Quando escolher um livro é uma experiência mistica


Meditações iniciais sobre romances, como escolher o próximo livro e espiritualidade para (des)crentes. 


I. Introdução; em inglês

Everyone knows that poets are born and not made in school. This is true also of painters, sculptors, and musicians. Something that is essential can’t be taught; it can only be given, or earned, or formulated in a manner too mysterious to be picked apart and redesigned for the next person.

Still, painters, sculptors, and musicians require a livery acquaintance with the history of their particular field and with past as well as current theories and techniques. And the same is true of poets. Whatever can’t be taught, there is a great deal that can, and must, be learned.

This book is about the things that can be learned. It is about matters of craft, primarily. It is about the part of the poem that is a written document, as opposed to a mystical document, which of course the poem is also.

Essa é a introdução de “A Poetry Handbook”, um pequeno livro-guia da grande poeta americana Mary Oliver. O livro veio a mim, como muitos outros antes dele, por uma conflação de eventos místicos. Agora, eu não sou particularmente capaz de sentir fé, não desde meus 12 anos e o meu encontro com “Os Irmãos Karamazov”, mas com os anos eu formulei uma espiritualidade sutil que, na minha imaginação, vive como uma argila que mistura silêncio, observação da natureza e literatura. Como os protestantes, para mim o encontro com deus — o que quer que isso seja — vem somente pelo encontro direto com a palavra escrita.

Para voltar à minha amada Mary Oliver: no início de 2017, após horas na Doe Library, a biblioteca principal da Universidade da Califórnia, Berkeley, uma fome rasgada me fez descer a escadaria principal a procura de algum café. No pé da biblioteca encontra-se uma sala de leitura menor, chamada Morrison Library, que possui uma ambientação sedutora: cadeiras de couro, tapeçaria pesada, escadas tortuosas e pequenas mesas coroadas com lâmpadas decoradas com babados e flores. Apesar da delícia da estética, eu mal frequentava esta sala, porque não importava o quão cedo eu chegasse na biblioteca, ou o quão tarde eu resolvesse me enterrar nela, eu nunca achava um assento vazio na Morrison. Por alguns anos eu tomei isso como uma rejeição, afinal eu mesma não era aluna da UC Berkeley, mas sim meu marido, e esta sala era só mais um espaço a qual eu não pertencia. Em 2017, talvez em março, enquanto eu andava apressada, uma voz afinada me parou os passos. Empurrei as portas pesadas e encontrei essa cena:

Eu não lia poemas na época. Eu aspirava ser uma romancista, lia o gênero com ardor desde a minha infância, mas por algum motivo durante os meus 20 anos eu achava que havia perdido algum elemento essencial para entender poesia, o que me envergonhava. Até que essa voz escapou pelos poros da Morrison, em algum dia do ano do “senhor 2017”, e eu soube então o que sabia há muito: uma experiência sobrenatural me chamava e me guiaria até um novo livro.

Eu não consigo lembrar-me do nome da poeta que fazia a recitação que eu filmei. Devo ter uma anotação em algum caderno, ou numa página deletada de Instagram, onde eu postei esse pequeno vídeo originalmente. Sei que era um evento que até hoje existe, Lunch Poems, uma série de recitação de poesia. Não consigo refazer meus passos para reencontrar a doce voz do meu vídeo, mas foi ela que me acendeu o desejo poético. Assim cantada, a poesia pareceu-me, finalmente, acolhedora. Corri de lá, literalmente, até a Half Price Books, o maior sebo da cidade de Berkeley. Perambulei pela sessão de poesia e esperei pacientemente para que o destino continuasse com seus planos.

E lá estava “A Poetry Handbook”, um título que prometia (e pôde) explicar-me os segredos que eu havia há tanto ignorado. Li ali mesmo no chão, inteiro, e depois voltei para Doe, onde li de novo, desta vez tomando notas meticulosas, estudando, sentido-me, enfim aquecida pelo conhecimento. Agora possuidora das chaves para o poético, nos próximos dias eu li toda a poesia de Oliver, ritual que repito todo ano desde então, com um prazer profundo. De Oliver, a magia levou-me para Walt Whitman, e depois para Eileen Myles e Ricardo Domeneck e depois e depois e depois. Tantos outros, todos conectados entre si por algum outro evento místico, um chamando o próximo. E assim fez-me o meu encontro com a poesia.

