Esta semana, ocorreu a Cúpula pela Democracia virtual, liderado por Joe Biden, presidente dos Estados Unidos. Segundo o Departamento de Estado, o objetivo do evento é “fornecer uma plataforma para que os líderes anunciem compromissos, reformas e iniciativas individuais e coletivas para defender a democracia e os direitos humanos no país e no exterior”.

O fórum online, diz, solicitará “ideias ousadas e viáveis” sobre os temas “defesa contra o autoritarismo”, “combate à corrupção” e “promoção do respeito pelos direitos humanos”. Na mesma semana, Julian Assange perdeu uma apelação contra os Estados Unidos que abre o caminho sua extradição. O crime: ser jornalista.

Falar sobre os princípios de uma democracia e esconder o papel da liberdade de imprensa é uma ilusão. A imprensa deve atuar como um meio de informação entre a elite — seja política ou empresarial — e o povo, trocando informações entre os grupos e expressando a opinião do público sobre os assuntos. Mas além dessa troca, a imprensa também deve atuar como um meio combativo.

Como escrevi no último editorial da revista, “Nós não podemos mudar o mundo sem você”, a imprensa é revolucionária, porque consegue questionar tudo e todos, além de, potencialmente, poder estar em contato com cada indivíduo no país e no mundo, seja através de um celular, uma televisão, rádio ou jornal impresso.

O que Julian Assange fez foi notar o potencial revolucionário, de mudança, e atuar sobre isso. Ele não optou por se formar na faculdade de jornalismo e se acomodar apenas ‘dando opiniões’ e escrevendo colunas, ele partiu para a ação e resolveu questionar diretamente as estruturas de poder mais sólidas do planeta — entre elas, os Estados Unidos e seu sistema tecnocrático.

Na reunião, o presidente norte-americano se gabou de sua nova iniciativa de renovação democrática, incluindo medidas para apoiar uma mídia livre e independente: “É o alicerce da democracia. É como o público se mantém informado e como os governos são responsabilizados. E em todo o mundo, a liberdade de imprensa está ameaçada.”.

No entanto, onze anos atrás, um serviço digital britânico que coletava doações para o WikiLeaks enviou um e-mail à organização para dizer que encerrou sua conta porque foi colocada em uma lista de observação oficial dos Estados Unidos e em uma lista negra do governo australiano. Nessa época, Biden era vice-presidente.

A oratória agradável, polida e elegante de Biden e outros líderes do ocidente sobre a liberdade de imprensa não é nada mais, nada menos, do que um comentário para agradar cidadãos acomodados com a situação do mundo atual.

Para quem não acompanha geopolítica e não lê sobre, por exemplo, o recente acordo para venda de armas valendo cerca de 650 milhões de dólares que os Estados Unidos fecharam com a Arábia Saudita, certamente conhecida pelos seus princípios democráticos, acredita nas falas do presidente norte-americano. Aceitar a realidade negativa do mundo e atuar ativamente por mudança, ao invés de embarcar em um abismo niilista, é muito mais doloroso para o ego e a mente do que se iludir que o presidente dos Estados Unidos se importa com a sua vida. É sempre mais reconfortante mentir para si mesmo.

E é necessário frisar que Biden não é uma exceção por ser democrata ou liberal, ele é a regra por ser o presidente dos Estados Unidos. As acusações contra Assange começaram, na verdade, durante a administração Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos — algo que os democratas se negaram a fazer anteriormente por acreditarem que abriria um precedente contra a imprensa. Biden continuou com essa perseguição judicial. Ele poderia ter encerrado o processo ou concedido o indulto presidencial para Assange no fim deste ano, mas não o fez.

A nova vitória dos Estados Unidos elimina uma decisão dada em janeiro que afirma que extraditar o jornalista causaria um enorme dano para sua saúde mental. A juíza de primeira instância que analisou o caso, Vanessa Baraitser, afirmou que as condições das prisões norte-americanas eram extremamente opressivas e que isso agravaria o caso de depressão severa de Assange.

A defesa da liberdade de imprensa, professada por Biden e outros líderes democráticos do ocidente, significa, ao que tudo indica, ignorar evidências médicas que provam a condição mental de um jornalista para o extraditarem, condena-lo e, provavelmente, induzirem-no ao suicídio por conta de sua profissão.

Sabiá

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