, faz sobre elas o sinal da cruz, coloca-lhes sobre a cabeça alguns pães. E ninguém vê tamanho amor. A não ser, talvez, a lua que desliza pelo céu e espia carinhosa, através do telhado cheio de furos, para o barracão abandonado”.

Apenas por meio da magia artística, somos capazes junto do cavalo de “ouvir” o desabafo do cocheiro russo, de “ver” junto da lua deslizante o amor transbordante de Tieriênti pelos irmãozinhos órfãos. Compartilhamos a dor profunda das personagens, porque algum dia vivemos a falta de outro ouvido humano. O condutor talvez nem precisasse ouvir algo específico, uma expressão pronta. Todavia, precisava articular a enorme angústia interior em palavras, o que é menos dolorido na companhia reconfortante de outra pessoa. Às vezes a tristeza tem de ser sentida feito tristeza, apesar do Zeitgeist contrariar tal princípio da psique humana: temos de ser alegres a todo instante! Alegres.

“Carpe diem”, “Todos morremos”, “E daí, quer que eu faça o quê?”, “Eu não sou coveiro”… Como viver sem empatizar com a vida do outro? Para mim, é morte. Apenas imagino, porque a contingência do cosmos ou algum Deus parcial me poupou por hora, o quão doloroso é perder uma pessoa querida. Em tempos de muitas mortes, quantos cocheiros travestidos de motoristas de Uber, de entregadores de aplicativo, de vendedores ambulantes, trabalham dia após dia em luto sem nenhum ouvido companheiro para ouvi-los? Vidas humanas tratadas somente como um meio descartável para obter satisfação, objetos do cenário urbano xingados vez ou outra pelos pedestres estressados por rotinas mortificadoras. E quantas crianças dormem no frio sem os pães quentinhos de Tieriênti, largadas esfomeadas sob a luz da lua? Tanto o condutor de cavalos quanto os irmãos imaginados por Tchekhov no desfecho do século XIX russo estão pelas ruas impassíveis do mundo contemporâneo.

Por mais esgotadas que estejam tais palavras, sinto verdadeiramente um tiquinho da dor dos que perderam amores pelo vírus ou por outras causas. E pelos abandonados por nós no concreto sujo, nos asilos, nas prisões. Atingem-me tanto as dores fictícias, porque verossímeis, quanto as reais. Aos humanos solitários, sou incapaz de oferecer uma solução fácil, imediata, todo-poderosa. Uma sugestão, a mim apresentada na leitura do conto Angústia pela Isabella Lubrano (Ler Antes de Morrer), é ligar para o Centro de Valorização da Vida (CVV), organização criada para ouvir quem necessita ser ouvido. O atendimento é voluntário, gratuito, sob sigilo e 24h todos os dias: o número é 188 para a totalidade do território brasileiro. Talvez o coração de Tchekhov se sentisse acarinhado com uma aplicação tão humanitária da tecnologia, tantas vezes utilizada para desumanizar o humano. A quem o acesso for possível, uma terapia psicológica é outra opção. Aliás, um conselho: possivelmente escrever um diário seja um alívio para alguns, pelo menos temporariamente.

Viver por algum tempo no mundo-outro da Arte é o contrário de ignorar o sofrer do tempo e do espaço em que vivemos. Para mim, as peças artísticas mais significativas são aquelas capazes de reconectar o ser humano à humanidade. Em um esforço contínuo para sentir o que sente o outro, o diferente de mim, o que é dificílimo, ouço as músicas de Bob Dylan, de Caetano Veloso, de Cazuza; contemplo os quadros de Edward Hopper, de René Magritte; assisto aos filmes de Bergman, da Marvel, da Pixar; leio os poemas de Carlos Drummond de Andrade; os contos de Clarice Lispector, de Edgar Allan Poe, de Lygia Fagundes Telles; os romances de Érico Veríssimo, de Jack London… Peço desculpas aos artistas omitidos: são inumeráveis, guardo-os dentro de mim.

Talvez esteja pondo no lugar dos ícones religiosos os artísticos, substituindo um conjunto de ideais por outro: a exaltação da Arte quase religiosamente. Tropeço na fé da qual busquei desviar? Estou disposto a despencar no abismo da contradição, da dúvida. Dentro em breve, estou cambaleando na superfície: enfim pronto para cair de novo. E de novo.

Acredito no seguinte: cada ser humano é um artista. Resta dormir para redescobrir as potencialidades artísticas da mente — os sonhos são obras de Arte complexas, dignas de uma gigantesca tela de cinema. De modo geral, conseguem despertar as reações mais intensas dos sonhadores, porque são produzidos sob medida pelo Outro interno, o inconsciente. Somos seres sociais, narrativos e artísticos. A nós, a Arte presenteia tantas vidas diversas: a partir dela, a vida é duas, é três, é mil e uma. A Arte é a redenção de um ser condenado à incompletude, à carência, à inconstância, à morte. A Arte é encontro, desencontro, transe, comunhão extasiante; é sonho, utopia, construção-possível de um porvir menos assustador. É transcendência mundana. Por hoje, concluo: o outro nos é indispensável, pois somos o outro.


Agradeço à leitura prévia e às observações atentas de João Vitor Santana. Permitiu-me esclarecer alguns pontos antes obscuros do texto. Espero ter me comunicado tanto com clareza quanto com beleza. Obrigado, amigo de olho, de ouvido, de coração, de tantas vivências conjuntas.



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