A ‘geopolítica’ do jornalismo nas lentes do WikiLeaks

Um professor de política internacional da Universidade de Sydney, John Keane, sugeriu em diversas de suas pesquisas (2009) que a luta pela liberdade de imprensa ocorreu primeiro nas regiões norte e oeste da Europa antes de se espalhar para as colônias norte-americanas. Não é exagero presumir que esta exata luta pela liberdade de imprensa começou com a invenção da imprensa. Na verdade, pode-se argumentar que esse esforço, de uma forma ou de outra, nunca se extinguiu.

O WikiLeaks foi fundado em 2006 com a visão pejorativa e desmoralizada de organização de ‘hacker da NASA’ atrelada ao australiano Julian Assange. A plataforma produziu dados brutos, não histórias — coisas como e-mails pessoais de Sarah Palin, documentos sobre tortura em Guantánamo ou listas de membros de organizações neonazistas por todo o mundo. Os milhares de memorandos, telegramas e outros documentos sobre os esforços dos EUA para patrocinar guerra no Oriente Médio e desestabilizar nações, foram revelados quando Assange conseguiu intermediar com Chelsea Manning para invadir os servidores do Pentágono, o que alavancou o WikiLeaks a outro nível. O resultado foi claro. Alguns viam Assange como um herói, outros como um terrorista da internet. 

O WikiLeaks, para efeitos de lei e políticas públicas, é uma organização jornalística. Para ter um sistema jurídico funcional que privilegie o tipo de transparência e informação de que precisamos como uma democracia, você deve argumentar que WikiLeaks é jornalismo e Julian Assange é jornalista e publicador. Vemos que a estrutura de poder das notícias mudou menos do que algumas pessoas diriam. O fato de Assange e o WikiLeaks colaborarem com organizações de notícias tradicionais nos últimos anos diz muito bem sobre o poder contínuo de veículos de notícias tradicionais pelo mundo todo.

De qualquer forma, foi uma época inebriante. O WikiLeaks foi considerado um novo tipo de organização que se mantinha por meio de informação de forma colaborativa, alimentado pelo poder da Internet e pela democratização da informação. Isso nos obriga questionar o quão confortáveis ​​estamos com a forma real de democratização da informação e do conhecimento criada pela Internet.

“Há uma necessidade desesperada de nosso trabalho”, explicou Sarah Harrison, membro do staff jurídico do WikiLeaks, em uma coluna de 2016 no The New York Times. “O mundo está conectado por redes de poder em grande parte e inexplicáveis, ​​que abrangem indústrias e países, partidos políticos, corporações e instituições. O WikiLeaks destaca isso ao revelar não apenas incidentes individuais, mas informações sobre estruturas inteiras de poder.”

Os métodos da organização podem ser vistos como uma ameaça aos tradicionais guardiões do poder do jornalismo — aquele mesmo, o corporativo e elitista. Mas o jornalismo abrangeu muitas tradições ao longo das décadas e séculos.

“O WikiLeaks influenciou duas tendências positivas para o jornalismo na última década”, já dizia Lisa Lynch, professora de jornalismo da Drew University que escreveu sobre a organização diversas vezes. Ela enfatizou a importância do jornalismo baseado em dados, uma ferramenta cada vez mais valiosa para o entendimento do mundo da geopolítica.

 Uma vez que o WikiLeaks estava frequentemente disposto a trabalhar com veículos tradicionais na divulgação de informações, também encorajou as organizações de notícias a cooperar mais na busca de histórias que fossem de interesse público, mas que estariam carimbadas como confidenciais. A investigação “Panama Papers” de 2016, que revelou os paraísos financeiros offshore de líderes políticos, famosos de Hollywood e instituições bancárias, mostrou o que realmente pode acontecer quando jornalistas se unem.

Vazamentos sempre foram uma moeda crucial no jornalismo. Mas ninguém antes havia criado uma caixa de ‘depósito eletrônica’ (SecureDrop) conveniente e relativamente fácil de usar que pudesse quase instantaneamente, com sigilo absoluto, receber gigabytes de informações sensíveis. Assange fez isso em um momento oportuno, conforme o mundo ia se conectando e as mídias sociais se mostravam eficientes para alimentar um público maior. “A criptografia era então propriedade exclusiva dos estados”, escreveu ele em 2013. “Escrevendo nosso próprio software e disseminando-o por toda parte, liberamos a criptografia, democratizamos e disseminamos através das fronteiras da nova internet”, finaliza.



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