II. Outro encontro:

Também na Half Price Books, eu investigava a larga sessão dedicada para a minha obsessão do momento, Margaret Atwood, garimpando os títulos por alguma obra que eu pudesse ter perdido. Nada; eu já havia lido tudo. Até que um pequeno título desconhecido me pulou aos olhos: “A Jest of God”. Um pouco desnorteada, questionando como eu poderia ter ignorado um romance da escritora a qual eu estava dedicada há meses, demorei para perceber que o livro não era de Atwood, e sim de outra Margaret: Margaret Lawrence. O erro na organização foi fácil de decifrar, alguém havia agrupado as autoras pelo primeiro nome e não pelo sobrenome, e enquanto eu carregava “A Jest of God” para a prateleira correta, abri-o sem expectativas. E esta página apresentou-se a mim:

Atwood levou-me a Lawrence e depois deste livro foi como se a minha vida tivesse assentado em um conforto que desde então me envelopa. A maneira como ela perdoa o coração da sua frágil protagonista e a deixa pendular pela vida foi fundamental para que eu formulasse meu próprio estilo de escrita. E, acima de tudo, um parágrafo específico ficou desde então impresso em mim como nenhum outro, a delicadeza com a descrição germinando diretamente como eu hoje descrevo cenas:

Atwood levou-me a Lawrence e depois deste livro foi como se a minha vida tivesse assentado em um conforto que desde então me envelopa. A maneira como ela perdoa o coração da sua frágil protagonista e a deixa pendular pela vida foi fundamental para que eu formulasse meu próprio estilo de escrita. E, acima de tudo, um parágrafo específico ficou desde então impresso em mim como nenhum outro, a delicadeza com a descrição germinando diretamente como eu hoje descrevo cenas:

Foi uma entrevista de Atwood que me levou à Alice Munro; uma entrevista de Munro, à Lily King; de King à Elena Ferrante, Elizabeth Stout e Chris Kraus, e de Kraus à Miranda July e de July uma conexão sutil também me sugeriu que eu voltasse à Jane Austen. Todas chamando umas às outras, às vezes em blurbs (breve descrição de um livro, filme ou outro produto escrito para fins promocionais e aparecendo na capa de um livro ou em um anúncio publicitário), às vezes em entrevistas, às vezes em momentos mais místicos, surreais e sincronizados que só eu parecia ouvir. Saber responder ao chamado dos romances também alterou como eu entendo o meu mundo silencioso: uma impressão difícil de formular, algo como o conhecimento de que em tudo há uma beleza indestrutível e acessível a quem sabe ver.

III.

Eu tendo a ignorar sugestões de livros e propositalmente não leio o que está sendo muito discutido em público. Por exemplo, não li ainda “Torto Arado”, e cada nova foto que vejo de alguém posando seu exemplar (com a bela capa da edição da Todavia) perto de algum vaso de planta doméstica, me faz querer ler ainda menos. Eu preciso que ele chegue a mim na minha cadeia mística e, até que o faça, tendo a crer que não é nossa vez um com o outro.

Mas, há alguns anos, eu resolvi acatar uma recomendação de algum crítico qualquer sobre Magda Szabó. Eu havia terminado todos os livros de Elena Ferrante, e a vontade de ler mais autores europeus me fez procurar boas traduções. Foi bem nessa época que “The Door” começava a causar euforia no mercado americano e entreguei-me às sugestões certamente moduladas por algum algoritmo, que decifrou minha vontade.

Meu deus, como explicar o que “The Door” significou para mim, como descrever como a força de Emerance fez-me amar todas as mulheres da minha vida, como, enfim, expor o que é o místico no romance, o que é o místico para quem escreve, mas também para quem lê com o coração tão aberto como o que se entrega a um amante, a um filho? Não sei, não ainda, e não para além desta cena, que é real:

Eu estava no BART, uma espécie de metrô que conecta a cidade de São Francisco com a chamada Bay Area as outras cidades fronteiras da região. O BART é sempre cheio, em uma manhã eu havia feito o trajeto contrário ao meu destino só para chegar ao começo da linha e assegurar um assento vazio para o resto da longa viagem que eu teria, entre o norte de Albany, onde eu morava, e o sul de São Francisco, onde eu estudava. Sentada e sozinha, comecei a ler “The Door”. Depois de cerca de uma hora, e ainda longe do meu destino, uma voz feminina dirigiu-se a mim em inglês: “Comecei este livro hoje, não é lindo?”. Quando levantei os olhos uma cópia igual a que eu tinha em mãos flutuava em cima da minha cabeça. “Eu também comecei hoje” respondi, mas parei quando finalmente notei a face da mulher que falava comigo.

Ela era minha doppelgänger (termo que os alemães usam quando encontram uma pessoa muito parecida com outra). Não há outro jeito de descrever, a moça tinha o meu rosto, ou eu o dela: o mesmo nariz romano, os olhos negros jaboticaba, os dentes masculinos e sobrancelhas de Lobato. Ela tinha também o mesmo corpo almofadado, a mesma altura. Ela vestia uma camiseta cinza sem logo e calça jeans; a mesma roupa que eu sempre uso.

A locomotiva freou bruscamente e a moça fez com o corpo como quem vai sair. Eu só pude dizer: “você está amando o livro?” e ela disse: “sim, a beleza é imensa!” e saiu com os braços estendidos para frente do seu corpo, como se o que ela quisesse dizer é que a beleza do livro transbordava para fora dele também.

IV.

O maior destes eventos místicos talvez tenha acontecido com “Almas Mortas”, de Gógol. Eu cheguei a ele via uma pequena banca de jornal na rodoviária velha de Taubaté, que funcionava também como um sebo abarrotado e desorganizado, com mil exemplares de enciclopédias e Sítios do Pica Pau Amarelo. Eu já o conhecia de cor, todas as caixas e prateleiras já exploradas mil vezes por mim. Pelo menos uma vez por semana no meu caminho para o colégio, eu parava na banca e negociava um exemplar com o vendedor, um homem esguio e esverdeado, que deixava-me pagar mensalmente minhas compras. Eu estava há tempos reclamando que queria ler mais autores russos, mas ele só tinha Dostoievski e Tolstói, ambos que eu já havia concluído a leitura há muitos anos. Uma tarde quente, de fritar o cérebro, o homem finalmente sucumbiu às minhas reclamações e jogou-me esta cópia:

Eu acredito que eu comecei a lê-la enquanto eu caminhava o último trecho até o colégio, porque me lembro de matar a aula de redação onde eu deveria estar e sentar-me no asfalto quente para ler. Devo ter lido tudo em alguns dias, menos de uma semana. A edição era usada, cheia de grifos e anotações nos cantos, o que sempre me atrai:

Agora, a minha magia com “Almas Mortas” é esta: lembro-me de ler um parágrafo que falava sobre porque um escritor escreve. Lembro-me porque eu mesma desejava, precisava escrever, e o parágrafo apresentou-se a mim como a melhor justificativa para o trabalho da escrita, tanto do ponto de vista de quem se sente compelido ao ofício, como também pelo papel do livro no desenvolvimento humano. Ler aquele argumento bem desenvolvido, com poesia e verdade, levou-me a escrever minha primeira história do começo ao fim, uma peça de teatro. Imagino que você deve estar se perguntando o que tem de mágico nisso. Bom, aqui está: eu já reli este livro cinco vezes desde então e nunca encontrei de novo o tal parágrafo. Ele não existe mais, ou ele não se apresenta mais a mim, ou não é o tempo de eu o encontrar novamente. Talvez eu não precise mais dele, o que era para ser aceso agora queima. Mas espero ter outra chance, ainda que para apenas admirar uma coisa mágica sabendo que eu pude crer nela, por todos estes anos, como uma boa devota.

Agora, a minha magia com “Almas Mortas” é esta: lembro-me de ler um parágrafo que falava sobre porque um escritor escreve. Lembro-me porque eu mesma desejava, precisava escrever, e o parágrafo apresentou-se a mim como a melhor justificativa para o trabalho da escrita, tanto do ponto de vista de quem se sente compelido ao ofício, como também pelo papel do livro no desenvolvimento humano. Ler aquele argumento bem desenvolvido, com poesia e verdade, levou-me a escrever minha primeira história do começo ao fim, uma peça de teatro. Imagino que você deve estar se perguntando o que tem de mágico nisso. Bom, aqui está: eu já reli este livro cinco vezes desde então nunca encontrei de novo o tal parágrafo. Ele não existe mais, ou ele não se apresenta mais a mim, ou não é o tempo de eu o encontrar novamente. Talvez eu não precise mais dele, o que era para ser aceso agora queima. Mas espero ter outra chance, ainda que para apenas admirar uma coisa mágica sabendo que eu pude crer nela, por todos estes anos, como uma boa devota.

V.

Eu quero escrever sobre a relação do homem com a literatura, até porque o entendimento se faz na formulação. Também porque conhecer romances é conhecer a mim mesma. Inicio assim esta série. Estou na antessala de um argumento sobre a história da produção literária do gênero e na formulação de meu próprio argumento místico sobre o que é, enfim, mágico em um romance.



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